Segundo Letícia Vianna, a oportunidade de emprego na orquesta da Rede Globo foi respondida com esforços claros de profissionalização artística, pois agora que Bezerra “vivia de música”, ele se empenhava para aprender os princípios fundamentais da teoria musical a fim de se tornar um profissional devidamente registrado na Ordem dos Músicos do Brasil. Bezerra procura ainda ampliar seus conhecimentos musicais e estuda violão clássico por oito anos, tempo em que domina os instrumentos percussivos comuns às rodas de samba e também experimenta o cavaquinho. Ainda de acordo com Vianna, à época de sua pesquisa Bezerra aprendia piano e freqüentava esporadicamente algumas aulas em um conservatório musical.
Essa expressa necessidade de incrementar seus dotes musicais e dominar diversos instrumentos aparece como um dado marcante no reconhecimento que o próprio Bezerra tinha de si como artista. Como evidência de sua versatilidade, destacamos a canção “A necessidade”49
49 Bezerra da Silva e Genaro, Partido Alto Nota 10, CID, 1977.
, em que o cantor Genaro anuncia a chegada do pandeiro, do tamborim e do agogô. Bezerra da Silva recebe a cuíca e o seu parceiro fecha pronunciando que ganzá, surdo,
cavaco e viola chegam para deixar o ambiente pronto para se executar um pagode. Cantando samba de partido alto, os dois alternam uma primeira estrofe fixa, onde se repetem os versos: “A necessidade obrigou/ você a me procurar/ Você era orgulhosa/ mas a necessidade acabou com a sua prosa/ Você era, orgulhosa/ mas a necessidade acabou com a sua prosa”50
Bezerra e Genaro se alternam nas partes faladas que sucedem o refrão, destacando o improviso que caracteriza esse tipo de samba. No primeiro momento em que Bezerra versa sozinho, vai logo avisando que "Artisticamente falando Bezerra da Silva tem muito valor/ Toca surdo, toca tamborim, canta partido alto e é compositor". Esse improviso inaugura também o LP “Partido Alto Nota 10”, o primeiro disco em que Bezerra deixa de lado a música regional para se dedicar exclusivamente à nova fase de sua carreira, marcada por uma aproximação estética definitiva com o samba.
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Depois de se render a esse gênero, várias das entrevistas que evidenciam a figura de Bezerra da Silva no cenário musical brasileiro apontam para sua versatilidade e inteligência, atestadas como qualidades únicas deste sambista, já que em certa medida sua obra destoava do ambiente improvisado das rodas de samba e sua musicalidade não era atribuída a um talento nato que marcava a vida de tantos outros artistas. Uma vez questionado sobre a qualidade musical dos grupos e cantores de outros gêneros musicais que reverenciavam sua obra, Bezerra disse de maneira bastante clara que “cada um faz o que sabe. Eu não tenho gênero. Sou clave de sol na segunda linha, clave de fá na quarta”. No decorrer da matéria51
Em outra ocasião, quando o artista explicava seu interesse pela teoria musical e pelo aprendizado de outros instrumentos, ele atribuía seu aprimoramento à maneira de se escapar das dificuldades que enfrentou desde os primeiros anos como trabalhador da construção civil. “O meu negócio com a música desde o começo foi medo da fome (...) Percebi que se continuasse na obra, ia ficar igual os outros; era capaz de virar uma escada, um tijolo, um saco de cimento”, disse ele em entrevista ao crítico musical Tárik de Souza (JORNAL DO BRASIL, 12 jul. 1991, p.04).
a fala do sambista é ratificada quando atestam que, em seu tempo livre, “Bezerra toca piano e se esmera no estudo de trompete por partitura”.
Contudo, Bezerra não enxergava o melhoramento como artista apenas como meio de sobrevivência, pois, para ele, mesmo as músicas que gravava junto aos compositores da
50 Ibid, ibidem.
favela necessitavam desse saber. Em depoimento ao já citado documentário “Onde a coruja dorme”, ele destaca que:
(...) o compositor aqui do morro, ele é analfabeto da vida. Ele é analfabeto musical e também não tem instrução. Então ele faz uma melodia, uma linha melódica... e depois ele também não sabe o que que é. Eu já tive essa experiência... é muito bonito, cheio de acidentes, sustenidos, bemóis e tal... que eu já tirei melodias e depois toquei no piano lá (...)
Com o intuito de melhor transmitir essa relação entre sua astúcia musical e a produção do morro, ele encena um possível diálogo com um dos seus compositores:
- Mas tu senta aqui.
(Aí começo a tocar nota Sol lá...) - E de quem é essa música aqui? - Isso aí eu não sei não.
(E depois ele vai ouvindo e diz...) - Eu acho que eu conheço isso aí. (E digo...)
- Não, isso é seu!
Por meio desse tipo de conversa percebemos de que maneira Bezerra da Silva utilizava de seus conhecimentos musicais e porque para ele seu aprimoramento era tão válido. Ele funcionava como um intermediador entre o morro e a gravadora, pois, através de sua técnica, podia transformar uma música, que, apesar de bela, possuía ainda uma apresentação rudimentar, em algo que seria definitivamente aprovado para ser uma das faixas de seu álbum. Todavia, ao contrário de práticas comuns ao mundo do samba – em que os grandes intérpretes realizavam o processo de mudança e apropriação das canções, Bezerra sempre se preocupou em reafirmar que seus compositores, apesar de suas limitações, eram os proprietários das criações artísticas que gravava. E é justamente essa preocupação de conceder crédito as pessoas certas que nos apresenta a importância do significado dos compositores para Bezerra.
Na canção “O rei da cocada preta”52
52 Bezerra da Silva, É esse aí que é o homem, RCA Vik, 1984.
, uma das poucas faixas em que ele aparece como autor em parceria com Décio Carvalho, ele retoma a questão da compra de sambas como algo que deveria ser combatido por aqueles que possuem o privilégio de criar uma canção e desabafa:
Você pode ser a maior fortuna do planeta/ o rei da cocada preta/ o dono do samburá/ Sim, mas não é a mim/ que você vai subornar/ Você não é compositor/ Como é que você quer gravar? (...) Deus não te deu inspiração/ Essa é a grande realidade/ Fazer samba é privilégio/ não se aprende em faculdade/ Você diz que compra tudo/ mas a mim você não corrompe/ Porque talento é um dom/ e não há dinheiro que compre (...) Quem é você seu desonesto?/ Pra dizer a mim que é pagodeiro?/ Você é “comprousitor”, intrujão e trambiqueiro/ A verdade só dói no mentiroso/ e por esse motivo ela não agrada/ Quem está falando sou eu/ partideiro indigesto da pesada.
Percebe-se, então, que a possibilidade de obter lucros com a venda de sambas é, para Bezerra, uma questão rodeada por tensões53. Em 1984, numa entrevista para Giovanni
Faria do jornal “O Globo”, ele diz que a venda de sambas era prática bastante comum, mas que naquele momento parecia experimentar uma visível mudança. Ele ressalta que “tem muito branco aí que subia a favela para roubar samba de preto. Hoje, estes são mais espertos e já não são mais enganados”54
Em outra entrevista, concedida ao jornalista Ruy Castro
. O sambista ainda destaca sua crença na existência de barreiras que impediam o acesso dos compositores desconhecidos à indústria dos discos.
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Mais uma vez, agora em 1988, essa temática é colocada em evidência por Bezerra. Na canção “Pobre compositor”, do disco “Violência gera violência”
, Bezerra reforça seu argumento de que os compositores do morro são excluídos e se coloca como porta-voz deles. Nesse sentido, ele aponta a existência de artistas do morro que, mesmo tendo o talento necessário para compor sambas, chegavam nas gravadoras “(...) passavam na porta e não entravam. Ou então eram roubados pelos cantores”. Contudo, ele se põe como defensor dessa gente e proclama: “mas isso agora acabou porque eu subo ao morro, conheço todo mundo e tomo conta”.
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53 Bezerra da Silva denuncia como o controle sob a arrecadação dos direitos autorais não emprega uma política condizente ao enorme sucesso que a canção “Malandragem dá um tempo” atingiu com a regravação feita pelo grupo Barão Vermelho. Enquanto a banda de rock foi prestigiada com a venda de milhares de discos,“Adelzonilton só recebe uns R$ 3,00 mensais de direitos autorais”. (Poetas do samba, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 ago. 2001.)
ele coloca em evidência a fala de um sofrido compositor que pede ajuda aos “cantores brasileiros” para que gravem suas canções, já que ele não tinha essa oportunidade. Ele destaca que, sem nenhuma alternativa, a personagem faz uma última oferta aos senhores “comprousitores” musicais,
54 Bezerra da Silva: o mestre da malandragem, O Globo, Rio de Janeiro, 17 out. 1984. 55 Cuidado, Moreira, o Bezerra não é mole. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 mai. 1985. 56 Bezerra da Silva, Violência gera violência, BMG Ariola, 1988.
dizendo que “vende barato” sua bela canção. Para mostrar a outra vertente dessa situação, a que mais se aproxima de sua obra, Bezerra grava a canção “Compositores de Verdade”57, em
que demonstra a importância dos compositores em sua carreira. O samba, que foi criado a partir dos títulos das músicas que interpretou, termina em um agradecimento a todos os “compositores de verdade” que garantem a “razão do seu sucesso”.