A suinocultura é considerada, pelos órgãos de fiscalização e proteção ambiental, como atividade de grande potencial poluidor, face ao elevado número de contaminantes contidos nos seus efluentes, cuja ação, individual ou combinada, representa uma fonte potencial de contaminação e de degradação do ar, dos recursos hídricos e do solo (PEREIRA, 2006).
Souza, Lucas Júnior e Ferreira (2005) afirmaram que a problemática ambiental da suinocultura está no fato de que, a partir do momento em que se optou por explorações em regime de confinamento, o total de dejetos gerados, anteriormente distribuído na área destinada à exploração extensiva, ficou restrito a pequenas áreas. Além disso, houve aumento crescente da demanda por produtos de origem animal e aumento do emprego de tecnologia moderna (mecanização de operações, melhor alimentação do rebanho, controle mais eficiente de doenças, etc.), resultando em aumento efetivo do rebanho, acompanhado por índices elevadíssimos de produtividade.
De acordo com Diesel, Miranda e Perdomo (2002), a capacidade poluente dos dejetos suínos, em termos comparativos, é muito superior a de outras espécies. Utilizando-se o conceito de equivalente populacional, um suíno, em média, equivale a 3,5 pessoas. Desta forma, uma granja com 600 animais possui poder poluente, semelhante ao de um núcleo populacional de aproximadamente 2.100 pessoas.
Os dejetos suínos são constituídos basicamente por fezes dos animais, as quais normalmente se apresentam na forma pastosa ou sólida, além da urina e da quantidade de água utilizada na higienização das baias e bebedouros (OLIVEIRA, 2006). Além disso, a água residuária produzida depende, dentre outros fatores, do número e idade dos animais, resíduos de ração, pêlos, poeira e outros materiais decorrentes do processo criatório (CORRÊA e CORRÊA, 2003). Conforme Oliveira (2000), esses fatores associados definem a concentração de sólidos na água residuária, os custos com estruturas de tratamento ou de armazenamento e a necessidade de área para recebimento dessas águas, como forma de adubação orgânica; caso seja esta a maneira escolhida para disposição do resíduo.
Segundo Konzen e Alvarenga (2005) a maior parte dos criatórios suinícolas produz dejetos com sólidos totais (ST) que variam de 0,27 % a 3,63 % e, conforme
a concentração de sólidos, os dejetos e os biofertilizantes de suínos apresentam composição variável, como pode ser observada na Tabela 01.
Tabela 01. Valores médios de nutrientes de dejetos de suínos de acordo com o teor de sólidos kg m-3 ou kg t-1 de dejetos Sólidos/Elementos N P2O5 K2O NPK Dejetos 0,27 % de ST 0,98 0,52 0,75 2,25 Dejetos 0,72 % de ST 1,29 0,83 0,88 3,00 Dejetos 1,63 % de ST 1,91 1,45 1,13 4,49 Biofertilizante 0,41 % de ST 1,04 1,00 0,42 2,46 Biofertilizante 0,60 % de ST 1,10 0,58 0,70 2,38 Biofertilizante 1,27 % de ST 1,17 0,81 0,89 2,87 Fonte: MIRANDA et al. (1999), EMBRAPA SUÍNOS E AVES, EMATER-SC, EPAGRI-SC. EMBRAPA MILHO E SORGO (2005) citados por KONZEN e ALVARENGA (2005).
Neste sentido, Oliveira (1993) destacou que os dejetos podem apresentar variações em seus compontentes, dependendo do sistema de manejo adotado, como pode ser observado na Tabela 02, na qual são apresentadas as variações de dejetos suínos produzidos.
Tabela 02. Produção média diária de dejetos em diferentes categorias de suínos
Categoria (kg dia Esterco -1) Esterco e urina (kg dia -1) Dejetos líquidos (L dia-1)
Suínos de 25 a 100 kg 2,30 4,90 7,00
Porcas em gestação 3,60 11,00 16,00
Porcas em lactação + leitões 6,40 18,00 27,00
Cachaços 3,00 6,00 9,00
Leitos na creche 0,35 0,95 1,40
Média 2,35 5,80 8,60
Fonte: OLIVEIRA (1993).
A água residuária de suinocultura contém matéria orgânica, nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, sódio, magnésio, manganês, ferro, zinco, cobre e outros elementos incluídos nas dietas dos animais (DIESEL, MIRANDA e PERDOMO, 2002). Oliveira (2001) descreveu ainda, que os suínos excretam, nas urinas e nas fezes, de 40 a 60 % do nitrogênio consumido. Assim, a composição do dejeto de suíno é muito variável, ainda mais no que se refere às águas residuárias produzidas, uma vez que esta também está condicionada à forma de
manejo dos dejetos e à quantidade de água incorporada a eles (PEREIRA, 2006). A composição média das águas residuárias de suinocultura pode ser observada na Tabela 03, conforme descrito por diversos autores.
Tabela 03. Características físico-químicas da água residuária da suinocultura Autores Parâmetro* BRANDÃO et al. (2000) BAUMGARTNER (2003) ANAMI (2003) SUSZEK (2005) DOBLINSKI (2006) pH - 8,13 8,00 8,63 - N 936,00 1942,05 147,95 190,00 1296,00 P 88,00 22,50 30,80 75,00 28,00 K 504,90 565,00 450,00 200,00 0,51 Ca 130,00 - - - - Mg 50,50 - - - - Zn 1,15 - - - - Cu 1,61 - - 7,79 - DQO - 3208,00 2062,00 795,00 1967,50 DBO - 987,00 594,00 - 483,00
* Todos os parâmetros, exceto pH, estão expressos em mg L-1.
Neste sentido, as águas residuárias de suinocultura podem apresentar nutrientes em quantidades suficientes para serem aproveitados na fertirrigação de culturas agrícolas, levando ao aumento da produção e produtividade (GOMES FILHO et al., 2001). Ceretta et al. (2005) relataram que a aplicação de dejetos de suínos no solo é uma forma de ciclar e disponibilizar nutrientes às plantas.
Entretanto, Basso (2003) ressaltou que o uso de dejetos como fertilizante orgânico tem sido feito porque este contém uma série de elementos químicos prontamente disponíveis, ou que, após o processo de mineralização estarão disponíveis e poderão ser absorvidos pelas plantas da mesma forma que aqueles oriundos de fertilizantes minerais industrializados. Porém, ao contrário dos fertilizantes minerais que possuem composição mínima definida para cada condição de cultura e/ou solo, a composição do dejeto é extremamente desbalanceada em relação aos fertilizantes minerais e depende da alimentação fornecida aos animais, do manejo hídrico e das condições de armazenamento, o que dificulta a recomendação de doses padronizada. Por isso, aplicações contínuas poderão ocasionar desequilíbrios de nutrientes no solo e a gravidade do problema dependerá do tempo de
aplicação, da composição e da quantidade de dejeto aplicado, além do tipo de solo e da capacidade de extração das plantas (BASSO, 2003 e BARROS et al., 2005).
Diesel, Miranda e Perdomo (2002) relataram pesquisas realizadas por Scherer et al. (1996) e de Scherer e Castilhos (1994) que o esterco de suínos quando utilizado de forma equilibrada, constitui um fertilizante capaz de substituir com vantagem parte ou, em determinadas situações, totalmente a adubação química das culturas. A reciclagem do esterco como fertilizante na propriedade, mostrou-se economicamente viável, desde que apresente no mínimo 5 kg de nutrientes por metro volumétrico, o que só ocorre quando o esterco apresenta uma densidade mínima de 1012 kg m-1.
A forma em que o nitrogênio se encontra no dejeto e a inclusão ou não da urina junto às fezes são fatores que afetam o potencial fertilizante desse resíduo. Em média 20 % do nitrogênio ingerido são excretados, estando 30 % contido nas fezes e 70% na urina (CHEVERRY et al., 1986). Com mais de 50 % do nitrogênio total já na forma mineral prontamente disponível às plantas, esse resíduo tem se constituído numa ótima fonte desse nutriente e sua eficiência de uso está relacionada ao manejo durante o armazenamento e, principalmente, por ocasião de sua distribuição na lavoura.
Sendo assim, apesar do dejeto à curto prazo influenciar positivamente na produtividade das culturas, esta utilização é problemática à médio prazo, uma vez que existe desequilíbrio entre a composição química dos dejetos e a quantidade requerida pelas plantas, o que poderá resultar em acúmulo de nutrientes no solo e, conseqüentemente, ao ambiente. Portanto, deve-se assegurar que as quantidades retiradas pelas plantas sejam repostas através de adubações orgânicas ou químicas e que as quantidades de nutrientes adicionadas não sejam maiores do que aquelas possíveis de serem absorvidas pelas plantas (DIESEL, MIRANDA e PERDOMO, 2002).