Soares (1914) mostra-nos que as adivinhas eram ditas em versos, daí serem apresentadas em “Subsídios para o Cancioneiro do Arquipélago da Madeira”, juntamente com trovas ou quadras populares, religiosas e profanas, e “romances”. Como escreve o autor, trata- se de um “tesouro tradicional e lexicológico do Arquipélago da Madeira”, traduzindo a grande riqueza da diversidade do património imaterial regional.
No âmbito dos estudos da cultura popular madeirense, a nossa contadora de estórias recitou-nos um conto de tradição oral, “A vaquinha da Maria”, e dois “romances” tradicionais também transmitidos oralmente, “A Linda Pastora” e a “Infantina”. Estas parecem ser as estórias do romanceiro português, enquanto género medieval, mais popularizadas, ou seja, com maior enraizamento na memória das populações rurais das ilhas da Madeira e do Porto Santo, perpetuadas pela tradição oral moderna. No que diz respeito à “Linda Pastora” e à “Infantina”, como podemos ver, apesar de serem em grande parte prosificações, tendência para a narrativa ser feita em prosa, não deixam de ser “romances” de pleno direito. Porém, ainda existem alguns vestígios de rima em verso, conservando algumas palavras e formas antigas da Língua Portuguesa, assim como traços dialetais madeirenses (por exemplo o –e final de palavra em vez de –o e o voua por vou) e características da oralidade (como a omissão de sílabas, a contração de vogais e mesmo a falta de concordância entre o sujeito e o verbo).
Sabemos que a linguagem popular e regional apresenta uma grande riqueza ou abundância lexical, resultante da expressividade e da criatividade do povo (a classe social menos escolarizada da população), que utiliza vocabulário padrão e não-padrão
ou diferencial (populismos e regionalismos). Esta literatura tradicional, enquanto património oral linguístico e cultural madeirense, traduz toda essa riqueza expressiva, pois, como vimos, cada estória tem diferentes versões, com as suas variações e variantes, que andam “na alma do nosso povo, que é preciso coligir, enquanto é tempo, para que se não perca…” (Freitas, 1955: 31). A transmissão oral dos contos populares e dos romances tradicionais, tal como das adivinhas de sabor etnográfico, está a desaparecer, perdendo-se uma importante herança cultural que importa resgatar da memória das gerações mais idosas para que possa chegar às novas gerações.
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