3. Value-creation by Norway-based oil&gas supplier companies
3.1. A longer term perspective on value-creation in the industry
Esse bilhete apresentou a ausência de um dos elementos textuais deste gênero, a despedida; também observamos a ausência do ponto final, fato já observado em seu texto anterior. Tal ausência – já discutida anteriormente – não comprometeu a compreensão do teor de seu bilhete.
Ressaltamos que durante a produção desta atividade (e algumas outras), Vitor estava motivado a terminar seu texto com o colega para auxiliar a produção dos outros, como mostra na imagem acima (o aluno constantemente levantava-se de sua carteira para auxiliar os colegas). Apontamos que essa motivação levou-o a escrever um texto curto, mas coerente e sequenciado.
Legenda do bilhete de Vitor
canila
eu gosto de voce muitobule
Os exemplos destacados, sendo aqueles que mais ou ainda aqueles que menos se aproximaram dos aspectos linguísticos que caracterizam o gênero bilhete, revelaram competências importantes que sugerem algumas conclusões.
A escrita do bilhete, como já mencionado anteriormente, parece facilitar a atribuição de sentido à escrita em comparação com outros gêneros, visto que o primeiro parece se aproximar mais da escrita cotidiana de fatos reais e significativos. Além dessa atribuição de sentido, destacamos também a motivação dos alunos em realizar essa atividade. Provavelmente, a motivação desses alunos relacione-se ao nível de exigência para sua realização. O leitor atribui uma funcionalidade imediata à escrita do bilhete, visto que seu conteúdo expressa o desejo de comunicar algo a alguém. No estudo de Gomes (2006), a autora destacou que o bilhete por sua característica funcional implica em um envolvimento afetivo, que pode interferir de modo positivo na produção escrita.
Outro aspecto que merece destaque diz respeito à contribuição do trabalho em parceria quando os alunos são solicitados a produzirem textos. Parece que a complexidade de fatores inerentes à produção de sentidos por meio da escrita parece ser atenuada quando os escritores são solicitados a produzir textos em parceria, especialmente quando essas produções se caracterizam pela proximidade com os gêneros orais, como foi o caso da solicitação da escrita de um bilhete.
A produção textual pressupõe variadas habilidades, dentre elas destacamos a necessidade de um planejamento prévio. A possibilidade de um planejamento em parceria, bem como a interlocução com o outro na geração de ideias, parece interferir qualitativamente na produção escrita.
Dando prosseguimento a frequência de ocorrência de gêneros nas produções analisadas dos alunos com deficiência intelectual, identificamos a baixa frequência dos gêneros relato de vida, carta e convite, com frequência de 1, 2 e 1, respectivamente.
O primeiro texto – relato de vida – foi trabalhado na sala do Douglas e foi realizado, extraordinariamente, devido a uma atitude que sugeriu discriminação por parte de alguns alunos da sala com o aluno participante da pesquisa. Durante este momento foi observado que alguns alunos chamavam atenção para sua dificuldade de aprendizagem e sua situação socioeconômica. Assim, devido ao episódio citado, decidimos, pesquisadora e professora, realizar uma atividade que pudesse estreitar os laços de amizade e o respeito entre os alunos, bem como, fomentar o papel social que ele pode (e deve!) desempenhar em sala, relatando a história de vida de um colega.
Entendemos por relato de vida uma narrativa que apresenta dentre as suas funções relatar algo sobre alguém.
Cardoso (2003), ao tentar conceituar as narrativas, chama atenção para a dificuldade (tanto para a pesquisa quanto para o ensino) em sistematizar os gêneros, dado seu aspecto maleável, multiforme e sua grande diversidade. Sendo assim, a autora enfatiza que existe uma complexidade em definir e sistematizar a descrição dos mesmos, e sugeri uma alternativa para viabilizar o entendimento conceitual e à progressão didática. Esta alternativa diz respeito ao agrupamento de gêneros. Segundo a autora esse agrupamento pode ser realizado
a partir de três critérios – domínios essenciais da comunicação em nossa sociedade, tipologias já construídas e capacidades de linguagem implicadas – narrar, relatar [grifo meu] , argumentar, expor e descrever ações [grifo do autor] são apresentados como grandes pilares, a partir dos quais é possível situar uma infinidade de gêneros, orais e escritos (p.100).
Já Perroni (1992), ao tentar identificar os tipos de narrativa, conceitua os relatos como “narrativas construídas para recuperar linguisticamente uma sequência de experiências pessoais pelo narrador” (p.75).
Para Bronckart (1999) toda historia contada/narrada implica uma sequencia narrativa, que por sua vez, é subsidiada por um processo de intriga. Nas palavras do autor,
embora cada história contada mobilize personagens implicados em acontecimentos organizados no eixo do sucessivo, só se pode falar de sequência narrativa quando essa organização é sustentada por um processo de intriga. Esse processo consiste em selecionar e organizar os acontecimentos de modo a formar um todo, uma história ou ação completa, com início, meio e fim. Um todo acional dinâmico: a partir de um estado equilibrado, cria-se uma tensão, que desencadeia uma ou várias transformações, no fim das quais um novo estado de equilíbrio é obtido. Um todo acional igualmente produtor de causalidade: [grifos do autor] à ordem cronológica dos acontecimentos se sobrepõe uma ordem interpretativa, que fornece causas e/ou razões aos diversos encadeamentos constitutivos da história (p.220).
Para Vasconcelos (2000 apud Melo, 2009), o relato de vida promove “voos bem amplos, possibilita articular biografia e história”; perceber e compreender como o homem e o meio se inter-relacionam; “como as pessoas lidam com as situações da estrutura social mais ampla que se lhe apresentam em seu cotidiano, transformando-o em espaço de imaginação, luta, acatamento, resistência, ressignificação e criação” (p. 89).
Passos (2000), com uma visão semelhante à supracitada, afirma que o relato de vida “aponta para aquilo que é fabricado, inventado ou transmitido como realidade.
Sinaliza, também, para tudo o que é escondido, obscurecido, mascarado e precisa ser recuperado, libertado do silêncio, tirado da penumbra” (p. 9).
Para a realização da atividade com relato de vida, pedimos que os alunos escrevessem um texto, em que um deles seria o escriba e outro o relator dos fatos importantes da sua vida, trocando essas funções posteriormente. A atividade escrita por Douglas e relatada por seu parceiro é ilustrada pela imagem abaixo:
Imagem 7 – Relato de Vida do colega escrito por Douglas