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3. OPPGAVENS TEORETISKE BAKTEPPE

3.2 Byteori

3.2.3 Lokaliseringsteori

Ainda em março de 2010, 13 dias após a publicação do último vídeo da saga “Preludes”, o público que já ansiava por novidades dentro daquele universo, teve acesso ao primeiro videoclipe produzido por iamamiwhoami, “b”. Mais uma vez o projeto caminhou por métodos não-convencionais de produção e distribuição de conteúdo,

valendo-se apenas da atenção das pessoas que até então haviam sido atingidas pela sua ação anterior, através dos Preludes.

Ao abordarmos os chamados “métodos não-convencionais”, pensamos na ideia padrão de que o videoclipe, durante algum tempo, restringia-se a um produto estritamente televisivo, existindo quase que exclusivamente com o intuito de impulsionar a visibilidade de um artista, potencializando a demanda de seus álbuns. Segundo Thiago Soares (2013):

Pode-se apresentar na relação entre o videoclipe e os ditames da indústria fonográfica, uma série de produtos que circundam e são gerados de forma a orbitarem em torno de uma determinada faixa musical ou de um lançamento de um álbum fonográfico. (SOARES, 2013, p. 191)

Através do barateamento das novas tecnologias digitais de captação (de imagem e de som) e de edição, tornaram-se mais comuns os casos em que uma banda ou artista possui apenas um ou dois singles, trabalhando já a partir deste material na construção imagética de sua obra, disponibilizando-a em plataformas online para, em outro momento, o artista gravar um álbum fonográfico. Soares (2013) afirma que através dessa nova lógica produtiva, temos “um embaralhamento da ordem de disponibilidade de materiais expressivos e uma nova apresentação das estratégias de circulação dos produtos musicais massivos” (SOARES, 2013, p. 121)

Com o lançamento do primeiro videoclipe, "b", lançamento esse que veio desassociado de qualquer informação sobre um futuro álbum -, podemos depreender que o videoclipe se consolidou, então, como o produto principal de iamamiwhoami que, neste momento, já poderia classificar-se como um projeto audiovisual, tornando indissociáveis a música e a imagem em suas publicações. Esta união cria, segundo Michel Chion (1994), o que podemos chamar de “contrato audiovisual”:

O som nos faz enxergar a imagem de maneira diferente e que, dessa maneira, esta “nova” imagem nos faz ouvir o som também diferentemente. Isto parece nos permitir enxergar “algo” a mais na imagem ou ouvir “algo” a mais no som, e assim por diante. (CHION, 1999, p. 12)

Thiago Soares (2013), ao analisar o conceito abordado por Chion, chama atenção para a existência de uma cena audiovisual, “entendendo cena como um contexto limitado

pelo plano e onde se apresentam recursos dispostos a fim de uma produção de sentido” (SOARES, 2013, p. 33). Apesar de nos depararmos com narrativas audiovisuais desde o início da história do cinema, fica claro que a união entre música e imagem cria uma cena a ser explorada por bandas e cantores que buscam construir um semblante para si, como forma de lapidar a imagem que o público terá de seu ídolo, projetando-se “quase que de maneira publicitária para o indivíduo” (SOARES, 2013, p. 59).

Neste sentido, a primeira imagem que iamamiwhoami ofereceu a seu público em seu primeiro videoclipe mantinha o caráter misterioso experienciado na série “Preludes”. O videoclipe “b” trazia em seus quase 5 minutos de duração a imagem da cantora ainda representada de forma enigmática, com seu corpo envolto em plástico. No início do vídeo, a frase “To whom it may concern”41 aparece impressa em um pedaço de papel, antes da melodia começar a tocar.

A música em “b”, embalada pelo som de um órgão que se mistura com ruídos artificiais típicos do gênero eletrônico, constrói uma melodia que foge dos parâmetros estruturais de música pop: é desafiador, em uma primeira escuta, compreender as passagens da canção como ponte e refrão. A visualidade apresenta-se tão enigmática quanto a música, trilhando por uma linearidade narrativa ao mesmo tempo que a mesma se constrói de modo subjetivo, exigindo uma dedicação maior de seus espectadores em relação a outros videoclipes com narrativas menos complexas.

Em seu primeiro videoclipe, iamamiwhoami entregou ao público um produto audiovisual de caráter experimental em múltiplas instâncias (visual, sonora e de significação), obedecendo a uma lógica de disseminação própria, característica de artistas independentes.

No vídeo “b”, a cantora (ainda não identificada pelo público) performa dentro de um ambiente na presença de três homens. Utilizando um órgão eletrônico e fazendo movimentos no ar com as mãos, os homens aparentam deleitar-se com os poderes daquele ser que não aparenta ser apenas humano. Durante todo o videoclipe, as imagens são levemente distorcidas, criando um contraste com o que poderia ser representado como efeitos alucinógenos. Nesse momento, a representação mítica da Mandrágora

Officinarum parecia condizente com a narrativa do clipe, visto que a planta possui

propriedades medicinais, alucinógenas, narcóticas e analgésicas. A cantora passara a ser

referenciada pelo público como a Mandrágora, possuidora de habilidades entorpecentes e de cura proporcionadas por sua música.

Figura 11: Etiqueta com os dizeres “To

whom it may concern”.

Figura 12: Cantora ainda não reconhecida pelo público.

Fonte:

https://www.youtube.com/watch?v=M2WD

bAFvt6A Fonte

https://www.youtube.com/watch?v=M2WDbAFvt6A

No dia 12 de abril de 2010, quase um mês após a publicação de “b”, iamamiwhoami lançara “o”, seu segundo videoclipe. A fórmula de publicação mantinha-se a mesma: sem comunicações prévias, a audiência esperava ansiosamente pelo próximo capítulo daquele fenômeno.

A relação com o ser mitológico da Mandrágora tornara-se ainda mais evidente em seu novo vídeo, em que a cantora aparece dentro de uma estufa, junto à outras árvores, como se estivesse crescendo dentro de formatos artificiais de produção, longe do seu habitat natural – consequentemente, a Mandrágora estava sob o controle de humanos, como no vídeo anterior em que seus poderes foram utilizados para os três homens. Durante todo o vídeo ela tenta se libertar dos elementos que a prendem no recinto até que, no fim, ela consegue sair da estufa, pronta para explorar a floresta, que seria seu lar originário.

Figura 13: A Mandrágora se liberta no videoclipe “o”

Até agosto de 2010, outros seis videoclipes foram distribuídos por iamamiwhoami. A junção de todos os títulos (“b”, “o”, “u-1”, “u-2”, “n”, “t” e “y”) formavam a palavra bounty.

Todos os vídeos da saga bounty possuíam uma paleta de cores semelhante, com tons que facilmente podem ser remetidos à elementos da natureza (marrom, verde), além de trazer uma ambiência florestal predominante nos clipes. A personagem, que esteve presente em quase todos os vídeos (com exceção de u-1 e u-2, que trazem uma representação dela em forma de boneca), explora florestas escandinavas, o habitat natural da Mandragora Officinarum. A presença da natureza como palco principal para a performance de iamamiwhoami começava a moldar o posicionamento dos artistas envolvidos no projeto em relação às questões ambientais, que seriam reforçadas futuramente através de seus produtos.

Figura 15: Cena da estufa no videoclipe “o”, na qual a personagem é mantida até se

libertar

Fonte:

https://www.youtube.com/watch?v=MMroXbAmrI8

Fonte:

https://www.youtube.com/watch?v=MMroXbAmrI8

Após revelar-se gradualmente o rosto da cantora por trás das produções, o público confirmou sua identidade: tratava-se de Jonna Lee, cantora e compositora sueca que abandonara sua carreira solo e agora reinventara-se como iamamiwhoami, projeto audiovisual que construiu junto ao produtor musical e compositor Claes Björklund.

Neste momento, não estava claro se o projeto teria uma espécie de continuação. Todo o conhecimento do fandom que estava surgindo resumia-se a saber que Jonna Lee estava produzindo videoclipes sob o codinome iamamiwhoami. Nenhum formato concreto de banda, álbum, show ou qualquer outro elemento condizente com a

Figura 14: A personagem utiliza um colar elisabetano que pode ser compreendido como

uma simulação de proteção feita em árvores para evitar parasitas. Cena do videoclipe “o”

performance de um artista musical fora divulgado, cabendo aos fãs tentar decifrar cada passo dado por iamamiwhoami em busca de respostas para seus questionamentos.

Alguns fãs dedicaram espaços exclusivos em seus sites pessoais para dissertarem sobre o fenômeno iamamiwhoami. Como citamos anteriormente, um dos blogs mais famosos dedicados ao projeto foi o ForsakenOrder42, devido às extensas e minuciosas

análises dos vídeos feitas por Dariana43. Através do espaço para comentários, diversos leitores curiosos chegaram até o ForsakenOrder em busca de pistas sobre a simbologia de iamamiwhoami. Além desde blog, o próprio canal de iamamiwhoami no YouTube e a comunidade “Oh No They Didn’t!” reuniram grandes discussões de fãs acerca das simbologias do projeto e de sua continuidade. No Brasil, o fenômeno ganhou uma comunidade no Orkut que constantemente se atualizava à medida em que novos vídeos eram postados. A última publicação na comunidade é de 9 de setembro de 2014 e grande parte de seus membros migraram para grupos no Facebook dedicados à iamamiwhoami44.