4 Lokalisering av vegen
4.2 Lokalisering på oversiktsplannivået
De forma a facilitar a compreensão desta investigação, apresentamos antes, de contextualizar a sua discussão, uma revisão da literatura repartida por seis pontos. Estes constroem-se em função do tema principal da nossa investigação, práticas de lazer dos jovens, e intersetam na discussão de dados.
No primeiro, intitulado Do Tempo, propomos uma visita ao conceito que introduz este ponto. Clarificam-se questões, definem-se perspetivas sobre como o Homem define o tempo, esclarecendo como a experiência e a memória constroem a consciência de tempo, bem como o vivenciamos. Questionamos, ainda, o modo como o tempo é experienciado na contemporaneidade, sugerindo uma reflexão sobre o ser livre e sobre o tempo livre. De natureza subjetiva, ambos os conceitos participam, por um lado, numa discussão de cariz ético, político e metafísico que acompanha a História das civilizações; por outro, ambos fundamentam-se na consciência do indivíduo que almeja a sua liberdade como forma de autoconhecimento e, esta, forja a sua identidade. Ainda, neste ponto, e nesta reflexão, salientamos a prática desportiva como esforço e superação para ilustrar uma das manifestações da liberdade. Paralelamente, discorremos acerca dos diferentes significados de tempo livre, desvendando a dicotomia ter tempo com o ser tempo a par das conceções de tempo livre e lazer. Para tal, compomos, nesta plataforma Do tempo, um enquadramento histórico das atividades desenvolvidas no espaço de tempo livre, cujo sentido parece estar intimamente relacionado com a organização das sociedades.
Abordamos, aqui, o tempo livre como uma condição necessária para a existência do lazer, na medida em que o concebemos como tempo de autoformação. Requer, por isso, liberdade para gerir e organizar atividades que contribuam para a autorrealização, cuja prática é de profunda apreciação, tornando-o um tempo consistente.
No ponto dois, Do Espaço, descrevemos como o desenvolvimento do ser humano é influenciado pelo meio envolvente e pelo tipo de interação que com
ele estabelece, seja através do espaço onde se movimenta, seja através dos objetos que manipula seja, ainda, através da relação que estabelece com os outros.
Neste sentido, as relações com o espaço, configuradas na análise das práticas e das representações que formam a própria vida em sociedade, espelham uma cultura. Desenvolvemos este conceito, Do espaço, a partir da sua representação multiplicada e multifacetada: o espaço físico, o espaço percetivo e o espaço cognitivo. Esta visão tripartida é, por um lado, influenciadora do comportamento humano que nele inscrevem valores e atitudes normativas; por outro, elege o Homem como agente organizador do espaço e dos lugares. Estes definem vivências, constroem identidades, consciências, envolvem-se na cidadania e estão cartografados.
Do Espaço organiza-se a partir de três dimensões centrífugas: a cidade
que se pretende como um espaço de humanização, lugar privilegiado para a experiência da diversidade. Um lugar público, harmonizado e "desportivizado", vocacionado para o jogo e recreação, torna-se portanto determinante para a melhoria da qualidade de vida.
Na segunda dimensão, salientamos os espaços destinados ao recreio escolar e por isso espaços privilegiados de socialização, de aventura e de brincadeira, onde a atividade física e desportiva assume especial relevância. Descrevemo-lo como um espaço de autoformação de excelência e onde as crianças projetam e ampliam a sua imaginação, ensaiam e treinam comportamentos, em plena liberdade e confiança.
Por fim, a terceira dimensão, o espaço desportivo: um espaço plural, de coabitação e de múltiplas práticas, associadas à cultura e ao tempo livre, sempre aliado ao espaço urbano, no qual se projeta o espaço desportivo formal e informal. Nesta investigação, convidamos a uma visão aberta do desporto, tanto como proporcionador de práticas de prazer e divertimento, como de desafio e confronto, de esforço e de movimento, de formalização e padronização.
No terceiro ponto, Da família, descrevemo-la como central no amadurecimento e desenvolvimento biológico, social e cultural das pessoas e concebemo-la como sistema ativo em constante transformação. Para tal, sintetizamos a implicação dos pais no sucesso dos filhos no contexto atual de grandes transformações económicas, sociodemográficas e culturais.
Configuramos a família na transição de paradigmas, condicionando a estrutura tradicional da família, bem como os papéis a ela atribuídos.
Ainda, neste ponto, discorremos acerca das inelutáveis relações entre família e escola e aos respetivos papéis e funções desempenhadas neste processo de modernização e de constante desafio.
Neste âmbito, incidimos sobre a participação ativa dos pais na instituição escola e em outros espaços essenciais para o desenvolvimento das crianças e jovens, na partilha de atividades comuns, promotoras de socialização e práticas culturais.
Terminamos este ponto incidindo sobre a influência dos pais no incentivo das práticas de lazer e tempos livres, orientados para as práticas desportivas, como reforço da afetividade que regula a relação entre gerações.
No quarto ponto, intitulado Da Escola, questionamos a função da escola na organização e dinamização dos tempos livres como parte da educação de cada pessoa em relação aos outros e no respeito pela liberdade do outro. Neste sentido, Da Escola preconiza um espaço de debate no qual, também, se problematiza esta instituição como um espaço criativo de aprendizagens e descobertas. Considerada um dos pilares básicos na sociedade para a formação das pessoas e da própria comunidade em que se integram, a escola também é espaço de lazer, ampliando o espaço de instrução e de socialização; o espaço de incubadora de empreendimento, espaço de interseção de múltiplas inteligências, alicerçando os projetos individuais e coletivos; um espaço de prática e de experiência, uma estrutura social de acolhimento; um espaço de formação da personalidade, a aquisição de saberes e competências em áreas diferenciadas e um espaço de responsabilidade e desenvolvimento da criatividade.
Concebemos a escola, neste ponto, como um projeto de formação no domínio das áreas curriculares disciplinares, mas também no domínio das chamadas áreas curriculares não disciplinares e onde são privilegiados aspetos de uma formação pessoal e social positiva. Nesta dimensão, salientamos a participação dos jovens nos clubes como uma plataforma determinante para a construção de uma escola-viva onde os alunos possam vivenciar a aprendizagem como um laboratório criativo de descoberta, intrínseco à atividade desportiva.
Caracterizamos os clubes, no qual incluímos o de Desporto Escolar, como catalisadores da formação integral do aluno, tornando-o mais interessado pelo mundo que o rodeia, redimensionando a consciência de cidadania.
Terminamos este ponto da revisão da literatura inferindo que a planificação da ação educativa passa pela regulamentação. A criação de clubes diversificados e espaços para a promoção da cidadania terá de passar pela bidimensionalidade do Projeto Educativo de Escola (PEE), enquanto instrumento orientador da ação de cada escola, visando definir a estratégia de cada instituição. Como tal, intercalamos os PEE das escolas em estudo e questionamos o papel da liderança na organização escolar, responsáveis pela identidade da escola. Esta é construída a partir do sentido de liderança determinada, também, pelo sistema de comunicação.
Relativamente ao ponto cinco, intitulado A criança e o jovem e as práticas
de lazer, elencamos as práticas de lazer, as atividades e interesses dos jovens,
contribuindo para dar corpo àquilo a que se pode chamar culturas juvenis. Defendemos que a atividade de tempo livre assume enorme importância para as suas vivências, um espaço fundamental entre as duas formas de vida: grupo familiar e grupo escolar. Dissertamos, ainda neste ponto, pelo papel que os meios de comunicação social assumem na organização dos tempos de lazer, integrados na formação do jovem estudante, interferindo de forma determinante no processo psicossocial da sua formação.
Introduzimos a dimensão do jogo como prática de lazer, atividade fundamental para crianças, jovens ou adultos. Circunscrevemos o seu caráter livre mas regulamentado e simbólico; descrevemos o seu caráter agregador do tradicional com o inovador; o seu caráter formador e consciencializador; e o seu caráter lúdico e por isso universal; o seu caráter socializador e, simultaneamente, individual.
Neste sentido, culminamos este item apontando o grupo de amigos como espaço fundamental no desenvolvimento e na aprendizagem de capacidades sociais e culturais dos jovens.
No seguinte e último ponto, descrevemos O Desporto como prática de
lazer, espaço de ocupação dos tempos livres de recreação e lazer, potenciador
Assim, por um lado assumimos os tempos livres, quando ocupados por atividades de cariz lúdico-desportivo, como um veículo de desenvolvimento pessoal e enriquecimento humano alicerçado no vetor movimento; por outro lado, concebemos o desporto como um veículo através do qual as crianças e os jovens acedem a experiências positivas de aprendizagem social e cultural.
Refletimos acerca do desporto como uma das poucas reservas de ação pessoal no nosso mundo organizado, regulado e controlado com implicações no desenvolvimento da personalidade (Bento, 1991); refletimos, também, sobre a sua dimensão instrumental, assumindo-se como um projeto em construção permanente, com carácter antropológico, existencialista, personalista e humanista.
Cabe, ainda, neste ponto e sustentado em estudos de referência, a descrição das práticas de desporto que cabem nas modalidades mais praticadas no tempo livre das crianças e jovens. Acrescentamos que a atividade desportiva é, igualmente, promotora de formação para a saúde, redimensionando a conceção de lazer para o comportamento organizador de práticas saudáveis e promotor de qualidade de vida. Nesta, a escola, tem, também, responsabilidades na mobilização de aptidões e habilidades desportivas e fomentadora de motivação intrínseca e satisfação pessoal.
Na terceira parte é descrita a metodologia utilizada que visa fundamentar os procedimentos utilizados para o desenvolvimento do estudo no sentido de responder aos objetivos de investigação propostos. Desta forma, inicia-se com uma abordagem prévia ao que poderemos entender por investigação qualitativa ou interpretativa. Apresentamos, também, os instrumentos de pesquisa que pretendemos utilizar: a entrevista de grupo, para os pais, e a entrevista individual, para os jovens e diretores das escolas do nosso estudo. Após a recolha e transcrição dos documentos formais e discursos dos entrevistados, utilizamos a análise de conteúdo como técnica de análise de dados.
A análise de conteúdo desenvolveu-se em três fases: (i) pré-análise; (ii) exploração do material e (iii) tratamento dos dados, interferência e interpretação dos resultados das entrevistas.
Ainda nesta parte, fazemos intersetar os documentos formais (Planos dos Projetos Educativos das escolas, os Planos Curriculares das escolas e os Projetos dos Clubes das escolas) com as respostas dos entrevistados.
Seguidamente, serão analisadas e interpretadas as entrevistas realizadas: aos jovens, pais e diretores das escolas do estudo. Os resultados obtidos no estudo são analisados de forma crítica e confrontada com a evidência empírica existente.
Posteriormente, serão apresentadas as conclusões deste estudo com as reflexões acerca do que os resultados nos permitiram inferir, sem uma pretensa generalização, mas com a intenção objetiva de contribuir para uma reflexão atenta, principalmente alertando os responsáveis pela formação dos mais jovens, na definição e clarificação dos princípios educativos que orientam as suas ações.
Seguem-se algumas sugestões para trabalhos futuros, apresentando propostas para uma possível transformação da escola num local mais atrativo e motivador para os alunos, isto é, em vez de ser pensada e organizada só para alguns, se estruture e crie estratégias de ação pedagógica onde todos tenham lugar, voz e sucesso, que reconheça a importância do envolvimento dos jovens na construção dos seus saberes.
Na última parte do nosso trabalho, poderão ser encontradas as referências bibliográficas utilizadas.