Esse período foi predominantemente dominado pelo pensamento, doutrina, teologia e filosofia; defendidos e difundidos pelo catolicismo romano que norteavam a conduta ética do indivíduo conforme o seu ethos, como foi mencionado anteriormente. Entende-se que a religião é um dos principais instrumentos registrado na história da humanidade que mais a influencia, provocando-lhe mudanças: social, ética, moral e comportamental, sobretudo no que diz respeito ao trabalho.
Tem-se observado na sociedade contemporânea certa preocupação quanto ao trabalho que indivíduos em suas respectivas classes sociais
desempenham pelos seus ofícios ou funções, objetivando sua realização pessoal, prosperidade ou independência financeira. Para tanto, não medem esforços e se depreendem incansavelmente, cada qual no trabalho que desenvolve.
Max Weber, em a EPEC, ao abordar sobre a prática de vida e o valor que o cidadão católico romano dispensava às suas boas obras no período medieval, escreveu:
Ele podia usá-las, conforme a necessidade da ocasião, para expiar pecados particulares, para melhorar suas chances de salvação ou, mais para o fim de sua vida, como tipo de prêmio de seguro. Naturalmente, a ética católica era uma ética de intenções. Mas intentio concreta de cada ato isolado determinava seu valor. E a ação isolada, boa ou má, era creditada a quem a fizesse, determinando seu destino temporal e eterno. Muito realisticamente, a Igreja reconheceu que o homem não era uma unidade definida com absoluta clareza, a ponto de dever ser julgado de um modo ou outro, mas ocorria que sua vida moral estava moralmente sujeita aos motivos conflitantes e suas ações contraditórias. Naturalmente ela requeria, como ideal, uma mudança fundamental de vida. (2006, p.95). (Itálico e grifo nosso).
Por esse ponto analítico de Weber, observa-se que a conduta refletida nas ações do indivíduo nesse período, apontava para alguns objetivos que a própria Igreja lhe garantia conforme a necessidade, a ocasião e as intenções. Por exemplo:
1) Expiação de pecados particulares; 2) Melhora das chances de salvação;
3) Para o fim da vida, um tipo de prêmio garantido; 4) As ações eram creditadas a quem as realizasse;
5) Tanto a boa como a má ação traria implicações quanto ao destino temporal e eterno do indivíduo.
Baseado nesses e outros objetivos é que o cidadão medieval agia. Sempre com as intenções pré-definidas para a realização de uma boa ou má obra, norteando assim, a sua conduta ética, alimentava as motivações no exercício de seu trabalho. Logo, o tipo de atividade realizada, revelava, muitas
das vezes, não somente as intenções, mas também que tipo de destino (temporal ou eterno) que a pessoa almejava em sua vida.
Mediante tais fatos, torna-se relevante apresentar a visão do conceito ético que o catolicismo romano desenvolveu, apresentou e buscou colocar em prática no período medieval no que diz respeito ao trabalho, como princípio norteador de conduta à pessoa seja ela quem for, no exercício de suas atividades. Dessa maneira, Max Weber, em a EPEC quando trata a questão da vocação em Lutero e a compara com a tradição medieval, relata:
De início, em concordância com a tradição medieval predominante, conforme representada por Tomás de Aquino, por exemplo, o trabalho mundano, embora querido por Deus, a seu ver pertence ao reino das criaturas, é a base natural indispensável da vida de fé, moralmente indiferente em si mesmo como o comer e o beber... A conduta da vida monástica é encarada não só como evidentemente sem valor para a justificação perante Deus, mas também como produto de uma egoística falta de amor que se esquiva aos deveres do mundo. (2005, p.72,73).
Weber, citando Tomás de Aquino, observa que a doutrina dele culmina no trabalho mundano, a qual está intimamente relacionada somente às coisas deste mundo e que não tem nenhum valor. E ainda, a prática da vida monástica em nada contribuiu para a justificação perante Deus, tornando-a egoísta, visto que afastava o monge do mundo e do amor que ao próximo deveria prestar, diz Weber. Esta conduta ética foi a que mais predominou nesse período. Contudo, não podemos negar algumas contribuições que a vida monástica deixou.
Infelizmente, este tipo de atitude contrariava o próprio ensino de Jesus que enfatizou a necessidade de seus discípulos viverem neste mundo e dele não se afastar. Vemos isto quando Cristo eleva ao Pai uma oração em favor deles, e em certo momento disse: Já não estou no mundo, mas eles
continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo guarda- os em teu nome... Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal (negrito e grifo nosso)12. Destaca-se aqui claramente que Jesus jamais queria que seus discípulos deixassem, se afastassem e se trancassem em
12 Bíblia Sagrada, Evangelho de João, capítulo 17, versículos 11 e 15. Seria oportuna uma leitura em todo este capítulo para um melhor entendimento desta oração e ensino de Jesus.
qualquer lugar ou em monastérios, isolando-se do mundo. Mas sim, que nele estivessem ativa e efetivamente presentes para serem, em suas palavras: Sal
da terra... e luz do mundo. (Mateus 5: 13 e 14). Logo, como ser sal da terra e
luz do mundo se dele se afastar?
Apesar do movimento monacal não cumprir esta vontade expressa de Cristo e levar inúmeras pessoas a viverem em claustro. Deve-se destacar o que Gonzáles ao fazer uma análise da reforma monástica ocorrida no início do segundo milênio, em A Era dos Altos Ideais , escreveu quando fez menção da reforma cisterciense:
Em diversos lugares a vida solitária foi renovada, ou por outros meios tentou-se destacar o rigor da Regra. Assim, por exemplo, Pedro Damiano se contentava com o princípio de suficiência
enunciado por São Benedito para evitar a vida acomodada, e insistia na penúria extrema . A este espírito rigorista se somava certo descontentamento com o monasticismo cluniacense, que se tornara rico, e tinha elaborado seus rituais a tal ponto que o trabalho manual ficava negligenciado. (...) Como Monge, Bernardo insistia na vida simples que tinha sido o ideal do monasticismo primitivo. Nesta vida o trabalho físico, particularmente na agricultura, era importante. Enquanto os monges de Cluny se subtraíam a este trabalho, sob a alegação de não sujar as vestimentas com que adoravam a Deus. (1993, Vl.4, p.13,15).
Nesse período medieval mais especificamente (séculos X a XII) mencionado nesta citação, pode-se apontar pelo menos quatro linhas de pensamento do catolicismo romano que norteavam a conduta ética da pessoa com respeito ao trabalho, sobretudo o monacal:
1) Havia aquela que se contentava com o princípio de suficiência e
enfatizava a penúria extrema ;
2) Houve a outra do monasticismo cluniacense que chegou a
negligenciar o trabalho manual;
3) Existiu a do pensamento do monasticismo primitivo do monge
Bernardo, para quem o trabalho físico especialmente o da agricultura, era o mais importante;
4) Por fim, a dos monges Cluny que evitavam o trabalho na agricultura
Independente destas linhas de pensamento e o que defendiam, a vida monástica legou à humanidade inúmeras contribuições. Gonzáles apresenta duas em especial:
Uma das principais contribuições dos mosteiros para a vida medieval foi o desenvolvimento da medicina e da farmácia, como podemos ver ainda hoje no mosteiro de São Domingo de Silos. (Idem, p.16).
Estas contribuições13 medicina e farmácia são apenas um dos exemplos que põem em evidência a importância do trabalho desenvolvido pelos monges nessa época. Um dos fatores negativos foi o isolamento e o total afastamento por parte dos monges, isolando e afastando-se do mundo em seus mosteiros. Por outro lado, existem inúmeras obras e tratados principalmente teológicos que datam desse período na história da Igreja desenvolvidos e confeccionados em monastérios, são autênticas obras primas.
Nesse mesmo período, ao relatar sobre a vida do cidadão comum da Idade Média, confessante do catolicismo romano, quanto ao que ele cria e poderia intervir em sua vida para a eternidade, na prática ética de sua religiosidade, que se refletia em sua conduta por interesses pessoais, Weber explica:
O católico [leigo normal] da Idade Média vivia, do ponto de vista ético, por assim dizer von der Hand in der Mund { da mão para a boca }. Antes de mais nada, cumpria conscienciosamente os deveres tradicionais. As boas obras que por acréscimo ele
viesse a fazer permaneciam como ações isoladas [que não necessariamente formavam um conjunto coerente e tampouco eram racionalizadas na forma de um sistema de vida], ações essa que [dependendo da ocasião] ele executava, por exemplo, para compensar pecados concretos ou, sob influência dos padres ou então por fim da vida, como se fosse um prêmio seguro. Claro que a ética católica era ética de convicção . Só que era a intentio concreta da ação isolada que decidia sobre o
13 Quanto às contribuições do período medieval, temos, por exemplo o que o filme: O Nome da
Rosa , mostra sobre a vida dentro de um Mosteiro Beneditino, no século XIV. Revela várias
ocupações que os monges realizavam como trabalho em suas respectivas atividades, das quais, destacam-se as seguintes: 1. Tradutores são os que se dedicavam em traduzir as obras filosóficas do grego para o latim; 2. Bibliotecário; 3. Herbolário responsável pelos enfermos do mosteiro; 4. Escrivões; 5. Pesquisadores; 6. Tradutores; 7. Pensadores; 8.
Escritores; 9) Música especialmente o canto gregoriano. Conferir in: O NOME DA ROSA , trabalho de pesquisa feito ao Prof. Dr. Ronaldo Cavalcante, em cumprimento de sua disciplina do Curso de Mestrado em Ciências da Religião pela UPM. 2007.
seu valor. E a ação isolada boa ou má era lançada como crédito em favor do seu autor, influindo no seu destino eterno e também no temporal... O Católico tinha à sua disposição a graça sacramental de sua igreja como meio de compensar a própria insuficiência: o padre era um mago que operava o milagre da transubstanciação e em cujas mãos estava depositado o poder das chaves. (1993, p.105/6).
Como se vê nessas afirmações, nota-se que a conduta ética do indivíduo estava atrelada diretamente ao que se cria. Isto é, ele agia comprometido com as barganhas espirituais que a Igreja lhe prometia e oferecia. Este era o tipo de ética medieval que se refletia na vida do cidadão, como resultado do próprio controle que a Igreja impunha sobre a vida do indivíduo, como já fora dito. Sua esperança estava na Igreja e no sacerdote. Que Weber sobre este aspecto em particular, comenta:
O católico tinha à sua disposição a graça sacramental de sua Igreja como meio de compensar a própria insuficiência: o padre era um mago que operava o milagre da transubstanciação e em cujas mãos estava depositado o poder das chaves. Podia-se recorrer a ele em arrependimento e penitência, que ele ministrava expiação, esperança da graça, certeza do perdão e dessa forma ensejava a descarga daquela tensão enorme. (2005, p.106).
Por isso, confiando naquilo que a Igreja lhe oferecia e garantia o indivíduo em sua escolha, trabalho, conduta, moral e ética, assim era norteado pela Igreja, mediadora da graça sacramental, e tudo que a ela implica e aplica- se. Nesse sentido, Paul Tillich, ao dissertar sobre o ensino ético de Tomás Aquino, observa:
O propósito ético humano expressava-se na realização do que lhe era essencial. Segundo Tomás, o essencial era o intelecto, isto é, a capacidade de se viver no âmbito do significado e das estruturas da razão. Não é a vontade que nos torna humanos, mas o intelecto. O homem tem a vontade em comum com os animais; mas só o intelecto, a estrutura racional da mente, lhe é peculiar. (1988, p.184).
Tillich, ao tecer esse comentário sobre o ensino ético Tomista, esclarece que, para o ser humano, o mais importante é o intelecto, a razão. Visto que na vontade ele se identifica com os animais, ou seja: tem a vontade em comum
com os animais. De fato, somente o ser humano é quem recebeu a capacidade
de pensar e agir racionalmente e mais nenhum outro ser. A identificação do homem com os animais, se refere ao fato de quando ele age irracionalmente, refletindo assim seu instinto animal.
Num outro momento, nessa mesma obra, Tillich, ao escrever sobre o
Mundo Medieval e as Forças Religiosas, faz menção da hierarquia religiosa
que corria o risco de se secularizar. A respeito da vida monástica e as diversificadas atividades realizadas pelos monges, comenta:
O monasticismo representava a negação do mundo sem quaisquer concessões, embora não fosse um movimento quietista. Essa negação vinha acoplada com certos atos destinados a transformar o mundo no trabalho, na ciência, em
outras formas de cultura, na arquitetura eclesiástica, na poesia e na música... Os monges produziam a mais refinada forma de cultura estética medieval e, até hoje, algumas ordens monásticas representam ainda as mais altas formas culturais na Igreja católica. Os Beneditinos, em particular, têm preservado essa tradição até nossos dias. Os monges eram também os mantenedores da ciência teológica e, talvez, da ciência em geral. Os maiores teólogos foram franciscanos e especialmente dominicanos. Haviam monges que se dedicavam ao trabalho agrícola, à irrigação das terras, ao aproveitamento das regiões pantanosas e a inúmeras outras atividades necessárias às novas terras na Europa central e do norte, onde houverem muitas conversões. Esses grupos monásticos representavam a vanguarda ativa e ascética da igreja, como diríamos hoje. Tinham liberdade para realizar atividades culturais, ao mesmo tempo em que se submetiam aos ensinamentos da igreja. (Idem, p.142).
Essa colocação feita por Tillich, apresenta de maneira elucidativa como o trabalho monástico era importante e diversificado no período medieval. Atingia várias áreas e atividades como a agricultura e a música, além da teológica, vida eclesiástica, atividades culturais, intelectuais e outras dentro da ciência em geral. Em tudo isso toda a vida fora dos mosteiros era beneficiada pelo trabalho monástico direta ou indiretamente. Após estas colocações, apresentar-se-á a seguir uma visão da doutrina católica romana sobre o trabalho segundo os ditames de sua teologia.
2.4. UMA VISÃO DOUTRINÁRIA TEOLÓGICA DO CATOLICISMO