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Logistisk regresjonsanalyse

A política monetária do Fed e o teor de sua comunicação com o mercado foram fatores componentes do entendimento da crise que se iniciou no mercado imobiliário norte-americano e terminou por afetar a economia mundial.

A compreensão da percepção da autoridade monetária norte-americana remonta ao processo de desmonte da regulação financeira estruturada no pós-guerra, que se iniciou na década de 1970. Para esta compreensão também são importantes as considerações no campo teórico e prático dos presidentes do Fed no que concernem à maneira de condução da política monetária e na atuação da autoridade monetária frente à formação de bolhas em mercados específicos.

A visão do Fed sobre o processo de desregulamentação era otimista. As mudanças provenientes de tal processo teriam dotado a economia americana de maior flexibilidade e conferido ao sistema financeiro maior resistência frente às crises. Seriam fatores componentes dessa resistência o melhor gerenciamento do risco das carteiras de crédito por parte das instituições bancárias, o desenvolvimento e uso de produtos derivativos e a utilização de instrumentos de securitização. Segundo Greenspan, estes expedientes permitiram melhor gerenciamento e redução dos riscos financeiros, por meio de sua divisão entre as várias instituições participantes do mercado.

Tal visão também influenciou a ação regulatória do Fed. A opinião de que os novos produtos financeiros auxiliavam na mitigação dos riscos fazia crescer a preocupação quanto ao excesso de regulação nos mercados de derivativos OTC (over the counter), onde futuramente ocorreriam as maiores perdas decorrentes do uso de derivativos.

A resiliência da economia americana às crises passou a ser tida como muito forte após o impacto modesto das crises do final dos anos 1990 e início de 2000, sobretudo depois da quebra da bolsa NASDAQ em 2000 – 2001. Os acontecimentos teriam potencial de conduzir a economia a processos recessivos profundos, no entanto isso não ocorreu.

O otimismo do Fed quanto aos desenvolvimentos no mercado financeiro não considerava toda a sucessão de novos riscos que surgiam. As distintas formas de

gestão do capital e de remuneração do gestor da riqueza financeira incentivavam o aumento do risco dos portfólios em busca de melhores desempenhos. O processo de securitização não reduzia o risco, mas apenas o espalhava entre as diversas instituições financeiras, permitindo a separação entre a origem do risco e seu carregamento no futuro, liberando o balanço dos bancos para a expansão do crédito. Os mercados derivativos desregulamentados permitiam a alavancagem elevada, acarretando riscos que seriam conhecidos somente na eclosão da crise.

A crença de Greenspan na resistência econômica financeira norte-americana, seu entendimento quanto à necessidade de flexibilidade nas decisões da taxa de juros de curto prazo e sua visão contrária à atuação do Banco Central frente à formação de bolhas – no que concorda com Bernanke - refletiu-se na condução da política monetária do período e na função de agente estabilizador atribuída ao Fed.

As concepções de Greenspan fundem-se com a da própria instituição que ele presidia. Por isso, Bernanke, tanto por força de conjuntura econômica que enfrentaria, como pela avaliação positiva da metodologia herdada de Greenspan, não efetuou grandes modificações, após assumir a presidência do Fed, apesar de como teórico posicionar-se favorável à adoção do sistema de metas de inflação. Foi propositor do que denominou ―constrained restriction”, ou seja, a discricionariedade restringida por regras.

Greenspan defendeu e praticou uma política monetária discricionária para atingir o duplo mandato do Fed. Em sua opinião, o ambiente econômico em constante mudança demandava da autoridade monetária flexibilidade para se adaptar às novas situações. Por isso, Greenspan posicionava-se contrário à adoção de regras para a política monetária. Em seu lugar, pregava a utilização do que denominou de

risk management approach, que consiste em entender o tanto quanto for possível as

diversas fontes de riscos e incertezas com os quais se deparam os responsáveis pela política monetária, quantificar estes riscos quando possível e avaliar os custos.

Portanto, a política do Fed, após 2001, deve ser analisada sob a seguinte ótica: um Banco Central otimista quanto à resistência de seu sistema financeiro a crises, dirigido por um banqueiro central conduz a política monetária de forma discricionária e procura medir os riscos de todas as suas decisões, método este que permaneceu, mesmo após a substituição de Greenspan por Bernanke. Adicionalmente, nenhum dos dois presidentes acreditavam que o Banco Central pudesse tomar alguma ação para impedir ou mesmo reduzir os efeitos da formação de uma bolha.

Foi com esta visão que o Fed deparou-se com uma economia que estava passando pelo ajuste proveniente do estouro da bolha da bolsa Nasdaq, processo que se tornaria grave, após os atentados de 11 de setembro de 2001 e com os escândalos corporativos de fraudes contábeis.

Naquele momento, o FOMC, conforme evidenciado pela análise das atas, reconhecia no consumo e no mercado imobiliário impulsionado pelas baixas taxas de financiamento hipotecário forças importantes na recuperação econômica - inclusive pela extração da renda derivada da valorização dos imóveis.

Assim, a partir de 2001, o Fed adotaria uma política monetária expansionista, também justificada pelas incertezas decorrentes dos conflitos com o Oriente Médio e, em 2003, os temores de que um processo deflacionário se instalasse de forma intensa na economia americana.

A partir de julho de 2004, o Fed entendeu que a economia ingressava em um processo de recuperação autossustentando-se, sem a ajuda dos estímulos monetários e fiscais. Durante todo o período, foram constantes as observações dos membros do FOMC quanto à valorização dos ativos imobiliários e a capacidade de extração de renda por parte dos consumidores.

Em junho de 2005, começam a aparecer as primeiras preocupações quanto à reversão do processo. Alguns membros do Comitê argumentavam que o mercado imobiliário estava influenciado por fatores especulativos. Mas, a contra- argumentação de que tal diagnóstico seria tecnicamente difícil de realizar e que haveria fatores estruturais que justificassem o comportamento daquele mercado, não autorizava maiores preocupações. Além disso, o processo de securitização era entendido, como um fator a garantir a resiliência das instituições financeiras.

Mesmo quando o preço dos imóveis atingiu seu pico, em 2006, e iniciou o processo de queda, os efeitos de tal ajuste continuavam a ser subavaliados e a retórica quanto à resistência do sistema monetário continuava a ser utilizada.

A ação do Fed sugere que a crença na resiliência do sistema financeiro americano, aliada à concepção de que não é possível a autoridade monetária identificar uma bolha e agir para sanar seus efeitos antes de seu estouro, desautorizaram interpretações de que os preços no mercado imobiliário estariam excessivamente valorizados. Adicionalmente, seguindo o risk management

monetária para sanar um processo sobre o qual não há certeza traria elevado risco à atividade.

Os efeitos da crise seriam realmente conhecidos, após 2007, quando os mecanismos que teoricamente tornavam o sistema resistente (gerenciamento de risco e técnicas de securitização) não só falharam, como se mostraram um dos principais problemas. Naquele momento, a ação reativa do Banco Central teria de ser levada a níveis extremos, dada a subavaliação do ajuste pelo qual passaria a economia norte-americana.

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