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3.3 Transaction cost analysis (TCA) theory

3.3.3 Opportunism in logistics outsourcing context

Ao estudar a relação de famílias assentadas rurais e autarquia federal, mediante os processos comunicativos, esta pesquisa, quanto à sua abordagem, é do tipo qualitativa, tendo em vista que o trabalho salienta aspectos dinâmicos, coletivos e individuais da experiência humana, para apreender a totalidade no

contexto daqueles que estão vivenciando o fenômeno, principalmente no papel de receptores ativos da informação oficial.

Optou-se por este tipo de pesquisa porque ele é o mais indicado para o estudo de aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais. A pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

Ao discutir a cientificidade da pesquisa qualitativa, e suas implicações metodológicas, Demo (2000) ressalta que a realidade tem faces qualitativas, que nem sempre são mensuráveis em dados estatísticos. Segundo ele, “qualitas, do latim, significa essência. Designaria a parte mais relevante e central das coisas, o que ainda é vago, pois essência não se vê, se toca, sem falar que para a ciência positivista não se mensura” (DEMO, 2000, p. 146). Nesse sentido, a pesquisa qualitativa rejeita toda resposta fechada e dicotômica, caracterizando-se pela abertura das perguntas e pela interação entre o pesquisador e os pesquisados.

Demo (2000, p. 159) lembra que “mais que o aprofundamento por análise, a pesquisa qualitativa busca o aprofundamento por familiaridade, convivência, comunicação", uma vez que ela abrange estudos elaborados com a finalidade de investigar empiricamente as sociedades em que os pesquisadores estão inseridos. Explica ele:

Os dados empíricos não resolvem a hipótese, porque a indução não é capaz de tal façanha, mas corroboram-na, trazendo-lhe ademais o sabor de coisa concreta. É importante levar em conta que o dado é, ele mesmo, já produto teórico, porque, sendo indicador da realidade, indica a parte da realidade considerada importante em sua coleta e tratamento. Será mister evitar dois extremos: credulidade sobre o dado e fuga obsessiva, como se o dado já fosse recaída no empirismo. Tratando-se de dados qualitativos, será tanto mais cuidadosa sua devida formalização de teor não-linear, permitindo a necessária abertura crítica para quem duvide deles ou os quer refazer (DEMO, 2000, p. 165).

O autor sinaliza, também, que a qualidade está relacionada com a politicidade da vida e da natureza. "Essa dimensão aponta para o sujeito capaz de fazer história própria, sugerindo o horizonte fundamental da capacidade de 'se fazer', dentro das

circunstâncias dadas" (DEMO, 2000, p. 148). Por isso, os objetos são tratados como sujeitos, conforme salientado no capítulo anterior, onde eles fazem parte da realidade observada, tanto quanto quem o está investigando. Em outra reflexão, Demo (1995) diz:

Considera-se uma violência contra a realidade social tratá-la como mero ‘objeto’, imaginando que entre sujeito e objeto somente possa existir relação formal. Ao lado da relação formal, existe em qualquer relação social a polarização política. Assim, entre sujeito e objeto nas ciências sociais trava-se um relacionamento do estilo do diálogo, em sentido estrito [...] De um lado, não pode haver diálogo sem forma comunicativa, sem linguagem lógica. De outro, trata-se de uma relação viva, unidade de contrários, onde um influencia o outro e vice-versa, até porque no fundo sujeito e ‘objeto’ coincidem (DEMO, 1995, p. 232 – 233).

Dessa maneira, Demo (1995) garante que a avaliação qualitativa é participativa, sendo, no fim, uma espécie de autoavaliação também. Constitui-se, portanto, através do diálogo entre o pesquisador e seu objeto. "É conhecimento inspirado e comprovado na prática, teoricamente exigente, mas comprometido com a vida concreta que não pede apenas estudo, mas igualmente solução" (DEMO, 1995, p. 245).

Logo, a comunicação dialógica investigada entre as famílias assentadas rurais e o Incra reflete-se também na postura dialética enquanto pesquisadora. Tenciona-se, aqui, uma “conversa” permanente entre as observações próprias, a partir dos sujeitos estudados, e as noções teóricas reveladas pelos autores estudados. É nessa sintonia entre prática e teoria – sob uma vertente qualitativa – que, quanto aos objetivos, essa pesquisa classifica-se como descritiva analítica, indo ao encontro do que propõe a visão etnográfica de Geertz (1989).

Com base nos dados empíricos evidenciados no levantamento de campo junto aos dois assentamentos da região de São Gabriel, mais os relatos dos profissionais de assistência técnica que acompanham as famílias, descrevem-se as relações dos agricultores com o Incra, analisando-as e interpretando-as através de conceitos científicos da comunicação. Ao confrontar teorias como a Comunicação Pública com a Folkcomunicação, verifica-se que elas se concretizam na realidade estudada e que podem colaborar para a melhoria da comunicação entre o Estado e o povo.

Nesse sentido, quanto aos objetivos, tem-se uma pesquisa descritiva analítica porque é o tipo de pesquisa que visa descrever os fatos e fenômenos de determinada realidade, a fim de promover conhecimento sobre ela. De acordo com Lopes (2010, p. 152), “a análise descritiva visa à reconstrução da realidade do fenômeno por meio de operações técnico-analíticas que convertem os dados de fato em dados científicos”.

Gil (2008a) também indica a pesquisa descritiva para estudar o nível de atendimento dos órgãos públicos de uma comunidade, as condições de habitação de seus habitantes ou o índice de criminalidade de determinada localidade, por exemplo. No presente trabalho, a pesquisa descritiva serve para averiguar a utilidade da informação disponibilizada pelo órgão governamental a seus públicos, com ênfase ao comportamento e práticas da população.

Assim, ao analisar usos e percepções dos agricultores sobre a comunicação realizada pelo Incra, também se apurou os possíveis processos de mediação que ocorrem no caminho da emissão à recepção da mensagem oficial. Aproximou-se, então, da “descrição densa” de Geertz (1989) – a qual deve narrar detalhadamente os fatos observados, indo além da análise da sua análise – à medida que, ao levantar dados em campo, suscitou-se conhecimento e informação a respeito das práticas adotadas pelas famílias assentadas rurais.

Nesse sentido, a pesquisa descritiva é condizente com o método adotado, pois ele requer exatamente essa profundidade na descrição e análise dos fatos da realidade. Geertz (1989, p. 15) ressalta que,

segundo a opinião de livros-textos, praticar a etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Mas não são essas coisas, as técnicas e os processos determinados, que definem o empreendimento. O que o define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado para uma ‘descrição densa’ (GEERTZ, 1989, p. 15).

Por isso, o autor alerta para os cuidados com o estudo descritivo, pois “fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de ‘construir uma leitura de’) um manuscrito estranho, [...] escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamentos modelados” (GEERTZ, 1989, p. 20). É necessário

traçar a curva de um discurso social, fixando-o numa forma inspecionável, para que se tenha conhecimento sobre ele.

Procurar o comum em locais onde existem formas não-usuais ressalta não, como se alega tantas vezes, a arbitrariedade do comportamento humano [...], mas o grau no qual o seu significado varia de acordo com o padrão de vida através do qual ele é informado. Compreender a cultura de um povo expõe a sua normalidade sem reduzir sua particularidade. [...] Isso os torna acessíveis: colocá-los no quadro de suas próprias banalidades dissolve sua opacidade (GEERTZ, 1989, p. 24).

Então, para Geertz (1989, p.24) a descrição densa contida na Etnografia é “ver as coisas do ponto de vista do ator”, ou seja, daquele que atua em seu próprio contexto. Seguindo esse pensamento, Clifford (1998) também admite que o ato de compreender os outros deriva da coexistência em um mundo que é partilhado. Ele concorda com Geertz quando entende a Etnografia como um “campo articulado” por tensões, ambigüidades e indeterminações, inerentes à existência humana. Na opinião de Clifford (1998),

a experiência etnográfica pode ser encarada como a construção de um mundo comum de significados, a partir de estilos intuitivos de sentimento, percepção e inferências. Essa atividade faz uso de pistas, traços, gestos e restos de sentido antes de desenvolver interpretações estáveis. [...] (CLIFFORD, 1998, p. 36).

Contudo, tem-se a consciência de que a “descrição densa” acarreta críticas ao procedimento etnográfico, uma vez que muitos teóricos a consideram apenas como um relato antropológico. Mas Winkin (1998) alega que tal posicionamento é injusto, porque em sua perspectiva comunicacional, a maioria dos movimentos da sociedade é tão lenta que não aparece a “olho nu”, sendo, portanto, necessária a cientificidade etnográfica para contemplá-los. Ele sugere que se deve “romper com a evidência, criar a diferença, renovar o olhar” (WINKIN, 1998, p. 208), porque os mecanismos cotidianos de reprodução da ordem social reproduzem-se sempre, sendo, então, passíveis de estudos científicos.

A ordem social continua sendo um fenômeno misterioso, que tentam explicar, cada um à sua maneira, numerosíssimos trabalhos de ciência política, de história ou de sociologia. Proponho que se estude a questão ‘por baixo’, à maneira de Goffman: como se

engendra a ordem social no cotidiano, no cumprimento de regras ‘conhecidas por ninguém, entendidas por todos’ [...] (WINKIN, 1998, p. 208).

Dessa maneira, a pesquisa qualitativa e descritiva ganha cada vez mais espaço nos estudos de Comunicação Social. Ao referendar métodos qualitativos de pesquisa, Lopes (2010) anuncia que o crescimento de um campo científico (a Comunicação, no caso) só se dá mediante o permanente confronto entre a teoria e os fatos concretos. De acordo com a autora, os dados empíricos devem ser criteriosamente colhidos e transformados em objetos científicos por meio da manipulação e elaboração intelectuais. Caso contrário, condenariam as Ciências Sociais a eternas “ciências exploratórias”, se as primeiras não se dispusessem a testar continuamente suas hipóteses com ênfase no real vivido.

Isso torna-se mais necessário no campo recém-delimitado da Comunicação. É evidente a crescente exigência que temos de levantar dados empíricos a respeito dos fenômenos comunicacionais, assim como a necessidade de sua ‘descrição’, que vem a ser o nível de elaboração mais próximo da manifestação concreta desses fenômenos (LOPES, 2010, p. 141).

Trata-se, então, de uma pesquisa qualitativa e descritiva que, conforme explicitado no capítulo anterior, visa entender – a partir de uma “descrição densa” – de que forma o Instituto de Colonização e Reforma Agrária, no Rio Grande do Sul, dialoga (ou não) com a comunidade por ele atendida.