Há, atualmente, várias opções de sapatilhas para velocistas. Apesar da IAAF (2011), permitir que atletas participem das corridas descalços ou apenas calçados em um dos pés, a grande maioria opta pela utilização de calçados apropriados, de preferência confortáveis e flexíveis. Dessa forma, diferentes recursos tecnológicos têm sido utilizados no processo de confecção de sapatilhas para os atletas, com o intuito de auxiliá-los durante a realização das provas.
A relevância do uso de uma sapatilha nas competições foi constatada pelo Participante 2 logo no início de sua carreira no atletismo, conforme relata:
“[...] eu tinha um tênis, não tinha calçado, não tinha nem o agasalho nem nada, só tinha um short, uma camiseta e um tênis bamba. Eu vinha treinar com aquilo e eu achava que o atleta que usava sapatilha era um mascarado que não precisava daquilo, porque eu descalço [...] ganhava daqueles garotos [...] eu era muito rápido com catorze anos, então eu achava que era uma bobagem. Mas, o dia que me emprestaram uma sapatilha pela primeira vez eu usei. Aí eu senti a diferença. Não tinha aqui, era tudo importado. A sapatilha nacional era olímpica ainda com pregos fixos de carvão gigante e depois apareceu uma sapatilha com rosca pra gente colocar os pregos [...] mas, a maioria dos atletas que podia importavam as sapatilhas. Então, como que era isso: quando uma seleção ia viajar pra Europa, Estados Unidos, algum lugar assim, os atletas traziam pra outros que estavam aqui, era uma disputa você ter um material bom”.
Diferente dessa época, atualmente, nos deparamos com inúmeras sapatilhas projetadas com diversos materiais, tais como: couro sintético, malhas
sintéticas, borracha, entre outros utilizados especialmente para este fim, além da inserção de pregos, geralmente, removíveis nos solados de todas elas. Em relação ao uso de pregos, segundo a IAAF (2011), estes são permitidos, desde que não ultrapassem o número total de onze.
Foram identificados diversos exemplos de sapatilhas contendo essas inovações, a começar, pela sapatilha utilizada pelo atleta jamaicano Usain Bolt, o atual recordista das provas de 100 e 200 metros rasos. A sapatilha foi desenvolvida sob medida para o atleta pela fabricante Puma, contendo materiais de última geração.
Sua microfibra sintética que coincide com as características de couro de canguru e cria um ajuste, como uma luva para o PUMA Bolt Spike Ltd, e melhora a eficiência nas corridas de velocidade. A cobertura de microfibra de camurça no interior, cria uma suave camada sobre a pele, enquanto que os laços assimétricos também facilitam a comodidade e um melhor ajuste. Seu material da placa Pebax na entre-sola, combinado com o tecido 100% de fibra de carbono, ajuda Bolt a obter mais altos rendimentos de energia na pista, e seu aumento de curvas arredondadas no fundo, com um ajuste do peito do pé na parte média inferior, otimiza a estabilidade enquanto se executa um ritmo mais rápido (PUMA, c2012).
Essa é uma evidência do quanto as sapatilhas dos atletas evoluíram ao longo do tempo. Antes pesadas e desconfortáveis, as sapatilhas hoje são enriquecidas com materiais sofisticados, capazes de atender as necessidades provenientes das diferentes provas de corrida. A começar por sua estrutura superior (cabedal), constatou-se o uso de diferentes materiais nas sapatilhas. Geralmente, são feitas de couro sintético, uma vez que este tipo de material proporciona mais leveza para os pés, sendo que, no caso do solado de todas elas, a borracha é um dos materiais mais usados pelos fabricantes.
A fabricante Asics, por exemplo, desenvolveu uma tecnologia própria para ser inserida na estrutura superior das sapatilhas, denominada “tecnologia
Sinthetic Leather and Mesh Upper”. Segundo o site dessa fabricante, trata-se da
utilização de malhas leves e couro sintético, que proporcionam conforto, além de possibilitar um melhor ajuste (ASICS, [2012bl]). O modelo de sapatilha Hyper MD 4 dessa fabricante, por exemplo, contém essa tecnologia, podendo ser usada em diversos eventos.
Verificou-se ainda, a utilização de outras tecnologias na estrutura superior das sapatilhas, a exemplo da fabricante Nike que desenvolveu a “tecnologia
Hyperfuse”. Segundo o site dessa fabricante, trata-se de uma tecnologia contendo
alguns:
[...] fusíveis com três camadas diferentes de material através de um processo hot-melt, a criação de um sapato extraordinariamente robusto, com respirabilidade superior. Este processo inovador proporciona um ajuste mais consistente e quase elimina completamente a costura na parte superior para um acabamento limpo e moderno. A camada de base é feita de um material sintético para fornecer um suporte de apoio. No meio, malhas oferecem respirabilidade leve. E a camada superior é feita de filme termoplástico de poliuretano (TPU), que oferece uma excelente durabilidade (NIKE, c2012bm, tradução nossa).
No modelo de sapatilha Nike Zoom Superfly R3, por exemplo, constatou-se além do uso da “tecnologia Hyperfuse”, a utilização de malhas sintéticas Seamless que são malhas que possuem menos costuras, reduzindo, assim, a possibilidade de irritação da pele, proporcionando mais conforto para os pés (NIKE, c2012bm). É importante destacar que essa fabricante desenvolveu uma “versão atualizada” desse modelo de sapatilha, denominada Nike Zoom Superfly R4
para os Jogos Olímpicos de Londres, realizados em julho de 2012 (NIKE, c2012bn). De acordo com o site da fabricante:
Os cabos dinâmicos do Flywire movem o pé, oferecendo apoio e conforto, ao mesmo tempo que minimizam seu peso e massa. Os fortes cabos Flywire envolvem o pé e se conectam ao cadarço para um ajuste preciso e personalizado. O forro é muito suave e confortável e a palmilha tem sobreposições em TPU. O solado apresenta placa de Pebax® com oito receptáculos para a colocação dos pinos e uma fina sola de phylon que oferece amortecimento excepcional aos impactos (NIKE, c2012bn).
Já em outros modelos de sapatilhas, a fabricante utiliza apenas as malhas sintéticas Seamless na estrutura superior, a exemplo do modelo de sapatilha
Nike Max Cat 3 dessa fabricante (NIKE, c2012bo).
Observa-se que, além do uso de couro sintético no cabedal das sapatilhas, também são empregadas diferentes tecnologias de última geração, visando proporcionar o máximo de conforto para os pés dos atletas. Isto demonstra que há, atualmente, um desenvolvimento em longa escala de tecnologias sofisticadas voltadas, especificamente, para o aprimoramento dos calçados esportivos.
Já em relação às entressolas das sapatilhas, uma “peça entre a palmilha e a sola do calçado” (FERREIRA, 2009, p. 767), estas têm sido, geralmente, confeccionada com E.V.A. (Etil Vinil Acetato), que é:
[...] um material esponjoso e elástico com a aparência de borracha, a elasticidade do E.V.A. significa que possui alguma capacidade de voltar a sua forma original, o que é muito importante, quanto maior for a sua elasticidade maior será o seu tempo de vida útil (COMPONENTES..., [20--?]).
É importante destacar que, além do uso do E.V.A. nas entressolas das sapatilhas, outro material bastante utilizado é o Phylon. Segundo o site Tennis e Training (c2012), trata-se de um material super leve que permite um amortecimento seguro, oferecendo mais flexibilidade para os pés.
Além disso, também foi evidenciado a utilização de tecnologias voltadas especificamente para o amortecimento como, por exemplo, a “tecnologia
Nike Zoom” desenvolvida pela fabricante Nike. De acordo com o site dessa fabricante, a “tecnologia Zoom”, propicia um amortecimento muito leve, permitindo
que os pés fiquem mais próximos do solo, para realizar manobras ainda mais eficientes (NIKE, c2012bp).
O uso de materiais e de tecnologias especiais para o amortecimento das sapatilhas para as provas de corrida de velocidade tornou-se, também, o foco das fabricantes, pois, embora sejam provas de curta duração, estas provas, nesse curto espaço de tempo, são bastante intensas, exigindo dos atletas muito esforço físico, do início ao término da prova. Por este motivo, o uso de um calçado esportivo com absorção de impacto, torna-se essencial nesse tipo de prova.
No que se refere ao solado das sapatilhas, constatou-se a utilização de várias tecnologias. A fabricante Asics, por exemplo, desenvolveu a “tecnologia Solid Rubber Outsole”. De acordo com o site da fabricante, trata-se de uma “sola em
borracha sólida que oferece maior durabilidade e aderência” (ASICS, [2012bq]), a exemplo do modelo Hyper Sprint 4 dessa fabricante.
Observou-se, ainda, que a maioria dos solados das sapatilhas contém o sistema de tração Pebax. Segundo o site da fabricante Nike, esse é um “sistema de tração com uma placa leve e rígida [...]” (NIKE, c2012br, tradução nossa). Outro material inserido nos solados é a borracha (NIKE, c2012br), a exemplo do modelo
Na confecção dos solados das sapatilhas, nota-se que são levados em consideração aspectos relacionados ao tipo de solo (pista), para que sejam utilizados nos solados, materiais e tecnologias mais aderentes à pista, buscando propiciar uma tração mais segura. Ou seja, isso evita que o solado seja escorregadio, amenizando, assim, o risco de possíveis acidentes durante a prova.
Vale frisar que, tais inovações tecnológicas não são, entretanto, exclusivas das sapatilhas de corrida. Acrescidas de outros materiais, podem integrar as sapatilhas utilizadas em provas de meio fundo e fundo, saltos, lançamentos e arremesso, conforme será apresentado a seguir.