6. Analysis
6.1 The challenges that the refugee crisis imposes to Bulgaria
6.1.1 Burden to the economy
O Pré-Romantismo, ocorrido no último quartel do século XVIII, vê a ascensão do romance como gênero literário, propiciado pela formação de um público leitor composto de mulheres, funcionários públicos e profissionais liberais. A burguesia precisava de um gênero que representasse a sua classe. O romance inglês do final
426
183 do século XVII e do século XVIII é o precursor do romance do século XIX com autores como Daniel Defoe, Jonathan Swift, Samuel Richardson e Henry Fielding, que estabeleceram uma forma para o romance.427 No final do século XVIII ocorre também a descoberta de William Shakespeare fora da Inglaterra, primeiro por alemães; Ossian, o poeta popular escocês, que influenciou uma geração de escritores, era, na verdade, uma farsa criada por James Macpherson428; o romance gótico surge com Horace Walpole, Ann Hadcliffe e Matthew Gregory Lewis, que influenciarão a linha fantástica da literatura romântica429;
As origens do movimento romântico podem ser encontradas em dois países europeus: Alemanha e Inglaterra. Ao primeiro devem-se os substratos filosóficos e estéticos, ao segundo, alguns de seus principais representantes e mais influentes escritores. Para Ian Watt430 a Inglaterra foi também a pátria da nova forma literária: o romance. O liberalismo do século XIX e a ascensão da burguesia como classe social dominante, tomando o lugar da aristocracia decadente européia, são fatores igualmente importantes para o movimento.431
Os artistas da época tiveram uma relação de iconoclastia com o passado. Segundo Hauser:
Não era essa, sem dúvida, a primeira vez que uma geração assumia uma atitude crítica em relação ao seu próprio contexto histórico e rejeitava os padrões tradicionais da cultura, por ser incapaz de expressar neles as suas concepções próprias de vida. [...], mas a nenhuma outra ocorrera colocar em questão o significado e a raison d’être de sua própria cultura e indagar se esta podia corresponder à sua disposição própria de espírito e se representava um necessário elo na corrente total da cultura humana.432
427
WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
428
OUSBY, Ian (Ed.) The Wordsworth Companion to Literature in English. Ware: Wordsworth, 1994. p 582.
429
Ibidem, p. 795.
430
WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
431
D’ONOFRIO, Salvatore. Literatura Ocidental: Autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1997. P 327-76; MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 32ª ed. São Paulo: Cultrix, 2003. P 113 -20.
432
184 O movimento foi muito importante para a cultura ocidental. Os românticos quebraram vários paradigmas, de tal forma que “todo o século XIX dependeu artisticamente do Romantismo.”433
Algumas das principais características do movimento são o predomínio da fantasia, da imaginação, a subjetividade, pois o artista rebela-se contra o racionalismo vigente até então; o uso de temas cristãos e nacionais, sendo comum encontrar os dois unidos, principalmente para ilustrar uma ideia de união na Europa Pré-Reforma Protestante; a liberdade criadora, entendida por todos os artistas com a busca pela originalidade; a valorização do folclore e da arte popular, visto o surgimento da etnografia e coleta de contos populares; a identificação entre o artista e a natureza, sendo essa percebida como o elemento puro; a valorização da paixão, o sentimentalismo romântico que tende, às vezes, ao exagero; a liberdade de sentir, viver e de expressar; a luta contra o absolutismo de quatro formas: primeiro, o absolutismo político, contra o imperialismo; segundo, o religioso, contra o dogmatismo; terceiro, o social, contra as classes dominantes; quarto, o estético, contra as normas. O artista é notado como criador, dotado de sensibilidade especial. Assim sendo, o conhecimento não se dá do meio para o indivíduo, mas do indivíduo para o meio, pois é o “sujeito”, o “eu”, a “consciência” quem determina o “objeto”, o “não-eu”, a “realidade”.434
Paolo D’Angelo, ao tratar do Romantismo, destaca o significado da Idade Média para os românticos, pois era “a época em que o artista estava profundamente arraigado à sociedade em que vivia, porque a arte era o veículo essencial para a fé,
433
HAUSER, op. cit., p. 665.
434
185 isto é, para aquilo que era considerado a coisa mais importante.”435 Além da Idade Média, os românticos entusiasmaram-se com o Oriente e com os povos do passado: Egito, Pérsia e Índia, que passam a ser estudados e valorizados. A Grécia, tão importante como modelo para os classicistas, deixa de sê-lo seguido pelos românticos na sua busca por autenticidade.
No Romantismo europeu, alguns dos principais autores na poesia são Novalis, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats, Hugo, Lamartine e Musset. Grandes narradores no romance e conto: Hoffmann, Hugo, Goethe, Gogol, Manzoni, Leopardi, Camilo Castelo Branco. Houve também a criação do romance histórico com Walter Scott, que é a grande criação em prosa do Romantismo, visto a sua tarefa de reconstituir a história, revalorizar e rever fatos e figuras importantes. Anthony Burgess, ao analisar a produção romanesca de Walter Scott, destaca o fato de que o autor escocês escolhia “períodos em que os antigos valores floresciam – cavalheirismo, honra, maneiras cortesãs, lealdade ao rei”.436 Essas mesmas características podem ser percebidas nas obras de Herculano, porque o seu modelo é o próprio Scott. Na pintura, os dois grandes nomes são Eugéne Delacroix e Francisco Goya; na música: Lizst, Schubert, Schumann, Chopin, Beethowen, Wagner.
A filosofia tem um papel importantíssimo no Romantismo, pois ela influenciará todas as ideias de liberdade artística e de gênio criador dos românticos. Para Rousseau “o subjetivo é o ponto de partida.”437 Também pertence a ele a noção do bom selvagem, isto é, o homem é bom por natureza, mas é a vida em sociedade que o corrompe, pois ela só faz bem ao homem. De Herder vem a concepção de uma
435
A Estética do Romantismo. Lisboa: Estampa, 1998. P. 55.
436
A Literatura Inglesa. São Paulo: Ática,1996. p. 208.
437
BORNHEIN, Gerd. Filosofia do Romantismo. In: GUINSBURG, Jacó. (org). O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 1993. P.80
186 Consciência Nacional. Fichte define o “Eu como autoconsciência pura, intuição intelectual”438 e “imaginação produtora”439; de acordo com Schiller, “A arte se apresenta com uma missão pedagógica, redentora do homem, de suma importância.”440 Para Schlegel, “o artista, o poeta torna-se uma espécie de sacerdote para os homens, pois é ele quem melhor consegue comunicar o finito com o infinito.”441 Arnold Hauser ressalta a importância do Romantismo ao dizer que
não existe produto da arte moderna, nenhum impulso emocional, nenhuma impressão ou estado de espírito do homem moderno, que não deva sua sutileza e variedade à sensibilidade que se desenvolveu a partir do romantismo.”442
Como se pode perceber, o Romantismo mudou a concepção europeia de ver e de conceber a arte e o mundo que cerca o homem. De certa forma, somos todos românticos ainda, pois acreditamos em valores concebidos por eles.
Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa em 1810 e morreu em 1877 em Val-de-Lobos. Durante os seus mais de 40 anos dedicados à escrita, Herculano publicou poemas, romances, obras históricas e críticas. De sua vasta obra destacam-se os dois volumes de poesias: A voz do profeta (1836) e A
harpa do crente (1838); as narrativas: Eurico, o presbítero (1844), O monge de
Cister (1848) e Lendas e narrativas (1851); as obras históricas: História de Portugal
em quatro volumes (1846-1853) e História da origem e estabelecimento da
Inquisição em Portugal, em três volumes (1854-1859).
Em vida, o escritor foi um dos mais admirados intelectuais portugueses e o pai da historiografia moderna em Portugal. Como historiador, Herculano está para o século XIX como João de Barros para o século XVI e Fernão Lopes para o XV. 438 Ibidem, p. 86 439 Ibidem, p. 88 440 Ibidem, p 93. 441 Ibidem, loc.cit. 442
187 Ligado a ideais liberais, por causa deles foi exilado. Ao retornar à pátria, continuou a defendê-los. Em suas obras narrativas, percebemos o apuro histórico de fontes, dados e a elaboração desse material pela ficção. A maioria dos historiadores da literatura portuguesa aponta Herculano como melhor historiador que ficcionista.
Concordamos com Jesus Antônio Durigan, quando propõe uma reavaliação da obra literária de Herculano, pois a histórica é reconhecida e reverenciada, inclusive fora de Portugal, mas a sua produção literária sofre ainda críticas e ocupa uma posição inferior, se comparada à histórica. Para o crítico, na obra de Herculano há uma “busca e recuperação, no passado histórico português, das características fundadoras da nacionalidade.” 443 Características essas que foram importantes nos séculos XV e XVI, quando ocorreram as conquistas portuguesas ultramarinas, assim como são importantes para o Romantismo e a sua recuperação da Idade Média. Nicola Abbagnano444 ressalta essa valorização da Idade Média pelos românticos. Além disso, o filósofo italiano assinala a importância do movimento romântico para o reconhecimento da Idade Média como o período de formação do mundo moderno.
Em Portugal, o Romantismo iniciou tarde, sendo Almeida Garrett o introdutor da nova estética com a obra Camões em 1825.445 Além de Garrett e Alexandre Herculano, os dois primeiros românticos portugueses, destacam-se também Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis e João de Deus.
Álvaro Manuel Machado446 destaca a importância da tradução de obras estrangeiras de Walter Scott, Chateaubriand, Henry Fielding, Goethe e Rousseau como preparadora do público leitor dos romances escritos por Herculano, Garrett e
443
Alexandre Herculano. São Paulo: Abril, 1982 (Literatura Comentada). p. 102.
444
Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 1019.
445
SARAIVA, António José & LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora, 1975. p. 741.
446
188 outros prosadores românticos em Portugal. Carlos Reis447 elogia em Herculano a capacidade de lidar com a história e o seu conhecimento da Idade Média. O autor de
O Bobo soube captar o espírito e foi fiel na reconstituição histórica de fatos e dados
em seus romances, porém não fugiu da idealização na construção das personagens. A capacidade de Herculano é ressaltada, novamente, por Álvaro Manuel Machado, ao “atingir nos seus romances uma densidade poética por vezes original, em todo o caso mais original do que na poesia.”448 Herculano escreveu poesia somente na juventude. Após abandonar a poesia, dedica-se totalmente à prosa tanto de ficção quanto histórica.