Gabriele Mattanna1 Leni Dias Weigelt2 O presente estudo é um recorte da pesquisa intitulada “O itinerário terapêutico e o parto de usuárias do Sistema Único de Saúde – SUS”, que teve como objetivo investigar a vivência das mulheres no processo gravídico-puerperal e a atenção recebida pelas mesmas nos serviços de saúde. Na realização deste estudo, utilizou-se de um enfoque social e de termos como o itinerário terapêutico, entendido como uma busca de cuidados e que procura descrever e interpretar as práticas individuais de saúde no sentido dos caminhos percorridos por mulheres gestantes até a realização do parto. Tais caminhos percorridos na busca de soluções para problemas de saúde são, em geral, pouco conhecidos ou relegados a um segundo plano. No entanto, cada contexto possui características próprias e especificidades, onde acontecem os eventos cotidianos (econômicos, sociais e culturais) que organizam a vida coletiva. É dentro dele que os indivíduos evoluem ao mesmo tempo em que seu corpo, seus pensamentos, suas ações são constituídos por esse espaço social(1). A gravidez é um processo que envolve alterações profundas, com repercussões nos aspectos físico, psíquico e social. Nesse período, estar sob os cuidados de uma equipe de profissionais é fundamental, profissionais que façam a união de seus conhecimentos e se esforcem para trabalhar em equipes multidisciplinares e interdisciplinares, realizando um atendimento de qualidade, integral e humanizado, não só para a gestante, mas a toda a família desta, pois os membros da família estarão sempre exercendo influências sobre a gestante(2). A
antropologia também se faz importante ao mostrar a existência de uma pluralidade de sistema s de cuidados à saúde. Através da enfermagem transcultural, se estudam as diversidades e semelhanças culturais da população, bem como suas estruturas societárias e organizacionais de forma a compreender a prática real e contribuir para seu desenvolvimento futuro, objetivando que a população decida de forma culturalmente responsável sobre seus próprios cuidados em saúde(3). É necessário considerar os indivíduos como atores sociais, definidos pelo espaço social no qual se inserem e pela consciência de agir sobre esse espaço(1). Este estudo foi realizado no município de Ibarama/RS que dispõe de duas Unidades Básicas de Saúde – Estratégias de Saúde da Família (ESFs) - com cem por cento de cobertura. A pesquisa envolveu mulheres cadastradas nas duas ESFs do município, que tiveram seus filhos entre julho e dezembro de 2010, que estavam
1. Acadêmica de Enfermagem da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, bolsista PUIC voluntário/ Programa UNISC de Iniciação Científica. Integrante do GEPS (Grupo de Estudo e Pesquisa em Saúde). [email protected].
2. Doutora em Desenvolvimento Regional. Professora adjunta do Departamento de Enfermagem e Odontologia da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Integrante do GEPS (Grupo de Estudo e Pesquisa em Saúde). lenid@unisc,com.br
cadastradas nas ESFs e que realizaram pré-natal nessas unidades, sendo a amostra composta por 18 mulheres. A coleta de dados aconteceu por meio de entrevista semi- estruturada, na residência das participantes, com auxílio de um equipamento de áudio para gravação das falas das mesmas. O estudo respeitou os aspectos legais e éticos que envolvem pesquisas com seres humanos, conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(4), bem como, mediante a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), sob protocolo n° 2732/10. Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa. Com os dados coletados, o conteúdo das informações foi analisado conforme referencial de Análise de Conteúdo(5). No relato da experiência do parto, as falas das mulheres entrevistadas apresentaram sentimentos distintos, entre felicidade, surpresa e sofrimento. Durante a gestação, além de alterações psicológicas, sexuais e ambientais que se fazem presentes nesse período, a identificação da situação de gravidez para a maioria das mulheres é concebida como um processo experimental cujo significado é elaborado através de episódios culturais e sociais e, em segundo lugar, como um evento biológico(2). Porém, neste estudo, destacou-se que as participantes se reportaram a alterações físicas em seus corpos, apenas uma delas fez referência a outros sentimentos. Esses sentimentos e percepções representam influências dos valores pessoais, familiares e culturais sobre o processo “gravidez-parto”(2). As pessoas e suas famílias buscam atenção à saúde sem, necessariamente, seguir um mesmo percurso ou hierarquia. Nos processos de saúde-doença-cuidados, trilham caminhos denominados “itinerários terapêuticos”(1). Em relação ao percurso, tipo de serviços e de profissionais de saúde procurados para a assistência pré-natal e para a realização do parto, verificou-se que o itinerário terapêutico percorrido pelas mulheres acompanha a lógica do modelo biomédico, seguindo o fluxo: consultas-exames- diagnóstico e maternidade. Dentre os profissionais de saúde mencionados como participantes da assistência prestada às mulheres, durante o processo de gravidez e parto, destacaram-se, principalmente, os médicos e, em segundo plano, os enfermeiros. Não foram mencionados outros profissionais além desses. Os enfermeiros só foram destacados quando as mães se referiam ao cuidado profissional desempenhado junto aos grupos de gestantes. Nesse aspecto, detectamos uma assistência à saúde centrada na figura do médico, como “o elemento central da assistência”. O modelo assistencial e o modo de produção de serviços de saúde podem ser usados como sinônimos e tem um sentido amplo envolvendo recursos financeiros, materiais, força de trabalho e, também, as “tecnologias e modalidades de atenção”. Ambos articulam-se de maneira a constituir uma dada estrutura produtiva e certo discurso, com projetos e políticas que assegurem a sua reprodução social(2). Nos depoimentos, destaca-se a insatisfação de algumas mulheres pela falta de acesso à integralidade no atendimento em saúde recebido no município. A Constituição de 1988 e a Lei Orgânica da Saúde 8080, de 19 de setembro de 1990, apontam que “a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício através de políticas sociais e econômicas” e do estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para sua promoção, proteção e recuperação da saúde. Isso nos remete à cidadania e à democracia, sendo que, nas falas dos sujeitos, observa-se que esses princípios encontram-se fragilizados no município pesquisado. Cabe salientar que o termo integralidade tem sido correntemente utilizado na política de saúde, Sistema Único de Saúde, porém, é um dos princípios que ainda não se concretizaram plenamente no cotidiano
dos serviços de saúde dos brasileiros. A integralidade tem-se apresentado com diversos sentidos: atributos e valores de práticas de saúde, modos de organizar os serviços de saúde e políticas de saúde. O uso da categoria integralidade se estrutura a partir de uma ação social específica e pode incluir os aspectos objetivos e subjetivos resultantes da interação/rela cão dos atores em suas práticas no interior das instituições(6). Pelas falas das entrevistadas, evidencia-se que a satisfação esteve focada na atenção profissional recebida durante o pré-natal e o parto, nos locais onde foram atendidas. A satisfação do usuário pode ser definida pelas avaliações positivas individuais de distintas dimensões do cuidado à saúde. Existem vários modelos para realizar essa medida, mas todos têm como características comuns as percepções do paciente sobre suas expectativas, valores e desejos(2). Algumas mães entrevistadas referiram insatisfação com o atendimento prestado pelos profissionais de saúde. Estes casos nos reportam a uma expectativa não atendida, nos levando a admitir que, com a modernidade, surgiu um conjunto de novas necessidades sociais, pois as pessoas exigem mecanismos cada vez mais especializados, ocorrendo a renovação dos valores que orientam as pessoas. Juntando-se tudo isso com as relações de produções capitalistas e com a própria racionalidade científica moderna, desenvolveram- se técnicas para controlar e organizar a produção e, consequentemente, a previsão das ações(6). No entanto, muitos valores são legados culturalmente pelas famílias e permanecem com as pessoas nos diferentes momentos de suas vidas e, portanto, precisam ser respeitados. No Brasil, a atenção à mulher, no período gravídico-puerperal, pode ser considerada como um desafio, tanto no que se refere à qualidade propriamente dita, quanto aos princípios filosóficos do cuidado, que se encontram ainda, centrados em um modelo hospitalocêntrico e tecnocrático. Reverter essa situação é, portanto, uma questão de saúde pública pela dimensão da população envolvida e de respeito aos direitos reprodutivos. O desafio de enfrentar esta questão é certamente uma tarefa que envolve gestores de todas as esferas, profissionais de saúde e suas entidades de classe (conselhos) e sociedades científicas, as universidades, bem como, as mulheres e suas famílias. Ao priorizar a experiência das usuárias e ao investigar suas concepções e escolhas de itinerário no processo gravidez/cuidados, foi possível não só ampliarmos a noção de arranjos técnicos assistenciais como também mostrar o quanto é relevante que se levem em conta as subjetividades dos sujeitos nas políticas e na gestão do cuidado.
Descritores: Saúde da Mulher; Cuidado pré-natal; Humanização da Assistência. Área Temática: Experiência e vivência da família em situações de saúde e doença. REFERÊNCIAS
1. Gerhardt, TE. Itinerários terapêuticos em situações de pobreza: diversidade e pluralidade. Cad. Saúde Pública. RJ. 2006; 22(11): 2449-2463.
2. Conill E, Pires D, Sisson MC, Oliveira MC, Boing AF, Fertonani HP, et al. Relação público- privado e arranjos técnicos assistenciais na utilização de serviços de saúde: um estudo de itinerários terapêuticos na
região sul [internet]. 2007 Ago [cited 2011 apr 11]. Available from:
http://www.ans.gov.br/portal/upload/biblioteca/UFRGS_Itinerariossul.pdf 3. Helmam, CG. Cultura, saúde e doença. Porto Alegre: Artmed; 2009.
4. Ministério da Saúde; Conselho Nacional de Saúde. Resolução Nº 196/96 – Normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília (Brasil): Ministério da Saúde; 1996. 5. Minayo, MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 10ª ed. São Paulo: Hucitec; 2010.
6. Pinheiro R, Mattos RA. (Org.). Construção da integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. 3ª ed. Rio de Janeiro: IMS/UERJ; 2005.
ABORTAMENTO NA ADOLESCÊNCIA E O PAPEL DA FAMILIA: REVISÃO