5.3 Prototypen
5.3.1 Location Service ved hjelp av en DHT
No Tapirapé, o relacional {r-}15(r- ~ ø- ∞ n-)16 ocorre em temas nominais, verbais
e posposicionais, indicando que os elementos estão hierarquizados dentro de um mesmo sintagma, sendo que o núcleo é prefixado por ele (núcleo à direita). Ele aponta, portanto, uma marcação no núcleo típica de “head-marking” (cf. Nichols, 1986)17.
A ocorrência desse prefixo está basicamente interligada ao uso dos marcadores de pessoa da Série II, quando os complementos de núcleos nominais, verbais e posposições são pessoas intralocutivas. No caso de o complemento ser de terceira pessoa, verifica-se o seu uso apenas quando o complemento é um sintagma nominal, marcado com o referenciante {-a}.
Nos nomes, sua ocorrência é restrita aos relativos, isto é, aqueles que mantêm uma relação de dependência com uma expressão referencial obrigatória, e aos autônomos, aqueles que podem admitir uma expressão referencial como complemento (cf. Capítulo 3), estabelecendo uma relação genitiva, na qual o complemento é o possuidor. A ocorrência do prefixo relacional é, portanto, obrigatória nos nomes relativos (73) e facultativa nos nomes autônomos (74).
15Adoto o termo relacional (cf. Rodrigues, 1996: 56) somente para o prefixo {r-} do Tapirapé.
16O alomorfe (r-) precede temas começados por vogal. Por outro lado, temas começados por consoante e
alguns começados por vogal recebem a variante (ø-). O alomorfe (n-) ocorre apenas quando o complemento é de 2ª pessoa do plural da Série II, conforme o exemplo abaixo:
pe=n-ow-a 2pl.II=R-pai-REFER
‘pai de vocês’
17 Segundo Nichols (op.cit), a morfologia indica relações que se estabelecem por meio da marcação no
núcleo ou em seu dependente e, ainda, ressalta a dependência sintática entre os elementos. Deste modo, o núcleo é marcado como tendo um dependente.
(73) marewir-a r-etym-a i-kãto
Marewira-REFER R-casa-REFER 3.II-ser.bom "a casa de Marewira é boa"
(74) xe=r=amõj-a a-ãpa-kãto ’ywyrãpãr-a18
1sg.II=R-avô-REFER 3.I-fazer-bem arco-REFER "meu avô faz arco bem"
De forma semelhante aos nomes relativos, as posposições, cujo complemento é obrigatório, são sempre introduzidas pelo relacional quando o complemento é um sintagma nominal (75) ou um clítico da Série II (76):
(75) arar-a i-’ew mãk-a r-e
arara-REFER 3.II-gostar manga-REFER R-POS "a arara gosta de manga"
(76) xãwãr-a a-yj xe=r-ewiri
cachorro-REFER 3.I-correr 1sg.II=R-POS "o cachorro correu atrás de mim"
Nos verbos, por sua vez, verifica-se a ocorrência do relacional nos transitivos e descritivos de orações independentes. Naqueles, o relacional ocorre quando o sujeito é de terceira pessoa e o objeto de primeira ou segunda pessoa, obedecendo à hierarquia de referência (1>2>3) (cf. exemplos (50-52)), ao passo que nos descritivos, o relacional ocorre somente com as pessoas intralocutivas (77).
18Observe que no nome autônomo ’ywyrãpãra, no dado abaixo, verifica-se a presença do relacional e de um
complemento.
xe=ø-’ywyrãpãr -a a-pen
1sg.II=R-arco-REFER 3-quebrar " meu arco quebrou "
(77) i-ypy-ramõ kwãkaj ane-ø ne=ø-kywer
3.II-começo-S.P.N.AT EVOC.M 2sg-REFER 2sg.II=R-ser.magro "antigamente você era magro"
A ocorrência do relacional nas orações subordinadas adverbiais19 com o subjuntivo
{-ãramõ}, o consecutivo{-ire} e o gerúndio {-wo} é ampla, entretanto, depende das pecularidades do funcionamento de cada tipo de oração. Nas orações no subjuntivo, os núcleos de seus predicados são introduzidos pelo relacional:
(78) xãko’iãpari-ø rãka a-marãka ne=ø-ker-ãramõ we
Xãko’iãpari-REFER PAS.REC 3.I-cantar 2sg.II=R-dormir-SUB PERF "Xãko’iãpari cantou enquanto você ainda dormia"
(79) miãr-a ø-xokã-ramõ ara-’o ø-a’a-ø
veado-REFER R-matar-SUB 1excl.I-comer 3.II-carne-REFER "quando o veado for morto, comeremos a carne dele"
Exceção ao que foi dito é quando o sujeito da oração principal é correferente ao objeto da subordinada. Neste caso, verifica-se a ocorrência dos marcadores de pessoa da Série III:
(80) a-yj mĩ a-ixãk-ãramõ
3.I-correr HAB 3.III-ver-SUB "ele sempre corre quando você o olha"
Nas orações subordinadas consecutivas {-ire}, cujos núcleos são sempre verbos ativos, o relacional é prefixado ao núcleo do predicado, desde que o argumento único da subordinada não seja correferente ao sujeito da principal, conforme o dado a seguir:
19Para as orações adverbiais com {-ãramõ} e {-wo}, utilizo a terminologia tradicionalmente usada nas
(81) ã-ã rãka ne=r-exãk-ire 1sg.I-ir PAS.REC 2sg.II-R-ver-CONS "eu fui depois que te vi"
Caso contrário, observa-se a ocorrência dos prefixos da Série III:
(82) we-kãrõ-pãw-ire ekwe ã-porããj 1sg.III-comer-COM-CONS F.IMI 1sg.I-dançar "depois que eu acabar de comer, dançarei"
Nas orações subordinadas com o gerúndio, somente os núcleos verbais transitivos recebem o relacional:
(83) xãri’i-ø a-a miãr-a ø-mamyrõ-wo
Xãri’i-REFER 3.I-ir veado-REFER R-procurar-GER "Xãri’i foi procurar veado"
(84) ãxe’i rãka a-a xe=r-exãk-a ontem PAS.REC 3.I-ir 1sg.II=R-ver-GER "ontem ele foi para me ver"
Na literatura sobre as línguas Tupí, o morfema que indica a pessoa extralocutiva {i-} (i20- ~ ø- ~ t- ~ h-) da Série II, ou a não-pessoa, segundo (Benveniste, op. cit),
comporta-se de maneira diferente da dos demais morfemas da Série. Essa particularidade tem gerado análises diferentes. Esse morfema tem sido analisado ora com um prefixo
relacional(segundo a terminologia de Rodrigues), ora como um prefixo de terceira pessoa.
De acordo com Rodrigues (1996: 58), o prefixo {i-}21 marca a “não-contiguidade de um determinante”, ou seja, o determinante está fora do sintagma. Não o analisa, portanto, como um marcador de pessoa. Deste modo, Rodrigues (op. cit) cria um
20 Os alunos do ensino médio Tapirapé, nas aulas de língua materna, denominavam o {i-} de “espelho
daquele ou daquilo de quem ou de que se fala ou falou”.
paradigma que alinha o morfema {i-} ao relacional {r-}, e ambos fazem referência ao contexto gramatical, indicando “não-contiguidade” e “contigüidade” do determinante22,
respectivamente. Assim, a contigüidade assinalada pelo {r-} é estrutural, pois é contigüidade entre elementos que se encontram dentro de um mesmo sintagma, e não entre elementos de sintagmas distintos, o que significa que o determinante de uma dada palavra forma um sintagma com ela.
O tratamento dos prefixos {r-} e {i-} como “relacionais” está baseado na distribuição de suas formas, sempre prefixadas ao núcleo do sintagma. Por outro lado, análises como as de Rose (2003), Jensen (1999) e Corrêa da Silva (2002), feitas para o Emerillon, família Tupí-Guaraní e Ka’apor, respectivamente, incluem o morfema {i-} como um marcador de “terceira pessoa”. Devido às propriedades morfológicas do morfema {i-} no Tapirapé, analiso-o como uma marca de terceira pessoa.