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A metodologia utilizada é o método dialógico, de viés qualitativo, a partir dos conceitos da Filosofia da Linguagem. Dentro das Ciências Humanas, existe um esforço grande em legitimar a análise qualitativa no tocante à validade científica, como nos propõe Pádua (1997, p.31). Para a autora, a escolha da abordagem qualitativa ou quantitativa depende do caso e, principalmente, dos objetivos do estudo. Citando Gouveia (1984), a autora apresenta as intenções da abordagem qualitativa:

Há problemas e investigação que exigem informações referentes a um grande número de sujeitos e que, conseqüentemente, não comportam outro recurso

Antônio Albino Canelas. Mídia e Política no Brasil: Estudos e Perspectivas. Lisboa, Portugal: Akademia - Biblioteca On-Line de Ciências da Comunicação, 2000.

36 senão o da abordagem quantitativa. Em outros casos, como por exemplo, quando se quer apreender a dinâmica de um processo, a abordagem qualitativa é a indicada. (GOUVEIA, 1984 apud PÁDUA, 1997, p.32).

Basicamente, desenvolvemos a metodologia aplicada por Mikhail Bakhtin (1997) no livro Marxismo e Filosofia da Linguagem. Segundo o autor, quando existe a necessidade de olhar para os discursos enquanto locais onde se refletem e refratam confrontos ideológicos por excelência, os conceitos e princípios metodológicos devem ser diversos da análise meramente linguística, que foca ou nas estruturas gramaticais ou na análise conteudística.

Assim, o autor apresenta o passo metodológico fundamental: "Não separar a ideologia da realidade material do signo colocando-a no campo da 'consciência' ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível" (BAKHTIN, 1997, p.44). Para o Bakhtin, a necessidade é não desvincular o texto do contexto, deixando a questão da significação ser encontrada somente na estrutura da língua ou na construção subjetiva autoral (ou em ambas), sem que haja uma interação com o contexto global, ou seja, uma consideração sobre onde aquele texto está inserido, o local onde foi publicado, quem o escreveu, para quem foi escrito, o que diz, o que quis indicar e quais referências implica.

Uma segunda etapa indicada por Bakhtin é:

Não dissociar o signo das formas concretas de comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto físico) (BAKHTIN, 1997, p.44).

Novamente, neste trecho, o autor mostra seu vínculo com o materialismo sócio- histórico: o signo não existe como uma abstração de língua, uma soma de significado mais significante, se não acionarmos as relações sociais, ou seja, se ele não estiver no âmbito da comunicação social. Assim, Bakhtin nos aponta a comunicação como elemento fulcral para a metodologia. Como veremos, qualquer objeto pode ser imantado de ideologia e ganhar significação para além de sua realidade primeira. No entanto, caso separado do contexto, um objeto torna-se nada mais que um objeto. O mesmo vale para o signo linguístico: isolado das relações humanas e da comunicação social ele deixa de ser ativado, tornando-se meramente um som e/ou representação gráfica. O exemplo mais claro são as línguas extintas, como o latim, que estão fora do sistema de comunicação social e, mesmo que ainda tenhamos conhecimento de suas representações gráficas, pronúncias e significados, não deixam de ser consideradas mortas pela simples

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falta de ativação social e, com isso, deixam de agregar sentidos novos, enfim, não fazem mais parte dos sistemas de linguagens humanos.

Por fim, como último traço metodológico, Bakhtin afirma que não é possível dissociar a comunicação e suas formas de sua base material, a infraestrutura (1997, p.44). Infraestrutura, no caso bakhtiniano, é a realidade concreta onde se dão os processos de comunicação. Todos os signos se formam dentro desta realidade social e, por isso, é importante aliar a questão do contexto com o texto (e não separá-las). Na teoria de Bakhtin, a infraestrutura está relacionada ao que ele denomina de superestrutura, ou seja, dentro dos estudos marxistas, superestrutura é todo o sistema social-ideológico que uma sociedade constitui na sua história. O signo é a materialização da superestrutura, formada, elabora o autor, pela ciência, cultura, religião e educação. Assim, cada estrutura superior forma tipos relativamente estáveis de signos ideológicos, que compõem a infraestrutura comunicacional.

O importante destes dois conceitos de Bakhtin é não olharmos ambos separadamente, mas sempre em processo de interação e constituição mútua. Não existe uma fronteira entre eles, bem como não é possível encontrar o momento em que objetos se transformam em signos ou quando as palavras ganham significados novos. Todo o processo é eminentemente ideológico, com grupos buscando constituir valores sociais, valores estes que também passam para a esfera da linguagem.

Porém, como já ressaltamos, os signos ideológicos são arenas de lutas, então, nem sempre os grupos sociais organizados conseguem estabilizar os signos, transformando tais signos, com suas ideologias e forma enunciativa, em discursos. Por exemplo, temos uma série de discursos marginais na sociedade que não conseguem subir na esfera hierárquica. Um bom exemplo são as músicas tidas como de periferia das cidades grandes, como o rap e o funk. As canções destes estilos comportam uma estrutura ideológica de valorização dos guetos, favelas e periferias, além de citarem as mazelas sociais sofridas pela população carente que vive nestes locais. Então, estes são tipos de discursos que não convergem para as estruturas ideológicas vigentes e, por isso, marginalizam-se, com seus signos e significações próprios (só que é importante ressaltar que não estão isolados). Outro exemplo, em outro âmbito, é a questão do desenvolvimento sustentável que assaltou as empresas e instituições nos últimos anos. Desde a década de 90, no Brasil, existem grupos organizados enfatizando a questão da sustentabilidade, só que as ações foram ganhar força e tornar-se um discurso vigente do politicamente correto nos últimos anos, após entrarmos no ano dois mil. Na hierarquia

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discursiva, sustentabilidade tem a visibilidade necessária para atrair políticas públicas, atenção da mídia e, com isso, discussão na sociedade.

O importante é notar que a teoria bakhtiniana tem o discurso como o local onde podem ser encontradas até as menores mudanças da sociedade – podendo ser possível “ler” um contexto histórico, estipulando uma ligação concreta com a realidade. Aliado à corrente do materialismo sócio-histórico, Bakhtin também estabelece que o objeto de estudo deve ser construído a partir da interação com o pesquisador, nunca sendo pré- dado, mas sim constituindo-se através do olhar do sujeito. Para o autor, caso sejam seguidos os procedimentos metodológicos citados, o pesquisador conseguirá examinar as formas da língua na sua interpretação, enquanto ponte da vida e do homem.

Portanto, o método dialógico que utilizamos põe em relação os discursos, que excedem a linguística (mas não deixam de estar ligados à linguagem), onde, em suma, a compreensão deve ser, antes de tudo, viva e altérica. Assim, a metodologia utiliza a questão do dialogismo como base teórica, a partir dos gêneros discursivos, da qual é possível emergir elementos de intertextualidade (um texto remetendo a outros textos), polifonia (pluralidade de vozes) e entonação. Os signos ideológicos, que formam estruturas discursivas, são produtos que refletem e refratam uma realidade que lhe é exterior.

O texto só vive em contato com outro texto (contexto). Somente em seu ponto de contato é que surge a luz que aclara para trás e para frente, fazendo que o texto participe de um diálogo. Salientamos que se trata do contato dialógico entre os textos (entre os enunciados), e não do contato mecânico “opositivo”, possível apenas dentro das fronteiras de um texto (e não entre texto e contextos), entre os elementos abstratos desse texto (entre os signos dentro do texto), e que é indispensável somente para uma primeira etapa da compreensão (compreensão da significação e não do sentido). Por trás desse contato, há o contato de pessoas e não de coisas (BAKHTIN, 2007, p.404).

A abordagem dialógica é um contraponto ao estruturalismo e um combate à reificação e ao dogmatismo. Se um enunciado é tratado fora do contato vivo com outros enunciados e da atividade humana, ele tende, segundo Bakhtin, a se reificar e tornar-se dogma: o que está dito é sempre dito da mesma maneira que acaba se tornando uma verdade.

Bakhtin, no fim do livro Estética da Criação Verbal, fez uma série de observações sobre a epistemologia das ciências humanas. São apontamentos, rascunhos, frases inconclusas e diálogos entre o autor imaginando seus críticos ou alunos. Quando o autor se questionou sobre o estruturalismo, acabou por revelar a essência da sua teoria e método, a qual buscamos explicitar até este momento:

39 Minha atitude ante o estruturalismo? Sou contra o fechamento dentro do texto, contra as categorias mecânicas de “oposição” e de “transcodificação” (a pluralidade dos estilos em Eugênio Oneguin, tal como a interpreta Lotman e como eu a interpreto), contra uma formalização e uma despersonalização sistemática: todas as relações têm um caráter lógico (no sentido lato do termo). De minha parte, em todas as coisas, ouço as vozes e sua relação dialógica. No tocante ao princípio de complementaridade, também o entendo de maneira dialógica (BAKHTIN, 2003, p. 413).

Temos que ressaltar uma vez mais que, dentro do campo da linguagem, há uma série de ferramentas linguísticas e semióticas que são utilizadas como modos de se pesquisar dentro da área de comunicação. Nos estudos de Comunicação Política, o mais usual é utilizar o procedimento metodológico da Análise de Conteúdo. Outro procedimento também utilizado é a Análise do Discurso, advindo da teoria de mesmo nome16 (AD), em sua vertente francesa. A AD, em um primeiro momento (década de 60), se pautou pela análise das estruturas gramaticais e praticou a chamada análise do discurso automática, feita com uso de computadores. Foi Michel Pechêux [1983] (1997) quem reaproximou a área da relação texto-contexto, dando abertura para novos estudos – agora com uma teoria fortemente influenciada pelos estudos de Michel Foucault17.

A teoria bakhtiniana e o método dialógico propostos não se aproximam dos procedimentos sistemáticos, seja da Análise do Discurso ou da Análise de Conteúdo, ou mesmo dos procedimentos de análise semiótica ou puramente gramatical. Mesmo que tenhamos, para fins didáticos, uma série de textos obtidos através de uma coleta sistemática e, posteriormente, uma separação temática, a questão da significação e significância vai além da quantificação. Estamos inseridos em um jogo fronteiriço, onde os sujeitos são não simétricos, concebidos intersubjetivamente a partir da participação de outros sujeitos, o que vai implicar em um discurso sempre visando uma resposta, atravessado por outros discursos, um atravessamento que é constitutivo da própria linguagem (apud FLORES, 1998, p.33).

6. Seleção de corpus e triagem de material

A fim de ter uma gama do cenário do jornalismo político brasileiro foram colhidos editoriais dos jornais O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. A intenção de

16 Doravante AD.

17 Autor que influencia uma séria de áreas nas Ciências Humanas, inclusive os estudos de Filosofia da Linguagem.