Ao findar-se o ano de 1984, o debate em torno das relações bilaterais já se encaminhava para os prognósticos de como os novos governos as encaminhariam. Aqui, frustrada a campanha pelas eleições diretas, com a derrota da emenda Dante de Oliveira no Congresso Nacional, apesar da enorme mobilização popular, o colégio eleitoral deveria escolher entre o candidato Tancredo Neves, da Aliança Democrática (união do PMDB com os descontentes do PDS, que fundaram o PFL, por não apoiarem Maluf, vitorioso na convenção
do seu partido) e de Paulo Maluf, do PDS. Em janeiro do ano seguinte, conforme previsão geral, o primeiro sairia vitorioso. Lá, o candidato republicano, escorado nos sucessos econômicos e políticos de maior proeminência de seu país, colhia os louros da reeleição.
Na coluna Tendências / Debates (FSP, 1º/12/1984), a Folha de S. Paulo lançou a seguinte pergunta: “Como vê as relações Brasil-Estados Unidos após a reeleição do presidente Reagan e a eleição do futuro presidente brasileiro, em janeiro próximo?”. Responderam o empresário e ex-prefeito de São Paulo Olavo Setúbal, o sociólogo e ex-professor da Universidade de São Paulo e então professor da Pontifícia Universidade de São Paulo Florestan Fernandes e Antônio Dias Leite, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente da Companhia Vale do Rio Doce. Nenhum deles falava em nome de algum partido, embora atuassem na política partidária. A opinião do primeiro torna- se objeto de maior interesse tendo em vista que assumiu, ainda como escolha de Tancredo Neves, exatamente o Ministério das Relações Exteriores, no primeiro ano do governo de José Sarney, ao contrário das previsões que o cotavam para alguma pasta da área econômica.
“Nem excessivamente tensas, sob o permanente risco da ruptura e do confronto, nem excessivamente cordiais, a caminho de um alinhamento automático ou de uma posição de dependência crescente”, afirmava Setúbal, que não previa mudança de curso, mantendo-se o “respeito recíproco” devido à credibilidade da política externa formulada por “uma das mais respeitadas chancelarias, o Itamaraty”, mas, também, mantendo-se a discordância quanto “à responsabilidade dos países industrializados no equacionamento da crise das nações em desenvolvimento” (idem).
Conforme Setúbal, caminhava-se para a consolidação de um processo no qual os países desenvolvidos caminhavam para um novo período de “expansão tecnológica, militar e política” ao passo que os países do Terceiro Mundo continuavam “a se debater com o drama da dívida externa, da recessão e da pobreza”, e que essas diferenças significavam a continuidade de duas teses antagônicas:
[...]o argumento dos ricos, defendendo a competição aberta e o mercado livre, onde apenas têm vez os mais eficientes; e o argumento dos que lutam pelo desenvolvimento, como condição de legitimidade de uma nova ordem econômica, critérios éticos de segurança global e consistentes com as dificuldades de ajustamento de curto prazo vividas pelo Terceiro Mundo (idem).
Mas, de forma realista, reconhecia que o “tom” desse debate seria dado pelo líder hemisférico uma vez que a reeleição de Reagan expressava o reconhecimento de sua
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conquista da hegemonia política, econômica, tecnológica e militar para os Estados Unidos, liderança esta de natureza “conservadora, nacionalista e às vezes ufanista, cujo ethos (grifo original) é a valorização do mais forte, do mais competente e do mais inteligente”. Por isso, reconhecia:
A esse pragmatismo conservador, porém eficiente e bem sucedido, não se pode opor apenas (grifo original) um discurso humanista, legítimo em seu conteúdo, porém pouco operacionalizável em termos práticos. É preciso ser realista e perceber que a dependência do Ocidente em relação aos Estados Unidos aumentou com a reeleição de Reagan e que será impossível para nós libertar nossa política econômica totalmente das limitações interpostas pela questão do endividamento. O sucesso do governo Tancredo Neves está, assim, condicionado à sua opção pelo realismo: isto é a consciência de que o êxito econômico e político dos Estados Unidos lhe dá enorme peso na fixação das regras do sistema financeiro internacional (...) (idem).
No entanto, em favor do Brasil, Setúbal destacava dois trunfos, a saber, o papel estratégico desempenhado pelo país na nova concepção de segurança defendida por Reagan e a vitória (já contada como certa por ele) de Tancredo Neves, que consagraria um estadista com grande autoridade moral, altivez e coragem para falar em nome do Brasil e rejeitar a “abertura de nossas fronteiras às aplicações estrangeiras, ou seja, a internacionalização de nossa economia”, legitimado pelas instituições políticas. A esse estadista caberia, de acordo com o empresário, formular uma política econômica realista, calcada em objetivos “possíveis e exeqüíveis” (idem). No entanto, avaliando retrospectivamente, os dois trunfos mencionados viriam a se extinguir em breve: a morte de Tancredo com a decorrente substituição por José Sarney limitaria sobremaneira a legitimidade e autoridade moral do presidente e, sob o ângulo do papel estratégico, o fim da Guerra Fria, que já se prenunciaria no ano seguinte, 1985, com o início das reformas conduzidas por Mikhail Gorbachev na União Soviética, e se consolidaria em 1989, com a queda do Muro de Berlim, retiraria essa suposta posição estratégica. Em contrapartida, o fim da Guerra Fria traria como conseqüência positiva para o Brasil uma maior liberdade de ação regional na América do Sul, conforme ressaltaremos no capítulo quinto.
O sociólogo Florestan Fernandes, por sua vez, criticava o “mandato” que atribuía ao país da América do Norte a função de “agente supremo da ‘defesa da liberdade, da democracia e da civilização’’, visto que se trataria apenas da “liberdade que convém aos Estados Unidos; da democracia que se torne instrumental, no exterior, a uma dominação imperial sem entranhas; a civilização que consagra e perpetua a supremacia norte-americana sobre todos os povos”, supremacia esta que significava, na América Latina, uma “presença
ainda mais daninha e impiedosa que a dos antigos romanos ou dos modernos ingleses”. Assim, embora reconhecendo maior legitimidade a Tancredo Neves que aos militares, fruto de uma opção burguesa pela transição gradual e segura, Fernandes avaliava ser difícil resistir à nova era na qual as “elites (os estratos dominantes e mais poderosos da grande burguesia)” estariam “empenhadas na internacionalização do sistema econômico, cultural e de poder do capitalismo” e, por isso, não previa grandes transformações: “o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos subsistirá (e provavelmente se ampliará) e, dentro dele, o País redefinirá suas relações internacionais, dimensionando-as ao peso que alcançou como ‘potência intermediária satelitizada’” (idem).
O economista Antônio Dias Leite avaliava o poder dos EUA na administração da moeda internacional, o dólar, afirmando que essa função exigia grandeza, e questionava: “Será que o novo governo Reagan (...) procurará compreender as razões dos outros, relativas à delegação de responsabilidade que fizeram aos Estados Unidos para administrar a moeda internacional?”. E recomendava ao Brasil atitude mais pragmática no diálogo com a potência do continente: “(...) o Brasil não pode, se quiser ter eficácia a curto prazo na sua política econômica externa, colocar-se simplesmente na posição de vítima de uma conjuntura desfavorável, sem assumir responsabilidade específica pelas suas próprias ações”. E, reconhecendo também a autoridade moral do presidente que se encaminhava ao poder “com apoio maciço da opinião pública”, Tancredo Neves, recomendava: “o novo governo há que assumir atitude objetiva na defesa de seus interesses comerciais e financeiros, com base em informações verazes sobre a realidade nacional e em perspectiva realista de suas possibilidades de ação” (idem).
No decorrer da década de 80, após um declínio relativo, as relações econômicas com os Estados Unidos recuperaram grande dimensão 20, tendo em vista a retração dos mercados
dos países em desenvolvimento, com a crise da dívida, e a necessidade brasileira de manter superávits para saldar os compromissos. Os atritos comerciais permaneceram, com as críticas brasileiras ao protecionismo norte-americano, acrescido de retaliações, e com as pressões daquele país para que o Brasil abrisse seus mercados, sobretudo do setor da informática, de serviços e de produtos da indústria farmacêutica. O Brasil se viu pressionado a fazer, paulatinamente, concessões aos Estados Unidos, como a adoção de posturas mais flexíveis nas negociações do GATT a respeito do setor de serviços. A abertura do mercado brasileiro às
20 Cf. Sennes: “Depois de um ligeiro declínio no início da década de 80 – quando tais transações representavam cerca de 17,1% das exportações brasileiras –, os fluxos comerciais brasileiros voltam a crescer a partir de 1983/84, alcançando cerca de 27% das exportações brasileiras em 1985” (2003, p. 98).
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importações teve um impulso no governo Sarney, coma redução de tarifas de importação, a partir de 1988, e se consolidou logo no início da década seguinte, no governo de Fernando Collor.
Do ponto de vista político, a década de 1980 testemunhou melhoras na relação entre os dois países, mas sem a volta ao alinhamento político e ideológico incondicional, alinhamento este que, se efetivado, agradaria apenas alguns setores mais exaltados à direita do espectro político.
Um dos eixos mais importantes em torno do qual se articulou a política externa brasileira nos anos 70 e início dos 80 foi o fortalecimento das relações com os países do Terceiro Mundo, tanto em extensão, com o aumento do número de países com os quais o Brasil se relacionava, quanto em intensidade, com o aumento do volume de mercadorias exportadas para os mesmos1. Aumentaram, também, os acordos de cooperação e o número de visitas, tanto presidenciais quanto de chanceleres e ministros, de parte a parte2.