• No results found

Local flux mimetic multipoint flux approximation

2.4 Multipoint flux approximation methods

2.4.1 Local flux mimetic multipoint flux approximation

A tese de que as economias latino-americanas tenderiam à estagnação foi apresentada por Furtado no livro Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina de 1968. Neste Furtado discorre sobre dois modelos, um referente à fase primário-exportadora e outro à fase de industrialização por substituição de importações.

A primeira fase seria marcada pelas seguintes características: a) terra e oferta de mão- de-obra abundante100; b) baixo nível de salários; c) deterioração dos termos de troca; d) economia composta por três setores, o de subsistência, o exportador e o provedor de capacidade produtiva para o setor exportador. Segundo Furtado, no início do processo de

100

A oferta de mão-de-obra ilimitada nos países latino-americanos e caribenhos é analisada com detalhe em Lewis (1958).

140

desenvolvimento desta fase, os trabalhadores excedentes seriam absorvidos com produtividade marginal zero. No entanto, à medida que a demanda pelos bens exportados se elevasse, seria necessário ampliar o investimento no terceiro setor. Surge então, o questionamento se essa fase de desenvolvimento geraria os recursos necessários à ampliação da capacidade produtiva. Furtado afirma que a resposta é positiva, pois os recursos provenientes da exportação gerariam a poupança necessária à ampliação dos investimentos101.

(..) no modelo agroexportador, a própria expansão da atividade exportadora assegura a poupança necessária, uma vez que a produção [do terceiro setor], não podendo ser consumida ou exportada, tem como destino obrigatório a incorporação à capacidade produtiva (COUTINHO, 2015, p. 459).

Tem-se, portanto, que uma vez mantidas as exportações de bens primários, esta fase resultaria em ciclo virtuoso, pois se elevaria ao mesmo tempo a produtividade do capital e a taxa de poupança102. Mas, uma vez cessadas as exportações, haveria excesso de oferta de bens primários no mercado, queda dos preços e redução dos investimentos. Nessa situação dar-se- ia início à segunda fase.

Historicamente, o processo de substituição de importações foi alavancado a partir da crise dos anos 1930, que afetou negativamente as receitas de exportações dos países da América Latina consequentemente dificultando a sua capacidade de importar. Nesse cenário adotaram-se medidas de restrições à importação como controle quantitativo (quotas), desvalorização da moeda, compra de excedentes e financiamento de estoques de produtos primários etc103. Tais medidas evitaram a queda da renda interna e permitiram que as divisas fossem direcionadas a importações dos bens de capital necessários ao processo de industrialização.

Em suma, o processo de substituição de importações pode ser entendido como um processo de desenvolvimento parcial e fechado que, respondendo às restrições do comércio exterior, procurou repetir aceleradamente, em condições históricas distintas, a experiência de industrialização dos países desenvolvidos (TAVARES, 1974, p. 35).

Importante observar que a substituição de importações não consistia simplesmente em passar a produzir internamente produtos importados e assim reduzir o montante de importação. Pelo contrário, à medida que a industrialização avançava, superando o setor de

101

Identifica-se aqui uma diferença fundamental entre Furtado e Kalecki, pois como destacado na primeira seção para o segundo o investimento precede a poupança e não o contrário.

102

“(...) um aspecto interessante do modelo agrícola multissetorial é a conclusão de que o aumento da concentração de renda não impede o crescimento econômico, uma vez que a composição da demanda necessariamente envolve investimentos [no setor provedor de capacidade produtiva ao setor exportador]” (COUTINHO, 2015, p. 459).

103

Prebisch (1981), apesar de reconhecer a necessidade de proteção ao mercado interno para a industrialização por substituição de importações, afirma que estes foram exagerados devido à influência de poderosos interesses.

141

bens de consumo e passando para o setor de bens intermediários, a demanda por bens de capital importados se elevava, retroalimentando esse ciclo o qual tenderia ao estrangulamento seja em caráter absoluto (redução da capacidade total de importar) ou relativo (crescimento lento da capacidade de importar).

Furtado (1968) reconhece os argumentos acima descritos e destaca que as políticas restritivas sustentaram a renda interna e impulsionaram o processo de industrialização por substituição de importações. A manutenção da renda interna não só criou o mercado para os bens manufaturados como elevou os preços destes.

Segundo Furtado, a substituição de importações de bens de consumo não duráveis seria fácil, dados os menores preços dos bens e a existência de amplo mercado, mas tais fatores não estariam presentes na posterior substituição de bens de consumo duráveis. Furtado (1968) destaca que diferentemente dos países centrais, nos quais o desenvolvimento tecnológico era o resultado endógeno das mudanças sociais, nos países periféricos a técnica produtiva era um fator exógeno introduzido numa sociedade contendo marco social e institucional inadequado para a sua plena absorção.

Ao contrário dos países que se desenvolveram na fase clássica, durante a qual o avanço da técnica estava intimamente relacionado com os demais fatores causantes da aceleração do processo de desenvolvimento econômico e de mudança social, no atual processo de transformação das estruturas subdesenvolvidas a tecnologia constitui um fator exógeno de reduzida flexibilidade (FURTADO, 1968, p. 9).

As técnicas de produção necessárias para a produção de bens intermediários eram intensivas em capital, desta forma a sua produção não resultava em absorção de grande contingente de trabalhadores, assim havia uma redução da massa de salários na economia e ampliação dos lucros, aumentando a concentração de renda. Em adendo, isso resultava na redução do mercado consumidor tanto de bens primários quanto de bens manufaturados. Diante da redução do mercado, para se estimular a produção interna dos bens de capital, os preços deste deveriam ser mais elevados do que os preços médios da economia. Furtado (1968) conclui que o resultado dessa dinâmica seria a ampliação da relação capital-trabalho e redução da relação produto-capital na economia, o que consequentemente levaria a economia para estagnação.

Na medida em que a demanda se inclina em favor de indústrias produtoras de bens de consumo duráveis ou de capital, privilegia setores que operam com uma relação produto-capital inferior à média da economia, fortalecendo a tendência à estagnação (COUTINHO, 1980, p. 143).

142

Conforme Tavares e Serra (1974) observam, os salários são estáveis nas economias latino-americanas devido à heterogeneidade estrutural, pois grande contingente populacional continua empregado em setores de baixa produtividade (baixa remuneração). Nos argumentos de Furtado percebe-se que a dinâmica do processo de substituição de importações, ao invés de reduzir, alavanca essa heterogeneidade estrutural, que se agrava à medida que não apenas o setor de bens de capital de mecaniza, mas também o setor agrícola, reduzindo ainda mais a sua capacidade de absorção de mão-de-obra. O resultado inevitável seria a estagnação.

A queda na taxa de crescimento seria estimulada pelo declínio da relação produto-capital “tecnológica”, inerente ao setor de bens de consumo duráveis e equipamentos (em condições de mercado restrito), e também pela perda de dinamismo da agricultura moderna, que reduz sua capacidade de absorção de renda (COUTINHO, 2015, p. 464).

Para os objetivos deste trabalho é explicito que Furtado desenvolve os seus argumentos a partir da concepção do um regime de crescimento wage-led. O processo de industrialização ao adotar técnicas de capital intensiva reduzia a demanda por trabalhadores e consequentemente reduzia a massa salarial da economia. Isso, por sua vez, significava redução do consumo total da economia (bens de consumo não duráveis e duráveis). Conforme Coutinho (2015) observa, a concentração de renda é um dos argumentos centrais da tese estagnacionista de Furtado. A redução do mercado de consumo fazia com que os bens de capital necessitassem ter preços elevados, caso contrário não seriam produzidos. Todos esses fatores atuavam para que houvesse a tendência à redução da relação produto-capital.

Nos argumentos de Furtado percebe-se a semelhança com o modelo multissetorial síntese Kalecki-Pasinetti exposto no capítulo anterior104. Furtado reconhece de forma semelhante ao modelo que a continuidade do crescimento seria dada pela acumulação de capital, no caso os bens de consumo duráveis. No entanto, dadas às características institucionais dos países latino-americanos, a absorção destes se realizava com redução da massa de trabalhadores e, consequentemente, redução do wage share, o que por fim reduziria a consumo dos bens finais. Ou seja, no argumento de Furtado evidencia-se uma desproporção entre a demanda por bens de consumo e a produção de bens de capital decorrente da redução da massa de salários.

Importante frisar que a tendência à estagnação para Furtando era inerente ao processo de industrialização dos países latino-americanos, pois como se destacou estes adotavam técnicas para um marco social e institucional inadequado. Segundo Furtado (1968), a alteração desse quadro envolvia modificar esse marco institucional em três direções: a) evitar

104

143

tecnologias que provoquem concentração de renda; b) ampliar as dimensões potenciais e atuais do mercado por meio da integração econômica regional; c) orientar o progresso tecnológico às necessidades da economia. Nestas direções sugeridas por Furtado, novamente percebe-se a concepção de um regime de crescimento wage-led, pois o fundamental seria ampliar o mercado de consumo.