Desde o jongo cantado pelos escravos, passando pelo samba, choro e axé music a música brasileira está intrinsecamente ligada à cultura negra. Elo importante que, apesar de não marcar uma união, explicita uma comunalidade entre a cultura afro-brasileira e a totalidade do Atlântico Negro. O rap e o hip hop são exemplos contemporâneos desta relação entre identidade negra e musicalidade.
O rap de uma forma geral, e o rap brasileiro de maneira especial frente ao
rap internacional, podem refletir o pensamento de Gilroy (2001) citado anteriormente
sobre o compromisso da música negra com o ideal de futuro melhor. Dentro da comunidade hip hop, o rap é considerado como um veículo de informação da população da periferia. Embora os temas abordados pelos rappers não tenham necessariamente
17O gangsta rap seria a voz contemporânea de celebração de uma “cultura de estupro” discute
Armstrong (2001), através de autores como bell hooks. Armstrong cita um episódio em que o National
Political Congress of Black Women organizou um protesto em frente a um estabelecimento que vendia
uma mensagem otimista, no centro de suas preocupações está a luta por uma sociedade mais justa.
O hip hop surgiu no Brasil no começo da década de 1980 através do break
dancing com os b-boys, como ficaram conhecidos os dançarinos de rua. Não houve um
local exato do surgimento do hip hop no Brasil, mas foi em São Paulo que esta cultura mais se desenvolveu, um dos canais responsáveis pela popularização do rap na capital paulista foram os bailes Black.
Na década seguinte o rap começou a tomar espaço nas rádios brasileiras. Apesar do rap feito no Brasil não ter um status de mainstream como o rap norte americano, foi durante os anos 90 que se firmaram alguns dos principais artistas brasileiros do gênero como Thaíde, DJ Hum, Racionais MCs, Pavilhão 9, Planet Hemp e Gabriel, O Pensador.
O rap e o hip hop foram incorporados no Brasil de maneira semelhante ao que aconteceu com o funk. A origem do funk carioca também são os bailes Black da periferia, onde nos anos 70 a soul music e o funk americano (que tem um teor bastante diferente do brasileiro) faziam sucesso, a partir daí os MCs e DJs do funk começaram a introduzir suas próprias letras por cima do som importado.
As semelhanças entre os dois estilos não estão apenas na origem norte americana e no surgimento no Brasil através das periferias, as duas culturas trazem consigo o estigma da violência. Herschmann destaca como as duas culturas são colocadas como “perigosas” aos olhos do Estado:
O funk é considerado perigoso por produzir uma conduta inconsequente que glorifica a delinquência, e o hip hop é considerado perigoso por sua postura radical e hiperpolitizada, por reproduzir um discurso que incita o racismo, intolerância e revolta violenta das minorias(HERSCHMANN, 2000, p.92).
Durante muito tempo este “medo” foi fomentado pela mídia que comparava o hip hop brasileiro ao gangsterismo pelo qual ficou marcado o hip hop norte americano, ainda que esta não seja uma faceta relevante do rap brasileiro, o funk ficou marcado no início da década de 90 por um suposto envolvimento com a criminalidade e o “arrastão” ocorrido nas praias cariocas em outubro de 1992 (YÚDICE, 2004).
Apesar destas semelhanças, as culturas hip hop e funk tem diferenças fundamentais. A principal está no comprometimento social, o rap brasileiro apesar de não ser ligado diretamente ao movimento negro, nem a movimentos políticos não está completamente separado dele. No rap brasileiro ainda predomina muito a defesa dos direitos das minorias, o rap é visto como “porta-voz da verdade social”. De acordo com Herschmann (2000), o “movimento” hip hop propõe, em determinados grupos, um engajamento e um código de postura rígido, se mostrando contra drogas, bebidas e a livre sexualidade.
Dentro do hip hop é comum que os funkeiros sejam considerados alienados. Suas músicas trazem uma comicidade ausente no rap e com frequência tem um teor altamente sexualizado. Neste sentido pensamos ser possível fazer um paralelo entre o funk produzido no Brasil e o gangsta’ rap. Apesar de terem origens diferentes – o funk brasileiro veio da soul music e do funk americano e o gangsta’ rap é um subgênero do rap nos EUA – os dois estilos tem temáticas semelhantes. Como os
rappers brasileiros rejeitaram o “gangsterismo”, o escape para esta temática de
hipersexualização e a exaltação da violência na música nacional se deu no funk que aceita de forma mais natural divisões e diferentes temas.
No Brasil, como nos EUA, o espaço para a mulher no rap é limitado. A não existência de uma hipersexualização não facilita o caminho das rappers mulheres, de fato existe mais espaço para as artistas mulheres no funk do que no rap. Embora isso não seja admitido, há um machismo velado no universo hip hop. Matsunaga (2006) mostra como este machismo pode ser relativizado pelos rappers homens, separando as mulheres em dois grandes grupos, as “vadias” (“bitches”) e as companheiras, aliadas.
Com o crescimento do pensamento feminista entre algumas mulheres do hip hop, estas lutam para marcar seu território, mas encontram dificuldades uma vez que o “movimento” hip hop é estruturado a partir de uma ordem sexista e patriarcal (MATSUNAGA, 2006).
Tentando evitar o estigma negativo, ou seja, para não serem classificadas como “vadias”, muitas mulheres no rap assumem um estilo de vestimenta similar ao masculino, evitando se remeter de qualquer forma ao erotismo (HERSCHMANN, 2000). A aparência é um fator importante no hip hop, pois é uma fonte de identificação. No rap brasileiro, existiu uma forte contra-corrente “Enquanto outros estilos e a mídia despem as mulheres, o Hip Hop veste. As mulheres do rap escondem o corpo e mostram sua competência através da voz.” (LIMA, 2005, p. 97). Existem rappers mulheres que optam por trajar-se de forma mais feminina, mas precisam assumir uma postura séria para serem respeitadas no meio.
Para Novaes (2002) um dos motivos do rap estar mais relacionado ao universo masculino do que ao feminino está no espaço físico que é destinado a cultura
hip hop, em sua relação como sendo uma “cultura da rua”. A rua, devido ao perigo que
pode representar às mulheres, seria espaço dos homens, o mundo da mulher seria outro. As mulheres que conquistam esse espaço dentro do hip hop são merecidamente consideradas por todos no “movimento” como guerreiras.
O rap feminino encontra obstáculos de diversas formas, tanto pela conquista da liberdade para entrar no hip hop – Lima (2005) coloca que muitas mulheres encontram resistência das famílias ao entrarem no rap – como na conquista de espaço dentro da cultura que é armada de forma patriarcal e ainda observa com desconfiança os valores femininos.