Os seqüestradores chamam Rufino Mascarenhas, o embaixador brasileiro, de “tolo”, homens “que não produzem nada (...) e que no entanto acumulam no oco do crânio um mundo espantoso de conhecimentos” (CALLADO, 1976: 59).
Um dos seqüestradores disfarçados descreve a residência de Rufino como
uma casa em que a gente pensa, quando entra, que pegou, distraído, um desvio de retorno no tempo e caiu de quatro no século passado. Palavra que me senti quase enjoado, enjoado mesmo, vontade de vomitar, no meio de tantos aparadores e cantoeiras vergando ao peso de castiçal, caixa, cofre, sopeira de prata, e de tantas paredes com retratos de família pendurados entre pratos, uns barbados nojentos, uns velhos caquéticos, uma senhoras tristes, retardadas da cuca. Me deu a impressão de dinheiro
roubado há muito tempo, parado, meio podre55 (CALLADO, 1976: 34).
A casa de Rufino é toda ela uma referência ao século XIX, um “desvio de retorno no tempo” que, no entanto, aponta para muito daquilo que constituí o presente das personagens. Os objetos vistos pelo combatente, que se referem à riqueza e à tradição familiar, aparecem ao militante como “dinheiro roubado há muito tempo, parado, podre”. O interior da casa de Rufino é a imagem de um roubo centenário, de uma riqueza imobilizada, estanque, que se auto-justifica de modo ornamental e aristocrático.
Esse “roubo centenário” é, evidentemente, uma das justificativas para o seqüestro que planejam, em meio às cartas que os guerrilheiros trocam entre si. Durante um jantar, o próprio Rufino Mascarenhas, discorrendo sobre a “vocação brasileira para o seqüestro”, expressão que vamos comentar mais adiante, começa a falar sobre o plano de sequestro – mal sucedido – da família real pelo militar Pompílio de Albuquerque, em 1781. Um dos guerrilheiros disfarçados relata em carta a seus companheiros o discurso do diplomata:
54 Ver LEMOS, Renato. (ORG.) Uma história do Brasil através da caricatura. Rio de Janeiro: Editora
Bom Texto, 2006.
A vocação brasileira para o seqüestro56, eis o tema e os termos em que se manifestou
ele depois do jantar (...). Foi nos tempos da Comuna de Paris e da Primeira Internacional, disse Rufino feito soldado inimigo cantando canção da gente, e a idéia era a dinamite transformando em lívidos incêndios o gás da iluminação para que o Rio se enrolasse em chorões e crepes de viúva. Como os noturnos ladrões do apóstolo Paulo os bandidos republicanos colheriam então no baile seu ramo de flores régias: o Imperador, camélia heráldica de barbas brancas, Isabel, broto de Redentora, o Conde Dado e os ministros, o Conde Gobina e os embaixadores, coroas, escudos, crachás, jarreteiras luzindo baços nas trevas. A evocação do plano do Capitão Pompílio me enroscou no pescoço uma jararaca de júbilo (CALLADO, 1976: 59).
Essa “vocação brasileira para o seqüestro” talvez seja a mediação mais interessante para pensar em que medida o livro, ao tratar de um seqüestro, dá conta das contradições políticas não apenas do momento, mas da história brasileira, colocada em perspectiva. A frase de Rufino, de que existe uma “vocação brasileira para o seqüestro” é curiosa e coloca a tentação de nos perguntarmos qual seu fundo de verdade. O ato do seqüestro dispõe da liberdade de outra pessoa, e transforma a pessoa seqüestrada em uma moeda de troca. Enquanto recurso extremo não apenas da guerrilha urbana à época da Ditadura, mas também hoje, como recurso usual do crime em todas as cidades brasileiras, o seqüestro reverte para a sociedade a sua própria lógica, na qual impera o valor de troca e a especulação financeira. Em outras palavras, em uma sociedade de trocas injustas, a lógica do seqüestro reverte para a própria sociedade sua perversão. Se no mercado os homens são objetos, no seqüestro também.
Escrito ao final do século XX, o seguinte trecho de Eduardo Galeano parece exprimir essa mesma idéia:
Segundo o dicionário, seqüestrar significa “reter indevidamente uma pessoa para exigir dinheiro pelo seu resgate”. O delito é duramente castigado em todos os códigos penais, mas a ninguém ocorreria mandar prender o grande capital financeiro, que converte em reféns muitos países do mundo e, com alegre impunidade, cobra-lhes, dia após dia, fabulosos resgates (GALEANO, 1999: 155).
Transportada para a forma literária, essa lógica do seqüestro ganha em Reflexos do Baile um aspecto fantástico. A narrativa do seqüestro, enquanto negativo de uma sociedade baseada em trocas injustas, escancara seu absurdo. Esse absurdo incluí os dois lados, tanto os embaixadores quanto os guerrilheiros: isso fica claro quando Rufino Mascarenhas é seqüestrado junto com sua empregada. Ou seja, o seqüestro do
embaixador acompanha o seqüestro de uma personagem do povo, ponto nevrálgico e central do romance. Trata-se de um momento (isolado, mas por isso mesmo importante) em que aparecerá uma voz das camadas populares em primeira pessoa. Mais especificamente, no depoimento que faz a empregada de Rufino sobre o que aconteceu durante o seqüestro, transcrito pela polícia, e que ocupa várias páginas, já no final da obra. Enquanto local único onde as camadas populares ganham voz no livro57, a simbologia do que relata recebe grande significação.
Em determinado ponto de seu depoimento, a empregada comenta que, durante o seqüestro, um dos guerrilheiros lhe diz que “podia ir para meu quarto mas ele trancou a porta pelo lado de fora e só me abriu no dia seguinte para eu fazer café para todos” (CALLADO, 1976: 108). E assim termina seu depoimento, significativamente: a sua função enquanto empregada e subalterna não se altera durante o seqüestro do grupo revolucionário, permanece a mesma. Esse tipo de verdade silenciosa, onde se esconde uma fina ironia, é o que encontramos nas melhores páginas de Machado, e é aqui que talvez Callado tenha encontrado sua melhor expressão ficcional.
Do mesmo modo que Machado não é condescendente nem com Monarquistas nem com Republicanos, Antonio Houaiss falaria à propósito da “tão seca e tão dolorosa ‘imparcialidade’ ”58 presente em Reflexos do Baile, ainda mais evidente se comparado às narrativas testemunhais de ex-guerrilheiros como Sebastião Tapajós (1978) ou Fernando Gabeira (1979). Callado, assim como Machado, buscou essa “dolorosa imparcialidade” que Houaiss definiu tão bem, mas ela não redunda na diplomática neutralidade e indiferença dos Aires e Rufinos: trata-se de uma imparcialidade crítica, onde a História brasileira fala mais alto, por meio de suas recorrências, ressonâncias, “vocações” e reflexos, figurados literariamente em uma das inequívocas obras-primas da literatura brasileira.
57David Arrigucci Jr., em 1979, observou que o “povo” está ausente da representação de Reflexos do Baile, algo que não pode ser inferido se pensarmos no longo depoimento da empregada de Rufino. Outro crítico, entretanto, observou que “nesta ausência há um significado” (GONZAGA, 1981: 147). De fato, é possível ler na ausência de uma voz para as camadas populares em Reflexos do Baile um significado similar ao que recebe a ausência de uma voz dos escravos ou das camadas mais desfavorecidas na ficção de Machado57. A própria ausência diz muito na representação literária, é um dado que precisa ser lido
como parte das reduções estruturais (CANDIDO, 2006) que efetivam as obras, a partir das condições sociais e históricas de seu tempo. O povo recebe sua apresentação no livro de Callado apenas na visão distorcida de quem os vê, ou seja, na visão dos embaixadores, dos guerrilheiros e da polícia, e é sob esse prisma vindo dos dominantes que sua ausência precisa ser lida, assim como em parte da obra de Machado.