3.2 Løgstrups nesteetikk .1 Tillit, makt og fordring
3.2.7 Livsytring som idé og den kosmiske likhet
430 Gotteri, 2006: 262. 431 Araújo, 2009: 295. 432 Henriques, 2002: 17. 433 Sardica, 2009: 85.
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Mas façamos também uma leitura sobre os problemas do lado espanhol. Espanha foi primeiro um adversário dos aliados anglo-portugueses. Conjuntamente com a França invadiu e ocupou Portugal durante a primeira invasão francesa (1807/1808). Mas, a partir de maio de 1808, grande parte da população espanhola passou a lutar contra a França, os contingentes de ocupação espanhola em Portugal voltaram para o seu país e, mais tarde, a Espanha juntar-se-ia aos aliados britânicos e portugueses. Este processo não foi imediato, não foi igual em toda e Espanha, nem foi, de forma alguma, consensual em todos os setores da sociedade espanhola.
Além do que já descrevemos nos capítulos anteriores sobre os principais problemas de coordenação entre os vários governos aliados e os vários corpos de tropas que deveriam colaborar temos, ainda, que levantar um conjunto de outras questões. A ingerência de Napoleão nos assuntos internos de Espanha, episódio conhecido como abdicação de Bayona434, que provocou uma enorme viragem em Espanha.
Como escreveu o historiador espanhol Miguel Ângel Mas, “esta descarada ingerência foi um grande erro” porque, se por um lado, a família real espanhola “era totalmente servil a Napoleão”, por outro, a população em geral tinha pouca consideração sobre a mesma: “tanto o Rei como o seu herdeiro eram uns absolutos incompetentes”. A vontade geral espanhola afirmou-se desde o início: “o povo espanhol decidiu que preferia ter um Rei inútil mas seu a ter outro mais capacitado mas imposto por um poder estrangeiro”435
.
Até porque, ao contrário de Portugal, tinha os seus interesses mais voltados para a Europa: “Os governantes políticos da metrópole continuavam essencialmente voltados para o envolvimento da Espanha na Europa (…) o Reino de Espanha continuava bastante envolvido em interesses familiares dos Bourbon em Itália e nas políticas religiosas e territoriais europeias”436. Esta era uma atitude maioritária mas não
universal. Nem todos os espanhóis tiveram esta opinião e a diferença política vai refletir-se na resposta a Napoleão em Espanha. Deste modo, uma guerra de libertação, ou como é conhecida em Espanha, uma guerra de Independência, será acompanhada, também, por uma espécie de guerra civil, onde se confrontarão as várias sensibilidades da sociedade espanhola porque, como nos recorda Miguel Mas, “não foi somente uma guerra patriótica frente aos exércitos napoleónicos mas também uma guerra civil, pois uma parte do país esteve do lado do intruso Rei José”437.
434
Entre outras descrições sobre este episódio aconselha-se López, 1981 e Mas, 2008. 435
Mas, 2008: 473. 436
Avillez, 2008: 82.
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Identificamos assim no lado espanhol uma divisão política que se irá refletir no terreno de variadíssimas formas.
Em primeiro lugar na forma como foram recebidos os britânicos em Espanha. Se em Portugal houve problemas, desentendimentos e alguma contestação social, em Espanha a oposição foi manifestamente maior: “Os ingleses, com uma ideia ingénua sobre a Espanha, nunca entenderam que a guerra que se sofre em casa e provoca a ruina das finanças, a morte dos pais, irmãos e esposas, apesar de levar a atos desesperados, não é tão heroica como a que se faz em terras estrangeiras”438. Na
verdade, as queixas dos britânicos pela forma como são recebidos em Espanha vão ser muitas e permanentes, o que causará importantes alterações nas estratégias pensadas inicialmente439.
Em segundo lugar, havia uma parte considerável da população espanhola440 que apoiava o Rei José e, inclusivamente, participava nas campanhas militares441: “a batalha de Talavera obrigou os franceses a evacuar Salamanca a 1 de agosto de 1809. Atrás deles marchavam os colaboradores do regime josefino, os afrancesados (…) a partir deste momento a guerra tomou um rumo incerto”442. No entanto, apesar do importante número de simpatizantes espanhóis da Revolução Francesa, designados comumente de afrancesados, mais numerosos e organizados que em Portugal, “Napoleão não conseguirá implementar em Espanha as instituições governativas, jurídicas, culturais e sociais, que haviam tido um certo sucesso em Itália, Holanda, Alemanha, Renânia, Suíça”443.
O que nos leva ao terceiro, e talvez maior problema, é que Wellington não confiava nas forças, nos generais e nos políticos espanhóis. Estes problemas ocorreram desde os primeiros momentos de colaboração. No campo operacional Wellington tinha tido problemas com Cuesta, o general espanhol comandante do exército da Extremadura,
438
Mas, 2008: 479. 439
Moore, 1809; Esdaile, 2009b; Roberts, 2002. 440
Em Portugal também houve os denominados “afrancesados”, que colaboraram, e alguns oficiais portugueses que acompanharam os generais franceses na segunda e terceira invasões – por exemplo o Marquês de Alorna.
441
O que levava a que também do lado português houvesse fortes desconfianças sobre a vontade de colaboração das forças espanholas: “quanto ao Marquês de la Romana, que eu desconfio há muito tempo (…), que esta entrada dos espanhóis (do General Blake) seja alguma traição combinada com os franceses (…), esses homens são uns traidores, que depois de atraiçoarem o seu reino querem atraiçoar o nosso”, carta do Bispo do Porto para Bernardim Freire de Andrade (sem data), PT AHM-DIV-1-14-072-01_231-232.
442
Mas, 2008: 484. 443
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durante a Batalha de Talavera, e “negou-se a cooperar com alguma operação a desenvolver no interior de Espanha até que se definisse claramente a autoridade sobre os vários exércitos espanhóis e uma maior integração nos planos logísticos”. Wellington não entendia quem efetivamente tinha a autoridade sobre os vários exércitos espanhóis e, na realidade, esta autoridade não existia sequer ao nível político: “A Junta Central, desesperada por uma vitória para poder consolidar a sua autoridade”444.
Assim, encontraremos inúmeros exemplos desta desconfiança de Wellington relativamente a Espanha ao longo de toda a Guerra Peninsular. Após a Batalha de Albuera em 16 de maio de 1811, que foi terrível no número de baixas, em especial para os britânicos mas também para os espanhóis e portugueses, Wellington escreveu ao seu irmão a 22 de maio, reconhecendo o valor dos espanhóis em combate, mas continuando a afirmar que não sabia o que fazer com eles em batalha. Os espanhóis, na sua opinião, não estavam seriamente a pensar em disciplinar as suas tropas. Fez também uma comparação direta com a eficácia das forças portuguesas escrevendo que com os portugueses “podemos fazer o que bem entendermos porque estes manobram debaixo de fogo da mesma forma que as forças britânicas” e termina esta carta escrevendo que os “espanhóis não sabem fazer nada a não ser estar parados e nós podemos considerar-nos felizardos se eles não fugirem”445.
A 29 de agosto de 1811, Wellington reforça os seus argumentos dizendo que os espanhóis preferem render-se aos franceses a aceitarem o comando britânico das operações446 e a 3 de maio de 1812 a sua opinião não tinha mudado quando afirma que ele, voluntariamente, nunca comandará tropas que não sabem e não querem obedecer e, como tal, “não tenho qualquer desejo de comandar tais forças”447.
Wellington não se limita a considerações de ordem militar. Escreve ao seu irmão Henry, a 14 de julho de 1811, sobre a política britânica e faz recomendações sobre o tipo de medidas que a Grã-Bretanha deveria adotar face à desagregação do Império espanhol. O General recomenda que os britânicos, prudentemente, não se envolvam com nenhuma das partes e, acima de tudo, não desviem forças da Península Ibérica448.
444
Mas, 2008: 485. 445
Carta de Wellington ao seu irmão Henry datada de 22 de maio de 1811, Gurwood, 1851: 483.
446
Gurwood, 1851: 519.
447 “I will never voluntarily command troops who cannot, and will not obey, and therefore I am not desirous of having anything to say to the command of the Spanish troops”, carta de Wellington a seu irmão Henry escrita de Fuente Guinaldo, Gurwwod, 1851: 590.
448
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No campo interno Wellington é muitas vezes pressionado para tomar posições políticas sobre assuntos portugueses ou espanhóis449 mas a sua resposta, embora política, é sempre a de se manter afastado das questões internas, neste caso, sobre o futuro Governo de Espanha.
Os problemas da coordenação são bastante minorados quando, em 1812, a Junta espanhola aceita o comando unificado de Wellington sobre os vários exércitos a operar em Espanha, nomeadamente o anglo-português e os vários corpos espanhóis. Finalmente, a 1 de Janeiro de 1813, em Cádis450, após ter sido nomeado pela Junta Governativa de Espanha, Wellington dirige-se ao “seu” exército espanhol na qualidade de Capitão General e Comandante-chefe avisando que não tolerará qualquer quebra de disciplina ou de autoridade.
O carácter holístico da sua forma de comandar, incluindo as questões da governação, é rapidamente transposto para a realidade espanhola. Depois de reconhecida a sua autoridade em Espanha, Wellington, a 29 de Janeiro de 1813451, não perde tempo a dar conselhos sobre a governação do país. Em carta enviada a Don Andres Angel de la Veja, um dos mais influentes deputados da Corte de Cádis, embora reconhecendo que não se deve intrometer em assuntos internos e modelos de governação espanhóis, sugere o restabelecimento da Regência, faz recomendações para assuntos de justiça, finanças e questões ultramarinas.
É interessante notar que, tal como fez várias vezes para a Regência portuguesa, também o faz para a Regência espanhola, e para garantir que as suas estratégias são cumpridas acompanha muitas das suas recomendações com ameaças constantes de abandonar o comando do exército, de retirar as forças britânicas ou de sair da Península.