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Cotidianamente, ao se falar das relações entre educação e Lazer, percebemos que a ênfase ou a quase exclusiva perspectiva de relação existente é a que associa o Lazer como possibilidade de educação. Nesta perspectiva quando ao Lazer associasse mais que as funções de descanso e diversão, este com suas manifestações que o compõem, se constituem em um privilegiado meio educativo, de desenvolvimento individual e social. É certo que os objetivos desta educação pelo Lazer são os mais variados possíveis.

Podemos associar a esta educação pelo Lazer a duas formas, uma quando esta educação é direcionada ou mediada por outra pessoa, um

educação orientada para a preparação para o trabalho as manifestações lúdicas, que trazem em si o prazer, a diversão, a participação, a criação e a livre expressão são desconsideradas como objeto de estudo. Nesta perspectiva, a escola restringe sua função de educação global a uma educação voltada ao mercado de trabalho, de produção e consumo de bens.

De fato, por toda parte, é o instrumentalismo estreito que reina, o discurso da adaptação e da utilidade momentânea, enquanto que as questões fundamentais, as que dizem respeito à justificação cultural da escola, são sufocadas ou ignoradas (FORQUIN, 1993, p.10).

Quando há atividades/manifestações do campo do Lazer, estas são encaradas como ferramentas para se preparar a criança para a vida adulta. Estas manifestações são meios de desenvolver certas atitudes relacionadas à sociedade utilitarista e pragmatista onde estas crianças serão adultas. Não se prepara para esta fase da vida e para se compreender as manifestações do Lazer. E além desta perspectiva estas manifestações também são encaradas pedagogicamente como

tempo livre. Ao compreender o Lazer principalmente pelos aspectos tempo e atitude fundada no prazer, a professora desconsidera que neste tempo existem ações humanas constituindo certas manifestações culturais em determinado espaço e contexto social. O conjunto dos aspectos tempo, espaço-lugar, manifestações culturais e atitudes, configuram um Lazer como fenômeno cultural, como produção humana expressando, na interação entre os sujeitos, diversos significados. Compreender o Lazer como cultura permite fazermos a ele uma análise crítica buscando na trama social conhecer como tal fenômeno, em seus aspectos que o compõem, se constitui ou vem se constituindo historicamente e como podemos nele intervir conscientemente. Desta forma extrapolamos as compreensões estritamente subjetivas do Lazer e podemos incluí-lo na escola como objeto de um estudo crítico.

Ao Lazer a professora diz fazer referências somente ao trabalhar com seus alunos o assunto saúde, na quarta série, estimulando-os a optarem por atividades

primeiramente como conteúdos da Educação Física desatrelando a disciplina de sua relação dialógica com a realidade e de sua função crítica e cultural nesta esfera da vida. É identificado

preparação para a vida adulta, entendida como sinônimo de trabalho vem criando questionamentos referentes à legitimidade desta educação escolar.

Esse excesso de utilitarismo está nos levando a uma grande crise dos valores mais importantes para a própria sobrevivência, ou ao menos para a felicidade. Por outro lado, uma educação que se queira para a vida terá que estar muito atenta ao que é a vida. E, hoje, a vida não é mais só trabalho. Discutimos muito a importância que tem, em nossa existência, o constante aumento do tempo livre, o que nos permite afirmar que, hoje, a vida é trabalho, mas também é tempo livre. Assim, uma educação que mantenha o melhor do realismo deverá preparar os educandos também para o tempo livre (PUIG; TRILLA, 2004, p. 124).

Educar para o Lazer converte este Lazer em um meio de educação. Esta educação crítica para o Lazer torna o próprio Lazer crítico. E em uma de suas possibilidades de conscientização

A educação para o lazer pode ser entendida, também, como um instrumento de defesa contra a homogeneização e internacionalização dos conteúdos veiculados pelos meios de comunicação de massa, atenuando seus efeitos, através do desenvolvimento do espírito crítico. Além do mais, a ação conscientizadora da prática educativa, inculcando a idéia e fornecendo meios para que as pessoas vivenciem um lazer criativo e gratificante, torna possível o desenvolvimento de atividades até com um mínimo de recursos, ou contribui para que os recursos necessários sejam reivindicados, pelos grupos interessados, junto ao poder público (MARCELLINO, 2002, p. 51).

As ações educativas com vistas ao Lazer devem possibilitar os alunos se compreenderem como sujeitos ativos, integrantes da cultura e co-produtores dos sistemas de significações que estão presentes nas manifestações que compõem o Lazer e, permitir que o Lazer seja encarado de forma consciente, crítica, criativa e transformadora da realidade. Assim, se deve considerar

[...] as possibilidades do lazer, como canal possível de atuação no plano cultural, de modo integrado com a escola, no sentido de contribuir para a elevação do senso comum, numa perspectiva de transformação da realidade social, sempre em conexão com outras esferas de atuação política. Uma pedagogia que considere, ao mesmo tempo, a necessidade de trabalhar para a mudança do futuro, através da ação no presente,e a necessidade de vivenciar esse processo de mudança, sem abrir mão do prazer restrito de que se dispõe, mas, pelo contrário, que essa vivência seja, em si mesma, prazerosa. (MARCELLINO, 1995a, p. 152)

O Lazer é produção cultural, e como cultura pode constituir-se em espaço social de compreensão e estruturação de significados e a educação escolar é possibilidade de ressignificarmos esta realidade. Considerando as relações de poder que se fazem presentes no Lazer e na seleção e organização dos conteúdos escolares, as aulas de Educação Física, ao serem críticas podem se tornar possibilidade de desnaturalização dos fatos sociais, tornando as aulas e conseqüentemente o Lazer em espaço de questionamento dos valores da sociedade visando as modificações adequadas. A Educação Física escolar como prática de (re)significação faz do Lazer sua ponte de ligação com a sociedade.