A Idade Média foi essencial para o desenvolvimento da arquitetura na Europa. A religião torna-se o motivo para criações como as igrejas, os conventos e os majestosos vitrais a mostrar que o pensamento da altura considerava Deus como centro do universo. Assim, estas grandes construções serviam de lembrete ao apelar à pequenez do ser-humano face ao seu Deus sendo o motivo da exploração da arquitetura gótica e neogótica essencial neste ponto para a compreensão dos ambientes virtuais criados para os videojogos Amnesia.
Em pleno século XVIII, o Iluminismo atinge o seu auge e a ideia de que a religião se mostrava como uma prisão para a mente humana, devido às superstições a que se encontrava vinculada, atingia também o seu expoente máximo.
Por seu turno, a arquitetura romântica histórica começa lentamente a ser teorizada ainda no século XVIII, principalmente por estudiosos alemães22 e por
alguns defensores do renascimento gótico, pelo que surge como uma reação a tais ideias pelo facto de recorrer a uma originalidade da arte. Poderá dividir-se em três fases que serão seguidamente estudadas: pré-romântica, neoclássica e neogótica. A fase pré-romântica, com a contribuição da literatura inglesa de horror e do movimento literário romântico alemão Sturm and Drang23. A fase
neoclássica, que coincide com a Revolução Francesa e respetivo império de Napoleão e que impôs novas formas de pensar a arte. Como Argan (2006) afirma:
“(…) o Neoclassicismo histórico é apenas uma fase do processo de formação da concepção romântica: aquela segundo a qual a arte não nasce da natureza, mas da própria arte, e não somente implica um pensamento da arte, mas é um pensar por imagens
22 August Wilhelm von Schlegel (1767-1845), Friedrich Schlegel (1772-1829), Ludwig
Tieck (1773-1853) e Wilhelm Heinrich Wackenroder (1773-1798).
não menos legítimo que o pensamento por puros conceitos” (p.23).
Foram também importantes as contestações da burguesia em relação às restaurações monárquicas e à limitação cultural. De facto, a arquitetura gótica torna-se uma arte burguesa ao exprimir o sentimento popular e ao retratar os costumes cristãos dos cidadãos. Por outro lado, a construção destas obras só seria possível graças à riqueza das cidades, ou seja, graças ao comércio. A arquitetura gótica é antes de mais nada cristã e a sua tendência para o alto manifesta claramente um desejo de transcendência (Argan, 2006, p.29). Na verdade, o verticalismo aplicado nestas obras remete para uma aproximação a Deus e existem vários pormenores como, por exemplo, os arcos ogivais que sustentam essa teoria (Fig. 2.3).
Figura 2.3 - Arcos ogivais presentes no Mosteiro da Batalha. Retirado de:
Já Hauser (1989) acrescenta:
“A arte das catedrais góticas é uma arte burguesa e urbana (…) no sentido em que os laicos foram tomando parte sempre crescente na edificação das grandes catedrais, enquanto que a influência artística do clero diminuía paralelamente” (p.129).
Em Portugal, o maior exemplo de construção gótica é o Mosteiro da Batalha. Como Pereira (1999) afirma: “O final do século XIV ficou também marcado pelo arranque de um dos maiores estaleiros góticos portugueses de todos os tempos: o do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ou da Batalha” (p.176). Foi profundamente estudado pelo britânico William Beckford24 e pelo
irlandês James Murphy25 que publicou a obra Plans, Elevations, Sections and Views of the the Church of Batalha entre 1792 e 1795. Não foram os únicos a
visitar o mosteiro já que, naquela altura, era habitual entre os aristocratas britânicos uma viagem europeia denominada Grand Tour com objetivos académicos. A título de curiosidade, a residência Strawberry Hill de Horace Walpole foi “encomendada” a um destes estudiosos góticos.
O interesse na reprodução fiel destas construções impôs um novo movimento ligado ao Romantismo: o Neogótico. Em Inglaterra, Augustus Welby Northmore Pugin26 defende a arte neogótica devido à sua identificação com a
estética e valores sociais da Idade Média. Como Hauser (1989) afirma: “O homem não procura já a natureza apenas pelas suas analogias com uma realidade sobrenatural, mas antes pelos traços da sua própria personalidade e reflexos dos seus próprios sentimentos” (p.171). Os ideais religiosos e a ânsia de pesquisa juntamente com o avanço do conhecimento científico do presente em que vivia, “(…) I fear that the presente general feeling for ancient styles is but the result of the fashion of the day” (Pugin, 1836 , p.32) inspiraram Pugin que começa por aplicar o estilo nas peças de mobiliário construídas para o Castelo de Windsor, uma das residências da família real britânica. Ajudou igualmente na construção do Palácio de Westminster, onde se situa o Parlamento do Reino Unido, em que desenhou a ornamentação exterior e interior. Posteriormente,
24 1760-1844
25 1760-1814
outros artistas com interesse pelo gótico e pelo romantismo como John Ruskin27
e William Morris28 atentaram nas ideias de Pugin e fundaram o movimento Arts and Crafts na segunda metade do século XIX. Defendiam alternativas à
produção em massa, com peças criativas de artesanato que procuravam saberes tradicionais, e apelavam à junção do artista e do artesão remetendo assim para o cargo profissional de designer, tal como conhecemos hoje. Por sua vez, podemos entender este movimento arquitetónico do século XIX como inspirador do movimento francês Art-Nouveau e à escola de design Bauhaus, fundada em 1919.
A arquitetura gótica e neogótica está bem presente no mundo atual e não passa despercebida. De facto, estas construções obrigam o espetador a movimentar-se para poder ter acesso a vários pontos de vista de cada vez para conseguir ver a construção na sua totalidade. Ao contrário do que acontecia antigamente, já não há calma nem passividade na contemplação da obra. Como Hauser (1989) acrescenta:
“A resolução das formas compactas e cúbicas e a emancipação da escultura da arquitectura são os primeiros passos que dá a arte gótica para a rotação das figuras, por meio da qual a arte clássica põe o espectador em movimento” (p.183).
É através do simbolismo de uma revolução religiosa assim como de uma mensagem filosófica aliada a uma mudança de mentalidade que a arte gótica mostra a sua importância ao transmitir pelas suas construções em pedra, todo o esforço e evolução dos valores estéticos, morais e sociais a que esta arte levou. Mais uma vez, como afirma Hauser (1989): “Com o gótico começa o lirismo da arte moderna, mas começa também o seu culto da virtuosidade” (p.185). Por fim, pode constatar-se que os videojogos de survival horror adaptaram características da arquitetura gótica, nomeadamente expressas na literatura gótica como, por exemplo, os castelos e mansões assombradas que são característicos do videojogo Amnesia, e cujo conceito é explorado no terceiro capítulo. Nas palavras de Taylor (2009):
27 1819-1900
“In Gothic literature, lost histories are often uncovered through the castle or haunted house in which the narrative takes place, with frequent remarks on the past inhabitants through decorations, paintings, and other elements” (p.51).