• No results found

Litteraturliste/Kildehenvisning

In document Ensomhet blant eldre. Rapport: (sider 10-23)

Da Rua Bento Albuquerque, no bairro Papicu, vê-se o Farol, com listras pretas e brancas, em lugar mais alto do Mucuripe, no Conjunto São Pedro. Ao ver o Farol, aqui do asfalto, lembro-me da Rua Primavera, onde cada casa tem sua história, que necessita ser considerada e levada a sério. As casas possuem aparência que agrada ou não, porém guardam vidas, emoções e histórias importantes. Elas situam e dizem onde vive cada um. A casa de Socorro, número 68 dessa rua, não tem jardim, nem sala de visita, dependência de empregada, nem quintal. As casas da Rua Primavera não têm modelo original, as de conjunto são desalinhadas, e o tamanho padrão das casas foi totalmente alterado pelas reformas empreendidas para comportar as famílias. A casa de Socorro, por exemplo, se construiu no que foi o jardim da casa da irmã, Maria. Na casa de Socorro moram 10 pessoas. Socorro e Maria são netas e filhas de pescador. Seus irmãos, Pinan e Antônio vivem da pesca. “Pinan vive da pesca de dormida. Ele fica até 15 dias no

mar e, quando volta, fica uma semana descansando”, explica Maria. “Já Antônio vai e volta no mesmo dia”, completa.

As conversas na casa de Socorro são regadas a café, sem solenidade nem xícaras de porcelana. A hospitalidade respira por entre as paredes. É bater à porta e entrar casa adentro. A hospitalidade dos moradores dessa área é plena. A calçada é sala de visita. Entre casa e rua, as normas de recepção se definem, como também ritos e regras sociais se firmam. Na calçada, as cadeiras nunca estão vazias. Ali se é recebido com sentimentos mais nobres. O cotidiano é feito de pequenas coisas modestas. Isso engrandece os moradores. Ocupar a calçada é participar de conversas e também acrescentar algo seu.

As ruas e calçadas do morro fervilham às cinco da tarde. Mulheres, vizinhas, amigos, parentes, contraparentes e aderentes ocupam-nas. Uma cadeira está sempre na iminência de sair da sala pra calçada e ser ocupada. Quem, na verdade, frequenta a calçada, faz-se amigo, reconhecido, familiar. Na calçada, compreende- se o movimento cotidiano da rua e do Conjunto São Pedro.

As crianças da Rua Primavera são as primeiras a saírem de casa para brincar na calçada. Qualquer coisa é objeto de diversão: corda, elástico, garrafa pet, objetos domésticos transformam-se e unem-se aos poucos brinquedos que possuem. É comum encontrar grupos de crianças do mesmo sexo, sentados no chão da calçada, brincando juntos. Quando a brincadeira é pular corda, ou de elástico, misturam-se idades, até jovens se envolvem nos jogos e brincadeiras. Adultos, mãe, tia ou irmão/irmã presenciam as brincadeiras. Aparentemente, parecem não se importar com jogos e brincadeiras. No entanto, basta pequena teima ou briga ou até discussão e eles fazem valer a autoridade, apaziguando ou finalizando a brincadeira. Embora considerado “coisa de menino”, não muito raro

eles discutem e chegam a tapas e murros, e, às vezes, as pequenas brigas são acompanhadas de latidos de cão que vê o dono apanhar ou bater, e, mesmo separados por alguém, sempre um deles pode sair ferido ou aos prantos.

Animais domésticos, principalmente cachorros, acompanham os donos na rua, ou pelo bairro, mas gostam mesmo de ficar pelas calçadas, com outros cães da rua, em matilha. Também brigam entre si, sobretudo se algo de comer é jogado. Ninguém se mete. Espera-se o desfecho e, por vezes, um dono comemora a vitória do fiel amigo: “Valeu, Pink Floydêêê!”.

Na calçada, tudo é explicitado sem pudor nem constrangimento. Dramas familiares, brigas de vizinhos, rixas entre irmãos são expostos e comentados. Todos se apropriam da vida do outro, no sentido de encontrar soluções para o que, às vezes, é insolúvel – como casos de amor, ciúme e ódio entre moradores, vizinhos e familiares.

Garotas exibem corpos em shorts e saia mínimos. O calor favorece o uso de vestuário tropical. E exageram no tamanho e nas cores das roupas. Também se reúnem em grupos na calçada. Além de conversas sobre namoros e festas, embelezam-se, pintam as unhas, enfeitam cabelos, maquiam-se e trazem os cosméticos em caixas de plásticos e umas pintam outras, num ritual de embelezamento compartilhado.

Os rapazes não se reúnem exatamente na rua onde moram. São vistos em calçadas, sentados no chão, fones no ouvido, escutando música e no celular, em dupla conversando, mas nunca em grupos, como as meninas. Os jovens da Rua Primavera também se encontram em grupos e amigos na escola, na academia, na praça, festas, no campo de futebol. Distintamente de mulheres e crianças, ocupam as ruas em outro tempo, tarde da noite, em calçadas vazias. A rua ganha outros sentidos. Atos legais se praticam, alguém distribui mercadorias viciantes. Os jovens

seguem trilhas urbanas do narcotráfico brasileiro. Compram, vendem, consomem e, por isso mesmo, se arriscam e entram por caminhos sem volta. Às vezes roubam e matam. Morrem, por vezes.

Características locais refletem modo de vida particular, em conexões com o mundo. Os moradores de periferia urbana se expõem a riscos, pois vivem à margem. Assim, observa-se a existências da abundância de prejuízos pela quantidade exacerbadas de direitos negados, de uma vida sociocultural experimentada sem plenitude, embora rica de significados e pulsante. Há de dizer- se que, com toda adversidade, limites e carências, existem modos de resistir às determinações da condição de pobreza, expressas nas festas; formas de ocupação do espaço; na socialização de conquistas e derrotas, dos dramas e problemas pessoais. Há alegria autêntica que faz vencer limites cotidianos.

In document Ensomhet blant eldre. Rapport: (sider 10-23)