Os telejornais operam com dois tipos de espaços: os internos, que são os espaços de estúdio, e os externos, que são próprios das ações do mundo, dos acontecimentos; conectados pelos dispositivos tecnológicos. Há uma tradição de cuidado pelo cenário, pela escolha dos apresentadores ou âncoras, pela manutenção de posturas e comportamentos. Normalmente, os cenários dos telejornais colocam os apresentadores em um platô – em um estado mais alto, sentados em uma bancada, tendo como fundo espécies de mapas de globo terrestre, ou telas e telões. Essa posição de superioridade já assinala de antemão quem, nesse contexto, detém a informação e, consequentemente, o poder. O fundo do cenário aponta para o domínio que a emissora e o programa detêm sobre a informação de acontecimentos em nível planetário. Mais ainda, completando esse cenário, muitas vezes, ao redor desse platô central, mas em plano mais abaixo, há uma série de mesas de trabalho com pessoas, todas em movimento, operando computadores, algumas até mesmo caminhando apressadamente de um lado para o outro. “Essa complementação do cenário com a redação em plano mais baixo garante os efeitos de atualidade do noticiário” (DUARTE & CURVELLO, 2009, p. 70).
Para Cardoso (2008) o cenário no telejornalismo segue uma espécie de padronização do gênero e, se comparado com outros gêneros televisuais, é o que tem no cenário a menor variação e a significação mais direta. Na opinião do autor, a busca da perfeição estética fez o Jornal Nacional ser, na televisão brasileira, um dos programas onde mais se exploram as possibilidades gráficas no telejornalismo.
Passou das escalas em cinzas, no período da TV em preto e branco, com o antigo logotipo impresso em uma forma bidimensional, aos logotipos
“voadores”, em 1989, de Hans Donner, chegando, nos dias de hoje ao JN tridimensional, que “flutua” ao lado dos apresentadores, em composição com grafismos e imagens que invadem a bancada onde estão, tudo isso à frente da redação. Esta se encontra em um nível abaixo, cercada por aparelhos de televisão [...] (CARDOSO, 2008, p. 58).
Em uma espécie de cronologia imagética podemos observar as mudanças pelas quais o cenário do Jornal Nacional passou ao longo do tempo, principalmente depois da implantação da televisão à cores e dos avanços tecnológicos que possibilitaram inserções e modificações antes inviáveis. Em 1972, é a primeira vez que aparece o mapa do mundo no cenário do programa. Em 1979 a mudança é marcada pela ampliação do cenário, acompanhada de maior movimentação do apresentador e das câmeras. É também a primeira vez que monitores de TV fazem parte do cenário. Em 1985 as telas ampliam e passam a exibir imagens das reportagens chamadas pelo apresentador. Em 1989 o azul em degradê entra em cena de forma mais evidente. No cenário de 1995, a identidade gráfica da bancada se mantém a mesma do cenário anterior, mas com modificações nas cores e no logotipo do JN estampado ao fundo. No ano seguinte, em 1996, as mudanças são mais suaves: arredondamento da bancada e atualização da logomarca. Em 2000 o jornal passou a ser apresentado de dentro da redação, o telespectador passa a ver a equipe envolvida na realização do telejornal. No fundo, o globo terrestre em três dimensões. Em 2005 há uma mudança na bancada, que dessa vez separa dos dois apresentadores. No cenário atual, lançado em 2009, o globo terrestre ganha mais destaque e passa a ficar em leve movimento. A bancada ganha ergonomia e o fundo da redação passa a interagir com o jornal, através de um telão que exibe selos, vinhetas e outras imagens.
Figura 37 – Na sequência, de cima para baixo, da esquerda para direita, o cenário do JN em 1972, 1979, 1985, 1989, 1995, 1996, 2000, 2005 e 200975
Os elementos gráficos são composições gráficas que atuam na interface do telejornal somando informação às notícias apresentadas, reforçando o seu conteúdo temático e fixando a atenção do telespectador.
À medida que os telejornais foram evoluindo, novos elementos foram sendo adicionados às suas interfaces, alguns com funções intrínsecas de prender a atenção do telespectador e outros com a função de auxiliar no entendimento da notícia valorizando a interface gráfica do telejornal assim como fixando sua identidade (AQUINO, 2006, p. 34-35).
Originalmente o telejornalismo fez uso limitado dos elementos de cena. Vianna (2003) lembra que, no princípio todos os jornais de televisão tinham praticamente o mesmo formato: uma cortina no fundo com uma cartela com o nome do patrocinador. Dentro desta articulação interna, como elementos de composição do material televisual, podemos citar, entre outros: cenário real ou virtual, selos, tapadeiras, marca in-air, apresentador, infográficos, canopla, texto, iluminação, figurino, sonoplastia, tarja de rodapé, vinheta, split screen, vinheta de plantão, letreiros, mapa com foto do repórter correspondente via telefone, previsão do tempo, animações 3D e 2D, reconstituições de cenas, uniformes e roupas das equipes, ilustrações e descaracterização das imagens de testemunhas. Estes elementos são diariamente apresentados aos telespectadores tornando-se marca registrada de muitos telejornais, sendo identificados pelo público no ato de sua apresentação como é o caso da vinheta de Plantão da Rede Globo a de abertura do JN.
Esses elementos que complementam o cenário e, muitas vezes, dividem o espaço da bancada com os apresentadores são componentes importantes da comunicação visual. Muitas
75 Fonte: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL1287545-10406,00-
vezes eles possuem cores contrastantes, sonoridades diferentes, informações adicionais em texto ou números, como pode ser percebido nos exemplos de selos a seguir.
Figura 38 – Diferentes tipos de selos utilizados no Jornal Nacional76
Em telejornalismo, entende-se por selo como sendo a composição de elementos gráficos que fica ao fundo ou ao lado do apresentador, caracterizando o conteúdo da matéria. O selo é constituído por um conjunto de imagens com o objetivo de reforçar ou complementar o assunto que está sendo lido pelo apresentador. Alguns autores consideram que o selo ajuda a compreender e acompanhar a sequência de um determinado acontecimento, ao mesmo tempo em que fixa a identidade visual do telejornal.
O selo pode representar uma idéia mais ou menos abstrata, ou seja, um tema genérico (p. ex. economia, remédios, educação etc.) sem necessariamente caracterizar uma qualidade desta representação (p. ex. problemas na educação). Pode também compor o significado de um tema ou evento específico (p. ex. flagrante de violência policial).77
Outro importante elemento de expressão da linguagem televisão é composto pelas cores. Para Cardoso (2008) a identidade visual do programa telejornalístico, os elementos de composição do quaro videográfico e, em especial, a palheta de cores predominante, são definidas em função da linha editorial do mesmo. Na Rede Globo, a cor seria um dos
76 Imagens do livro Jornal Nacional: modo de fazer (2009, p. 140).
77 Para mais informações sobre a compreensão comunicativa dos selos nos programas de telejornalismo consultar
o artigo de Doris Kosminsky, intitulado Design e criação digital nos selos do Jornal Nacional. Disponível em:
principais meios de diferenciação de um telejornal para outro. Em análise do cenário do Jornal Nacional, o autor afirma:
Quando há, na tela, as figuras dos apresentadores em um plano próximo – tendo como cenário apenas fragmentos do mapa-múndi em diversos tons de azul, ou então, o fundo com o logotipo JN e pequenos fragmentos de objetos, como a bancada e a balaustrada, com delicadas nuances de luz e sombra -, notamos que o elemento básico predominante é a cor (CARDOSO, 2008, p. 62).
Para Guimarães (2000, p. 12), a cor é “informação visual, causada por um estímulo físico, percebida pelos olhos e decodificada pelo cérebro”. No que se refere à interface de produtos jornalísticos, a cor em tempos passados, era usada com certa parcimônia, tanto pelo alto custo para sua aplicação, quanto pela falta de tecnologias que pudessem agilizar a sua criação e facilitar o seu uso. No entanto, o advento de novas tecnologias facilitou e induziu o uso das cores em produtos como jornais, revistas, televisão e Internet. O que antes demandava muito tempo para ser desenvolvido, ou era muito caro para ser aplicado, foi beneficiado com o uso da computação gráfica. Segundo Guimarães (2003, p. 53), “com o desenvolvimento dos programas de tratamento digital de imagens e de paginação com interface gráfica amigável, ocorreu uma grande profusão de imagens e de cores”.
A cor significa, provoca sensações, é capaz de comunicação. Na informação telejornalística a cor não é apenas um elemento decorativo ou estético. É o complemento da informação, possui influencia na percepção da forma interferindo em sua legibilidade, visibilidade e credibilidade, além dos aspectos simbólicos e culturais que evoca.
Farina et al. (2006, p. 112), afirmam que “as cores constituem estímulos psicológicos para a sensibilidade humana, influindo no indivíduo, para gostar ou não de algo, para negar ou afirmar para se abster ou agir”. A cor, então se configura como um elemento de extrema importância na transmissão da informação, na medida em que pode desempenhar diversos papeis comunicativos.