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A busca de evidências acerca das economias de aglomeração por meio dos diferenciais locais de aluguéis tem, sem dúvida, a teoria thüniana sobre a renda da terra como um de seus pilares fundamentais. A idéia básica que permeia a abordagem é que a concentração das atividades econômicas em um determinado ponto do espaço, ao aumentar a disputa por um recurso escasso — a terra localizada — tem efeitos significativos sobre o seu preço: os aluguéis. Se as firmas pagam aluguéis maiores em uma localização particular, então, ceteris paribus, esta deve apresentar algum diferencial produtivo compensador (ROSENTHAL e STRANGE, 2004, p. 10). Essa idéia é uma das bases da

literatura referente aos diferenciais locais de qualidade de vida29 cuja característica comum é a percepção de que os mercados de trabalho e de terra são localmente interligados. Nesse contexto, os salários e os aluguéis são variáveis tanto da função lucro das firmas como da função utilidade dos indivíduos — a qual também depende das amenidades locais — e a maximização conjunta culmina num equilíbrio espacial.

No entanto, a maioria dos estudos está preocupada em utilizar algum tipo de aparato inspirado naquele desenvolvido por ROBACK (1982) com vistas a obter, via equações hedônicas salariais ou de aluguéis, preços das amenidades locais. Essa informação é valiosa por ser empregada como ponderador na construção de índices de qualidade de vida utilizados em análises da atratividade relativa das cidades para as firmas e trabalhadores. Dito de outra forma, não há nessa literatura tanto interesse direto na natureza e magnitude da elevada produtividade advinda da concentração das atividades econômicas, isso é dado como um fato a ser considerado nas equações estruturais determinantes dos salários dos trabalhadores e custos das firmas.

Há, porém, um trabalho dessa vertente teórica mais alinhado com as pesquisas acerca das economias de aglomeração: DEKLE e EATON (1999). Esses autores empregaram tanto dados de salários como de aluguéis das prefectures japonesas para estimar os efeitos das economias aglomeração sobre a produtividade e sua extensão espacial em dois setores de atividade econômica: a indústria de transformação e serviços financeiros. A diferença chave do estudo de DEKLE e EATON (1999) em relação aos demais é o seu foco nas “externalidades de produção” e não nas “externalidades de consumo” e seus efeitos sobre a qualidade de vida nas cidades.

É digno de nota que uma das importantes características do modelo de DEKLE e EATON (1999) é a proposição de que a produtividade transborda entre regiões, ao contrário de grande parte da literatura que, freqüentemente, confina as externalidades produtivas às economias locais ou as tratam a nível nacional, como as teorias macroeconômicas do crescimento e comércio internacional.

A hipótese inicial do raciocínio de DEKLE e EATON (1999) refere-se à homogeneidade da função de produção das firmas, associada à premissa de que a produtividade destas depende do nível geral de atividade na região e setor em que estão instaladas — economias de localização. Formalmente, as economias de aglomeração na cidade p no tempo t em uma indústria qualquer são expressas pelo seguinte índice:

29

Veja, por exemplo, ROSEN (1979), ROBACK (1982), BLOMQUIST et al.(1988) GYOURKO e TRACY (1991) e GABRIEL e ROSENTHAL (2004).

pj d j tj tp Y A =

*exp−δ (9),

em que Ytj é uma medida do nível de atividade da indústria na cidade j, dpj é a distância

entre a cidade p e j, e δ é o coeficiente do “declínio espacial” das economias de aglomeração. A magnitude de δ tem importantes implicações econômicas. Se infinitamente grande, indica que os efeitos das externalidades inter-firmas são apenas locais. Por outro lado, se tendente a zero indica que os efeitos da aglomeração ocorrem em nível nacional.

As equações para as prefectures japonesas estimadas por DEKLE e EATON (1999) foram derivadas a partir da função custo unitário das firmas e têm como variável dependente uma combinação linear de salários e aluguéis30 e como variáveis explicativas a escala (ou a densidade) da atividade econômica local, a Atp, contando também com

controles para efeitos fixos locais e temporais. A variável salário nos dois setores estudados foi calculada a partir dos dados do Annual Report on the Prefectural Accounts como o custo médio por trabalhador em cada prefecture. Na falta de dados de aluguéis comerciais, os autores empregaram informações sobre aluguéis domésticos, obtidos no Japan Statistical Yearbook. Essas duas fontes também foram utilizadas no cálculo das densidades (valor agregado por área utilizada) e escalas absolutas (valor agregado) locais das atividades econômicas estudadas, mas os resultados obtidos com essa última se mostraram de melhor qualidade.

Por meio de um painel com informações de 1976 a 1988 em 46 prefectures japonesas, DEKLE e EATON (1999) encontraram resultados bastante pequenos para os coeficientes do declínio espacial das externalidades (δ), isto é, 0,0016 para a indústria de transformação e 0,020 para o setor financeiro. Com base nesses resultados e via simulações que revelaram menor declínio dos efeitos das externalidades com a distância no setor manufatureiro, os autores concluíram que, no Japão, os efeitos da aglomeração na indústria de transformação operam em escala nacional, enquanto são mais localizados no caso dos serviços financeiros.

A partir do coeficiente de escala encontrado, os autores calcularam as elasticidades do efeito do nível de atividade sobre a produtividade para cada uma das 46 prefectures analisadas31. As elasticidades foram estimadas tanto a nível local — aumento da produtividade em uma localização resultante do aumento de 1% na atividade daquela localização — como nacional — aumento na produtividade em uma localização resultante

30

Os coeficientes ou pesos da combinação linear são os shares dos fatores de produção terra e trabalho no valor adicionado das atividades estudadas, obtidos no sistema de contas nacionais do Japão.

do aumento de 1% na atividade de todas as prefectures. No primeiro caso, as elasticidades variaram de 0,0004 a 0,099 para o setor financeiro e de 0,002 a 0,062 na indústria de transformação. Já no segundo, as elasticidades variaram de 0,002 a 0,111 no setor financeiro e entre 0,166 e 0,591 na indústria de transformação. No setor financeiro a elasticidade nacional se apresentou, em média, levemente maior do que a local, enquanto no setor manufatureiro a elasticidade média nacional se mostrou muito maior que a local, refletindo o maior alcance geográfico de seus spillovers. A conclusão geral desses resultados é que, no Japão, as economias de aglomeração no setor financeiro são mais pronunciadas localmente ao passo que na indústria de transformação são mais pronunciadas em nível nacional. Esses achados subsidiam o fato de as concentrações espaciais financeiras elevarem localmente os aluguéis e salários — como uma medida de compensação — ao mesmo tempo em que expulsam de sua proximidade as atividades manufatureiras cujas economias de aglomeração localizadas são menos robustas.

Apesar de esse método de estimação das economias de aglomeração ter, ao contrário dos demais, a virtude de considerar explicitamente o mercado do fator de produção terra na análise, é pouco empregado na literatura em função de uma importante limitação que recai sobre a possibilidade de sua aplicação de maneira acurada. Mesmo em países desenvolvidos e dotados de variedades de pesquisas econômicas há grande dificuldade em se obter informações refinadas sobre aluguéis comerciais e industriais, principalmente a nível local. Neste caso apela-se para o uso dos aluguéis residenciais como proxy e isso exige a forte hipótese de que seus mercados são semelhantes. Daí a fonte da modesta presença de estudos dessa agenda de pesquisa na busca de evidências de economias de aglomeração na literatura internacional.