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Tripanossomas de anuros são hemoparasitas encontrados em todas as regiões não polares do planeta e ocorrem em espécies representativas de toda a classe Anura (Bardsley e Harmsen, 1973). Grande diversidade morfológica e genética é encontrada entre esses parasitas que, em geral, são mais polimórficos e mais complexos do que os tripanossomas de mamíferos (Bardsley e Harmsen, 1973; Ferreira et al., 2007a; b). A morfologia como parâmetro taxonômico para esse grupo é muito pouco confiável, tendo em vista que não são conhecidas as formas de desenvolvimento de diferentes espécies nem, tampouco, formas de uma mesma espécie presentes no sangue de seus hospedeiros. Portanto, não se pode fazer nenhuma correlação entre a morfologia e a taxonomia e filogenia de tripanossomas de anuros (Ferreira et al., 2007a). Estudos baseados apenas em análises morfológicas têm sugerido que tripanossomas de anuros não apresentam restrição aos seus hospedeiros vertebrados, já que anuros de diferentes espécies, e até mesmo de famílias distintas, têm sido encontrados albergando parasitas muito similares. Entretanto, infecções cruzadas experimentais têm sugerido uma significativa restrição dos tripanossomas às espécies de anuros mais filogeneticamente relacionadas (Martin et al., 1992b).

Apesar da grande prevalência e da diversidade de hospedeiros descrita para tripanossomas de anuros em todo o mundo, são raros os isolados disponíveis em cultura e as seqüências depositadas em bancos. Trabalhos a respeito de tripanossomas de anuros são ainda bastante limitados quanto ao número de isolados e de genes analisados. Até recentemente, quando analisamos um grande número de isolados brasileiros (Ferreira et al., 2007a), apenas 7 tripanossomas de anuros tinham seqüências depositadas no GenBank: Um isolado da Europa (Iugoslávia), 5 da América do Norte (USA e Canadá) e apenas um da África (Congo).

Embora alguns tripanossomas de anuros sejam freqüentemente incluídos em análises filogenéticas do gênero Trypanosoma (Stevens et al., 2001; Hamilton et al., 2004; 2005; 2007; Gibson

et al., 2005; Simpson et al., 2006), poucos são os trabalhos cujo enfoque seja especificamente esse

grupo de parasitas (Martin et al., 2002; Ferreira et al., 2007a, b). Todos os trabalhos posicionam os isolados de anuros no clado “Aquático” e sugerem a existência de dois grandes grupos nesse clado: um constituído por tripanossomas cujos vetores são sanguessugas e que compreende isolados de peixes de água doce e salgada, de sanguessuga aquática (T. sp K&A), de ornitorrinco (T. binneyi) e de tartaruga (T. chelodina). Estes dados indicam uma associação, neste grupo, com sanguessugas,

apoiando a hipótese de evolução destes tripanossomas com seus vetores aquáticos. O outro grupo é constituído por todos os isolados de anuros e um isolado de camaleão (T. therezieni) (Stevens et al., 2001; Hamilton et al., 2004; 2005; 2007; Gibson et al., 2005; Ferreira et al., 2007a). Esse segundo grupo compreende isolados de hospedeiros que vivem nos dois ambientes, aquático e terrestre, e não existem evidências filogenéticas sobre os vetores desses tripanossomas. O posicionamento do clado “Aquático” nas inferências filogenéticas é controverso. Alguns trabalhos sugerem que este seja o grupo irmão dos demais tripanossomas (Stevens et al., 1999; 2001; Stevens e Gibson, 1999; Hamilton et al., 2004; 2007) e outros que seja uma irradiação interna do gênero (Haag et al., 1998). Outros trabalhos sugerem a parafilia do clado Aquático, com tripanossomas de anuros segregando na base do gênero

Trypanosoma (Hamilton et al., 2004; Hughes e Piontkivska, 2003a;b).

A monofilia dos tripanossomas de anuros também não é consenso nos estudos realizados. Martin et al. (2002) analisaram o posicionamento filogenético de 5 tripanossomas de anuros: isolados de ranídeos, T. rotatorium, T. ranarum, T. neveulemairei e T. chattoni e de bufonídeos, T. fallisi e T.

mega. Esses tripanossomas agruparam com T. mega e T. rotatorium, cujo posicionamento já era

conhecido (Haag et al., 1998, Stevens et al. 2001) agrupando todos os isolados de anuros, exceto T.

chattoni, isolado de Rana pipiens, que agrupou com isolados de peixes (Martin et al., 2002). O estudo

de Gibson et al. (2005) corroborou os dois principais grupos internos do clado “Aquático” e confirmou a monofilia dos isolados de anuros, posicionando T. chattoni mais próximo aos demais isolados de anuros, embora em um ramo distante, do que dos isolados de peixes. A posição instável de T. chattoni nas topologias já publicadas, agrupando com tripanossomas de peixes ou de anuros, indica que essa espécie é bastante distinta das demais e que esse parasita possa ser membro de uma linhagem diferente.

A transmissão de tripanossomas por sanguessugas deve ser uma característica comum de todos os tripanossomas de peixes, assim como parece ser importante para as espécies mais aquáticas de anuros. Entretanto, existem inúmeras evidências que sugerem que sanguessugas e insetos podem transmitir tripanossomas entre anuros, inclusive a mesma espécie de tripanossoma (Molineux, 1977). Dentre os isolados de anuros, a transmissão por sanguessugas foi experimentalmente demonstrada apenas para T. fallisi e T. rotatorium. Contudo, não há evidências de que o isolado de T. rotatorium infectante para sanguessugas corresponda aos isolados utilizados nas análises filogenéticas, uma vez que diversos isolados são classificados no complexo T. rotatorium apenas com base em morfologia (Martin et al. 2002). Alguns trabalhos sugerem que insetos hematófagos dos gêneros Culex (Desser et

al., 1973; 1975), Aedes (Bailey, 1962; Ramos e Urdaneta-Morales, 1977), Lutzomyia (Anderson e Ayala

1968; Ayala e McKay, 1971; Ferreira et al., 2007b) e Corethrella (Johnson et al., 1993) estão envolvidos na transmissão de tripanossomas de anuros. O conjunto de dados obtido até o momento sugere que os tripanossomas de anuros não evoluíram estritamente com seus hospedeiros vertebrados e

invertebrados, e que um fator importante na evolução desse grupo tenha sido a troca de tripanossomas entre hospedeiros que compartilham o mesmo ambiente e os mesmos vetores (Ferrreira et al., 2007b). As topologias propostas (Martin et al., 2002; Gibson et al., 2005; Ferreira et al., 2007) sugerem que a evolução de tripanossomas de anuros apresentou eventos de troca de hospedeiros, tanto entre espécies quanto entre famílias de anuros. Esses dados reforçam evidências de que uma mesma espécie de anuro pode ser infectada por tripanossomas distantemente relacionados, por exemplo,

Rana pipiens pode ser infectada por T. chattoni e por T. ranarum, espécies posicionadas em grupos

distintos nas árvores filogenéticas.

Em um trabalho anterior observamos uma alta taxa de infecção por tripanossomas em anuros brasileiros e demonstramos que a diversidade morfológica desses tripanossomas é acompanhada de uma grande diversidade genética (analisada por polimorfismos de tamanho, restrição e seqüência de ITSrDNA). Inferências filogenéticas de 11 isolados brasileiros baseadas em seqüências de ITS1 e da região V7-U4-V8 da SSUrDNA revelaram a existência de três grupos de tripanossomas de anuros brasileiros (An01, An02 e An03) distantemente relacionados dos tripanossomas de anuros de outros continentes (An04). Esses agrupamentos apresentaram certa correlação com as famílias dos hospedeiros vertebrados e com a origem geográfica (Ferreira et al., 2007a). Mostramos recentemente uma associação entre tripanossomas de anuros e de flebotomíneos, posicionados no clado An03, sugerindo a existência de uma linhagem de tripanossomas de anuros transmitida por esses insetos e que a associação de linhagens com vetores e hospedeiros vertebrados parece ser dependente de ecótopos compartilhados (Ferreira et al., 2007b).

Portanto, o estudo da diversidade e das relações filogenéticas entre tripanossomas de anuros ainda é bastante fragmentado, assim como a relação desses parasitas com seus hospedeiros vertebrados e invertebrados. Estudos filogenéticos mais abrangentes, com a inclusão de um maior número de espécies de diferentes regiões geográficas e ecótopos, analisados com um maior número de marcadores moleculares, são fundamentais para uma melhor compreensão da história evolutiva desse grupo de tripanossomas. Neste estudo, comparamos seqüências de três loci gênicos de isolados de diversas espécies de anuros das famílias Bufonidae, Leiuperidae, Leptodactylidae e Hylidae de distantes regiões geográficas do Brasil e de bufonídeos (Amietophrynus garmani) e um ptycadenídeo (Ptychadena mossambica) de Moçambique (África) a fim de investigar: a) a diversidade genética e o posicionamento filogenético de tripanossomas de anuros brasileiros e moçambicanos; c) as associações das linhagens de tripanossomas de anuros com padrões filogeográficos e ecogeográficos de seus hospedeiros vertebrados e possíveis vetores.