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As cidades americanas surgiram para o mundo como o avesso da cidade medieval europeia, ao contrário das cidades de origem portuguesa nas Américas. Com um discurso crítico referente ao planeamento urbano, Holanda (1982) afirma que a cidade em que os portugueses construíram na América não é mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma providência, sempre esse significativo abandono que exprime a palavra ―desleixo‖.

No sentido da falta de rigor e da informalidade, outros autores acompanham a posição de Holanda (1982), dentre eles Santos (2008b), quando se manifesta a esse respeito. Ele identifica nas origens das cidades portuguesas no Brasil, a ―informal da idade média e a formalizada da renascença‖, afirma que os núcleos urbanos que surgiam como povoados ou ―lugares‖, como foi o caso do Povo do Recife, Figura 8 – citado pela primeira vez em 1537 no Foral de Olinda, iam-se desenvolvendo segundo uma lógica própria, levando ainda mais em conta as condições do sítio, crescendo de forma lenta e por agregação de elementos unitários, gerando tecidos conhecidos como ―informais‖.

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Figura 8 - Detalhe do Porto e Barra de Pernambuco, de João Teixeira Albinas.

Fonte: Neves (2011). Morfologia de Núcleos Urbanos do Agreste Pernambucano surgidos no Século XVII.

Por outro lado, Bonametti (2009) entende que a cidade orgânica portuguesa com suas características medievais, tende para a cidade perfeita, aquela em que cada um dos elementos exerce função natural, sobrepondo-se assim, às plantas em xadrez ou traçados lineares longitudinais que frequentemente manifestam incompreensão da cidade como ser vivo funcional e intelectualmente ativo.

É facto que a irregularidade dos traçados está muito presente nas cidades brasileiras. Tem uma relação muito forte com as características topográficas do terreno escolhido para suas implantações. Neste sentido, Marx (1980) faz uma colocação pertinente: [...] como as cidades medievais, acomodando-se em terrenos acidentados e a imagem das cidades portuguesas, as povoações brasileiras mais antigas são marcadas pela irregularidade. O sítio urbano, geralmente, decide e justifica esses traçados irregulares [...].

O autor explica de forma sucinta a relação entre a cidade brasileira e a portuguesa, onde diz que a cidade da Bahia, com seus dois andares e suas ruas ondeadas, de traçado flexuoso, é uma cópia de Lisboa.

Corroborando com a opinião de Marx (1980), no que diz respeito à acomodação das cidades brasileiras em terrenos acidentados, Carvalho (1989) destaca que os primeiros núcleos urbanos como Olinda, Igaras e Rio de Janeiro, Figura 9, vão se instalar em elevações, seguindo um modelo comum a inúmeras cidades portuguesas.

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Figura 9 - A cidade do Rio de Janeiro, da Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (1713). Fonte: Santos (2008b).

Smith (1955) referido por Vierno (2011) afirma que os centros urbanos do Brasil colonial, eram essencialmente recriações das cidades medievais portuguesas, completas com ruas tortuosas e bairros congestionados, como consequência imediata e intencional dos primeiros colonizadores. Dentro desse contexto Macedo e Robba (2003), observam que o modelo português de traçado urbano das cidades brasileiras do período colonial apresentava certas características semelhantes às cidades medievais europeias, que se desenvolveram a partir de antigas cidades romanas, ao redor de castelos, mosteiros e estruturas religiosas, a partir de entrepostos comerciais, Figura 10, cruzamentos de estradas, formando novas comunidades organizadas.

Figura 10 - Vila de Sabará (MG). Fonte: Bonametti (2009).

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Para Macedo e Robba (2003), as cidades coloniais brasileiras tinham as seguintes características: • traçado irregular e espontâneo, de inspiração renascentista, que se desenvolvia organicamente em relação aos acidentes topográficos;

• esquema urbano regular, baseado em lotes retangulares cujas vias eram sem calçamento ou passeio para pedestres. Eram definidas espacialmente pelas edificações, sem jardins ou recuos laterais;

• padronização da arquitetura a partir das Cartas Régias ou Posturas Municipais.

Comparando com as cidades fundadas pelos franceses e holandeses no território brasileiro, Macedo e Robba (2003), entende que estas possuem um traçado regular, pois tinham um sistema retangular radiocêntrico e linear, contrapondo a sinuosidade das cidades portuguesas.

Portanto, grande parte da crítica urbana se manifesta em relação à formação das cidades brasileiras com um processo gerador totalmente feito pela a revelia de qualquer planeamento, movidos pela inspiração reminiscente de um Portugal medieval. A este respeito, Robert Smith (1995) citado por Sant'ana (2002), declara:

As ruas, ironicamente chamadas de direitas, eram tortas e cheias de altibaixos. As praças de ordinário, irregulares. Desta sorte, em 1763, quando deixou de ser capital do Brasil, era a Bahia (Salvador) uma cidade tão medieval quanto Lisboa na véspera das grandes reformas de Pombal. Nada inventaram os portugueses no planeamento de cidades em países novos.

Comparando as cidades brasileiras com as de origens espanholas, Sant'ana (2002) afirma que ao contrário dos espanhóis, que eram instruídos por lei a executar um gradeado regular de ruas, que se entrecruzam em torno de uma praça central, os portugueses não mantinham regras, exceto a antiga de defesa através da altura.

A forma urbana medieval, é exemplificada por Sousa e Nogueira (2011) através de Olinda, cidade com uma configuração irregular que teve um eixo estruturador, acomodado à topografia e interligando edifícios públicos importantes, à maneira medieval. Somavam-se a esse eixo uma rua reta mais curta – quase paralela a ele e iniciada na praça da torre e da igreja matriz – e um largo alongado situado entre o segmento curvo do eixo e o convento feminino de Nossa Senhora da Conceição, como mostra a Figura 11.

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Figura 11 - Planta do núcleo inicial de Olinda, segundo José Luiz Mota Menezes, extraída de Oceanos, nº 41, 2000, p. 142).

Fonte: Sousa e Nogueira (2011).

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