Como defende Florida (2002), o talento tem lugar próprio e situação específica, sendo uma caraterística da cidade criativa. Os seus membros são os criadores de “meaningful new forms” e os que estão envolvidos “(...) in creative problem-solving, drawing on complex bodies of
knowledge” (Florida, 2002:69).
Segundo Cruz (2012:5), “os locais devem desenvolver, atrair e reter pessoas criativas para estimular o conhecimento, a tecnologia e a inovação, reforçando o crescimento económico”. A mesma autora (Cruz, 2012:5) salienta que “as pessoas criativas são definidas como um novo coletivo emergente, a classe criativa. Uma vertente importante é a qualidade do lugar, combinando fatores como a abertura, diversidade, meio ambiente, cultura de rua e qualidade ambiental. Esses fatores, mais ou menos intangíveis, estruturam as instituições que influenciam a decisão de localização das pessoas criativas. Muitos países, regiões e cidades estão a configurar-se como territórios criativos”. Trata-se de um mudança de paradigma em relação às motivações essenciais dos indivíduos. Na sociedade industrial e talvez mesmo na sociedade de informação, a procura de trabalho originava movimentos de migração. Para Cruz (2012:5), “os membros da classe criativa não consideram a possibilidade de morarem em determinados locais apenas pela existência de um emprego”. A qualidade de vida e bem-estar são os novos motivos da procura de trabalho num determinado lugar. A investigadora (2012:5) afirma que “as pessoas utilizam a participação na comunidade de forma a reproduzirem a sua identidade criativa, os seus interesses e valores no local de trabalho e na sociedade de uma forma geral”.
Diversidade de formas, cores e estilos de vida caraterizam o estilo de vida da classe criativa. Segundo Cruz (2012:6) “o estilo de vida da classe criativa baseia-se numa constante procura de experiências para os momentos de lazer” que se norteiam por uma vida ativa “focando atividades ligadas à prática desportiva e à natureza” (Cruz, 2012:6) e à vida urbana, “com o papel da animação de rua, dos eventos e da cultura do lugar” (Cruz, 2012:6). Por conseguinte, a atratividade do lugar deve proporcionar o usufruto de experiências e espaços adequados à qualidade de vida e bem-estar. Segundo Cruz (2012:6), “a classe criativa valoriza um misto de existência de infraestruturas científicas e tecnológicas, e facilidades culturais, de recursos naturais e também de autenticidade da própria cidade”. Segundo esta tese, os indivíduos criativos impulsionam o crescimento económico urbano e regional porque produzem inovação e atraem novas atividades. Acrescentamos nós, podem potenciar a notoriedade e a visibilidade internacional da cidade, servindo como um importante fator de promoção.
A tese da classe criativa de Florida2 tem, no entanto, sido sobejamente criticada por promover o elitismo e não cuidar das “classes não criativas” onde se enquadra a maioria da população, dando cobertura à transferência de recursos públicos para apoiar os mais beneficiados em detrimento dos grupos sociais mais carenciados. Segundo Cruz (2012:6), diversos economistas, geógrafos e gestores do território criticaram a metodologia de Florida. Por exemplo, Scott (2010), para quem as teses de Florida sugerem uma correlação entre a incidência da classe criativa em diferentes cidades e crescimento económico local. Para este investigador (Scott, 2010), o conselho de Florida para as autoridades da cidade é que devem concentrar-se em mecanismos que fixem o máximo de indivíduos criativos nos seus territórios, ou seja, que as cidades com ambições criativas façam elevados investimentos na criação de um ambiente urbano de qualidade, rico em equipamentos culturais e propício à diversidade da vida social local. Segundo Scott (2010), o argumento de Florida identifica uma série de elementos recorrentes da cidade criativa contemporânea, mas não os articula de forma necessária e suficiente, para que os indivíduos qualificados e criativos se reúnam em determinados lugares durante um período razoavelmente longo, ou seja, levanta um problema de sustentabilidade.
De acordo com Scott (2010), o problema resolver-se-á através de um sistema de produção que seja capaz de fixar, de forma permanente, um significativo número de pessoas criativas, não importando outros estímulos que possam aparecer. Para Scott, a mera presença de pessoas criativas “não é o suficiente para sustentar a criatividade urbana durante longos períodos de tempo” (2010:120). Este autor (Scott, 2010:120) sublinha que “a criatividade precisa ser mobilizada e canalizada para a emergir em formas práticas de aprendizagem e inovação”. Scott não acredita que, só por si, a presença da classe criativa num determinado lugar tenha como resultado inato a construção de uma vibrante economia local. Na opinião do investigador, este raciocínio negligencia e não considera o sistema complexo de inter-relações que sustentam e estão presentes na dinâmica de um ambiente criativo. Scott sublinha que todas as dimensões da vida urbana evoluem de forma recursiva (em associação de uns com os outros) e que qualquer programa de desenvolvimento viável focado na construção de uma cidade criativa deve tratar, no mínimo, de criar e manter um sistema de produção e de formação local para atrair uma relevante força de trabalho. Assim, o planeamento do espaço urbano deve garantir que todos os diferentes elementos trabalhem em conjunto e de forma harmoniosa.
Para além do mais, as teorias de Florida podem fomentar uma lógica de mimetismo, não priveligiando os valores autóctones de cada cidade. Assim, o sucesso relativo de algumas aplicações das teses da criatividade tem também alimentado algumas críticas. Um dos casos apontados é o de Milwaukee (Cruz, 2012), uma cidade industrial dos EUA, na qual a tentativa de
atrair e desenvolver a “classe criativa” acabou por afastar a população do centro da cidade e dos processos de renovação do centro urbano; em Austin (Cruz, 2012), também nos EUA, considerada como o paradigma da cidade criativa, geraram-se alguns efeitos perversos: a excessiva comercialização dos bens e serviços culturais retirou autenticidade e levou à degradação do ambiente criativo. Segundo Cruz (2012:6) “pode ser problemático a implementação de políticas de desenvolvimento do território de carácter mimético. A tentativa de cultivar a criatividade em ambientes adversos a esta, por exemplo ambientes tradicionalmente ligados à classe trabalhadora ou de serviços, pode exacerbar divisões socioeconómicas. É fundamental que ações destinadas a promover o crescimento dos territórios como polos criativos se baseiem em recursos e potencialidades verdadeiramente existentes no território”.
Como se notou, a classificação de determinado território/bairro como criativo poderá favorecer processos de gentrificação e valorização urbanística que, em último termo, poderão conduzir à expulsão da própria classe criativa do seu “bairro criativo”.
André e Vale (2012) notam que, dando expressão a estas preocupações, surgiu mais recentemente o conceito de cidade socialmente criativa, ou seja, a cidade que estimula a criatividade ao mesmo tempo que garante a coesão social e espacial (Gertler, 2004, Scott, 2006 apud André e Vale, 2012:37).
Assim, a autenticidade surge como um valor a considerar na implementação das estratégias de criatividade nos espaços urbanos de forma garantir a perenidade da experiência. A autenticidade será igualmente um fator diferenciador de um destino turístico.