A sociedade muda a cada dia que passa e os cidadãos exigem produtos que acompanhem essa evolução. Os artesãos devem apostar na inovação, na diferenciação, na autenticidade e no que é realmente português, renovando com novos conceitos os objectos e as técnicas tradicionais. Segundo Francisco Providência47, “uma cultura tradicional, não evolutiva, está condenada à morte. A cultura é tão dinâmica quanto o processo da sobrevivência humana, em permanente mutação. O artesanato que não percebe isto, já morreu”. O artesanato tradicional tem de projectar a identidade dos cidadãos actuais, tem de questionar criticamente a sua participação na comunidade, tem de progredir, integrar o novo, actuar criativamente.
46 Apud CORREIA, Susana – Das Relações entre Design e Artesanato. In A Alma do Design, p. 22. 47 Apud CORREIA, Susana – Op.cit. p. 20
35 Segundo o artigo nº 6 do Decreto-Lei nº 41/2001, de 9 de Fevereiro, “a fidelidade aos processos tradicionais (…) deve ser compatibilizada com a inovação, nos seguintes domínios e nas seguintes condições:
a) Adequação do produto final às tendências do mercado e a novas funcionalidades desde que conserve um carácter diferenciado relativamente à produção industrial; b) Adaptação dos processos produtivos, equipamentos e tecnologias de produção, por imperativos de ordem ambiental e de higiene e segurança no local de trabalho e por forma a diminuir a penosidade do processo produtivo ou a rentabilizar a produção desde que, em qualquer caso, seja salvaguardada a natureza e qualidade do produto ou serviço final;
c) Substituição das matérias-primas, de forma a respeitarem-se as exigências ambientais e de saúde pública e os direitos dos consumidores ou ainda por razões de maior adequação ao resultado final pretendido.”
Este artigo refere, assim, que é possível adaptar os processos produtivos e equipamentos através da inovação e da tecnologia, de forma a rentabilizar a produção, desde que seja salvaguardada a qualidade artesanal do produto. “Tradição e modernidade não devem ser vistos como opostos, mas como aspectos complementares e em tensão produtiva. As actividades de carácter artesanal podem coexistir com as indústrias e com os modos de vida da sociedade moderna” (Simões, 1999: 141). Entre tradição e inovação, só os artesãos que trabalharem com criatividade, empenho, imaginação, paixão, persistência, subsistirão.
Para José Portela (2005: 52), “os termos inovação e desenvolvimento gozam de juventude conceptual e andam amiúde associados.” O desenvolvimento é associado à ideia de ter e ao poder, enquanto a “inovação não é dom celeste, nem sorte terrena, cultiva-se.” Para este autor inovar é mais do que imaginar e gerar novas ideias. “Inovar reclama intuição e vivacidade do olhar para, entre outras coisas, detectar a oportunidade de mudança.” Segundo Portela, “em Portugal há inventores mas não há uma cultura de inovação. Inovar é sobretudo conhecer e dar alento à tradição. (…) Uma novidade radical e repentina é coisa rara.” A inovação deve ser “gradual e contínua ao longo do tempo. Porque será que nós temos na frente aos montes, aos molhos, tantas coisas que não vemos nem mesmo perto dos olhos?”
Um dos projectos mais inovadores nos últimos anos, neste campo, foi o trabalho de reinterpretação levado a cabo por artistas, designers e artesãos, aquando da exposição “Pop Portugal: Reinterpretação criativa de símbolos, técnicas e materiais tradicionais portugueses”, organizada pelo espaço YRON, em 2008. O YRON propôs, assim, a redescoberta da identidade iconográfica portuguesa, valorizando o património cultural e
36 popular, recuperando e actualizando a memória, através da mostra de objectos resultantes da reinterpretação criativa de símbolos, técnicas e materiais tradicionais portugueses. Esta exposição percorreu o país de norte a sul, passando pela Ilha da Madeira e até em Nova Iorque. Nesta iniciativa, participaram “criativos e marcas que, inspirados na tradição, ousaram criar objectos inovadores de design, moda, arte e artesanato contemporâneos”. João Videira, através da sua marca Água de Prata, transformou as lãs de Arraiolos aplicando-as em mobiliário, mesas, cadeiras e banquetas muito originais e coloridas, desenvolvidas em torno de nomes de aldeias, vilas e cidades portuguesas. Os lenços de namorados do Minho assumiram, também, novos formatos e aplicações, em forma de t- shirts. O arquitecto Dino Gonçalves (madeirense) também se inspirou nos tradicionais lenços do Minho e criou uma peça de mobiliário. Hugo Santos, estilista madeirense, criou uma colecção de roupa através da reinterpretação do bordado Madeira. Os galos monocromáticos de Rute Arnóbio (Águas Furtadas) também estiveram presentes na exposição. A cortiça foi, igualmente, alvo de uma metamorfose nesta iniciativa, pelas mãos de Bleach Design (Marisa Guedes e João Sousa) e pelo talento do designer industrial nova- iorquino, Daniel Michalik. A marca Bleach Design, oriunda da Marinha Grande, utilizou a cortiça para criar um candeeiro, um banco em forma de rolha, pegas de cozinha em forma de mãos, entre outros. Enquanto Daniel Michalik usou este material para fazer bancos, taças e pratos inspirados no tradicional recipiente que os apanhadores de cortiça portugueses usam para beber água durante a apanha nos campos48. Estes foram alguns dos artistas que tornaram possível esta inovação da tradição em objectos julgados por muitos, decadentes, ultrapassados, sem futuro.
2.2 “Refuncionalização”
Uma das funções que mais caracteriza o artesanato tradicional é a utilidade dos objectos. Esta função tem de ser adaptada aos tempos modernos. Os objectos que outrora eram apenas úteis, hoje transformam-se em fins decorativos, por exemplo.
“Quando uma, sempre valiosa, colcha de Castelo Branco deixa de se pôr em cima de uma cama, para ir ornamentar a parede de uma sala ou ocupar, num átrio, um lugar de destaque, perde a sua primitiva função/utilidade (a celebração dos esponsais), mas ganha uma outra. Símbolo de um bom gosto bem português, essa colcha que
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Pop Portugal: a tradição já não é o que era. Time Out Lisboa. Disponível em WWW: <URL: http://timeout.sapo.pt/news.asp?id_news=1469
37 agora se pendura diz-nos que ali, naquela casa, há dinheiro, bastante, e posição social como se demonstra desse modo requintado” (Ana Pires, 2000: 9).
O sector das artes e ofícios opera como qualquer outro sector, no que concerne à necessidade de se escoarem as produções, participa na economia e tem de dar atenção às leis que regem o mercado. Daí que é importante, quando se fale de reabilitação de algumas artes tradicionais, não se ignore que agora vive-se de forma diferente. Os jovens actuais não compram bordados para colocar em cima das mesas, em primeiro lugar, porque são dispendiosos, e em segundo, porque não são nada práticos nem se adequam ao design das suas habitações.
Segundo Ana Simões (1999: 141-142), “o artesanato moderno/urbano não é incompatível com o artesanato tradicional, antes o complementa. A par da recuperação das técnicas tradicionais, deve promover-se a adequação dos produtos aos mercados. A “refuncionalização” dos objectos deve ser também uma aposta da formação profissional.” Quando se afirma que é fundamental proteger, enaltecer a tradição, não devemos pensar, no entanto, “que tal significa deixar tudo como está. Pelo contrário, a par com a identidade deve estar a criatividade e a inovação na criação de coisas novas que satisfaçam as novas necessidades”.