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LITTERATUR

In document Naturtypari Lindås (sider 29-0)

Os problemas da sociedade localizam-se em dois mundos de ações distintas: o sistêmico e o vivido como resgatam Valenti; Silva (1995). O mundo sistêmico compreende o subsistema econômico e político, cujas linguagens foram substituídas pelo dinheiro e pelo poder, respectivamente, esse mundo é o domínio da ação instrumental; enquanto o mundo vivido é o domínio da ação comunicativa, o espaço da linguagem, ou seja, o lugar do entendimento humano relata Valenti;, Silva (1995). Nessa perspectiva, pode-se apresentar que a racionalidade instrumental está relacionada ao mundo sistêmico, enquanto a racionalidade substantiva integra-se ao mundo vivido.

Silveira (2008) demonstra que espaço privado e o espaço organizacional são percebidos não como antagônicos, sendo o espaço privado marcado pela irracionalidade e ausência da objetividade – o mundo disfuncional – e o espaço organizacional como o espaço da razão e da objetividade – o mundo funcional – mas com espaços distintos. Haveria então uma racionalidade organizacional e uma racionalidade pessoal. Assim percebe-se a necessidade dos ajustes humanos e organizacionais para aprimorar o convívio e harmonizar as relações de homem e trabalho. Serva (1996) apoiado na obra de Ramos (1989) diz que a razão substantiva é um atributo natural do sujeito, reside na psique humana. A racionalidade substantiva oferece ao indivíduo esta organização da vida eticamente, gerando as ações que equilibrem a satisfação pessoal e a satisfação social, como também atingir a concretização de suas potencialidades humanas, expressa Serva (1996).

A racionalidade substantiva apresenta um conteúdo teórico que destaca o ser humano, na sua dimensão individual e coletiva, preservando-lhe a dignidade fundamentada na sua expressão ética, para atingir o desenvolvimento humano, na valorização das suas habilidades, capacidade de reflexão e discussões no trabalho com espontaneidade. As organizações podem se tornar locais onde os profissionais vivem para alcançar emancipação humana, ou seja, o desenvolvimento pessoal e

profissional por meio de atributos a serem investidos no trabalho que inserem a essência humana para o trabalho, no qual faz com que as pessoas se sintam parte do mesmo, de modo que se realizem e satisfaçam individualmente e coletivamente.

Enquanto as organizações tipicamente burocráticas orientam-se por uma razão baseada no cálculo utilitário, as organizações substantivas guiam-se por uma racionalidade que habilita mais o indivíduo a ordenar a sua vida eticamente, preservando a autonomia (a liberdade para agir), o incentivo e preservação de valores humanos e sociais, como o respeito às opiniões, a valorização dos conhecimentos habilidades (SERVA, 1996, SILVEIRA, 2008). Serva (1996) demonstra que soa completamente diferente a busca do êxito individual desprendido do debate racional e do julgamento ético-valorativo, pautar-se apenas no cálculo utilitário de consequências é ação típica do embasamento fornecido pela lógica da razão instrumental.

Perante o progresso do capitalismo regras impostas aos indivíduos protegem as organizações produtivas, perante outro lado, desvela a transmutação daquelas regras que, levadas ao máximo, conduz à irracionalidade, pois despoja os indivíduos da sua condição humana. Na medida em que a condição humana é afetada, o indivíduo trabalhador foge de si mesmo, sujeitando-se às exigências do mercado regulador das atividades humanas, que o mergulha no emaranhado de uma frustrante existência, expõe Rodrigues (2006).

O lucro e a rentabilidade, base das relações mercadológicas tem demonstrado o reflexo no progresso e na satisfação humana no trabalho no sentido de estar supervalorizando as características das diretrizes e regulação do mercado em detrimentos da satisfação e da realização humana e social. O utilitarismo das ações humanas desprovidas de debates racionais que discernem o correto do incorreto, o falso do verdadeiro para as práticas e decisões organizacionais, fazem com que as frustrações e insatisfações humanas e sociais elevem-se.

A ação racional substantiva, com base nos estudos de Guerreiro Ramos e de Habermas, orienta-se na dimensão individual à autorrealização, compreendida como concretização de potencialidades e satisfação; e na dimensão grupal, refere-se ao entendimento, nas direções da responsabilidade e satisfação social. Por conseguinte, Serva (1996) descreve os elementos constitutivos da ação racional substantiva, os quais são:

- Autorrealização: processos de concretização do potencial inato do indivíduo, complementados pela satisfação;

- Entendimento: ações pelas quais se estabelecem acordos e consensos racionais, mediadas pela comunicação livre, coordenando atividades comuns sob a égide das responsabilidades e satisfação sociais;

- Julgamento ético: deliberação baseada em juízos de valor (bom, mau, verdadeiro, falso, correto, incorreto, etc.), que se dá através do debate racional das pretensões de validez emitidas;

- Autenticidade: integridade, honestidade e franqueza dos indivíduos nas interações;

- Valores emancipatórios: aqui se destacam os valores de mudança e aperfeiçoamento do social, bem estar coletivo, solidariedade, respeito à individualidade, liberdade e comprometimento, presentes nos indivíduos e no contexto normativo do grupo;

- Autonomia: condição plena dos indivíduos para poder agir e expressar-se livremente nas interações.

Por que essa racionalidade é dita substantiva? O substantivo da racionalidade estaria no ‘modus operandi’, isto é, no que fazer e porque fazer ou no ‘modus faciendi’, isto é, no estado de espírito, no ‘animus’ com o qual se deve fazer alguma coisa. Maurício Serva apresentou o resultado de um mapeamento feito pelo Grupo de Pesquisa em Organizações Substantivas- GPOS, sediado na Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e concluiu que nessasorganizações o trabalho é uma atividade prazerosa, o processo de realização ultrapassa às próprias finalidades, observando um alto grau de solidariedade e de afetividade entre os membros, bem como a existência de uma participação efetiva de cada um na vida da organização (SERVA 1996).

A expressão substantiva da racionalidade não são os seus fins em si mesmos, mas a razão que move o indivíduo e, por decorrência, a coletividade da qual ele é membro, a fazer esta ou aquela ação, o que acaba introduzindo um grande diferencial no processo de execução, modificando a essência de seus resultados. A racionalidade substantiva não seria uma práxis, nemseria algo que se pudesse limitar a uma forma sistêmica e integradora de atuar em determinada situação, mas transformando-a ou solucionando-a com integridade perante as motivações dos indivíduos, demonstram Passseri (2001) e Assunção;Ponchirolli (2010). A racionalidade substantiva não considera uma reprodução ‘operária’ de esquemas ou estruturas organizacionais ou mesmo gerenciais. Ao contrário, a racionalidade substantiva pressupõe que cada organização tenha autonomia para buscar e encontrar respostas efetivas para sua realização específica, liberando-se, para tanto, de qualquer tirania de clichês ou padrões de solução de natureza determinística. Como resultante dessa autonomia, as organizações se ampliam na heterogeneidade e se desvenda numa

multiplicidade de opções de resposta a situações e estruturas organizacionais concretas e diversificadas, expõem Assunção;Ponchirolli (2010).

Uma organização onde existe satisfação oriunda da perseguição de um ideal; onde o trabalho é realizado com prazer através da satisfação individual e grupal, e a ausência de alienação no trabalho foram os itens utilizados para expressar as organizações onde a racionalidade substantiva se destaca nas ações e práticas, expõem Serva (1996) e Passeri (2001). Nos critérios desenvolvidos para os estudos nas organizações substantivas, que o que é substantivo nos processos organizacionais, afasta-se da rigidez e burocracia e traz maior oportunidade de prazer e autorrealização para os trabalhadores; a hierarquia flexível, a autonomia no desenvolvimento dos trabalhos, as discussões e reflexões pela autenticidade no trabalho são valorizadas nessas organizações substantiva.

A racionalidade substantiva constitui numa bússola para o indivíduo que, assimilando-a e vivendo, passa reagir de forma diferenciada, porém existencial e permanentemente coerente, a cada situação que se lhe apresente, sem estabelecer ou se subjugar a padrões de ação. Esse é o pressuposto ético, traduzido em autenticidade e verdade existenciais. Na visão de Guerreiro Ramos, o indivíduo liberto do modelo social centrado no mercado desenvolve atividades, no âmbito de sistemas sociais, que contribuem para aumentar a razão de viver, relata Passeri (2001).

Deste modo, pode-se averiguar que os estudos da racionalidade substantiva aqui apresentada demonstram que a maneira que as organizações que predominam esta racionalidade são mais gratificantes à vida dos trabalhadores. Pois reflete autorrealização e desperta o valor do profissional, ao dar a oportunidade de expor suas opiniões, não há imposições hierárquicas rígidas. As regras burocráticas não engessam a capacidade de pensar e a impulsionar os indivíduos das organizações a demonstrar suas habilidades, desenvolve suas capacidades, ao oferecem autonomia e os valores éticos da existência humana e social.

Diante das apresentações revela um novo olhar, um ‘prisma’ teórico diante das práticas organizacionais. Ao saber que se convive em um meio ainda predominante burocrático, onde normas e regras se fazem presentes e as quais são criadas, talvez, de modo a impedir que a liberdade, valores éticos e emancipatórios humanos dominem os locais de trabalho.

Visto que hoje as pessoas têm buscado estar além dos padrões normativos que dominam a sociedade como um todo, as pessoas buscam transcender com estilo de vida. Pois elas reconhecem que não ganham a vida numa isonomia, ou seja, buscam desempenhar atividades compensadoras por si mesmas, é muito mais autogratificante, que seguir o que todos fazem de maneira igualitária.

As pessoas participam de relacionamentos sociais onde dão e recebem. No trabalho, as atividades desenvolvidas são sobretudo ligadas às suas vocações, não como empregos, ou seja, a recompensa está na realização dos objetivos intrínsecos daquilo que fazem, não na renda recebida pela atividade que desenvolvem. Nesta magnitude de ideais, Ramos (1989) demonstra que a maximização da utilidade não tem importância para os interesses fundamentais do indivíduo.

Demonstra-se que quanto mais os indivíduos conseguem realizar-se perante suas características humanas e sociais lhe traz maiores satisfações, por se sentirem valorizados e reconhecidos por seus potenciais humanos. O respeito pela individualidade, a existência da solidariedade e do respeito mútuo se complementam pelos valores para o alcance da emancipação humana. A defesa dos elementos constitutivos da racionalidade substantiva na liberdade de poder agir quando necessário, as experiências, habilidades e conhecimentos desenvolvidas junto à equipe de trabalho traz maiores benefícios e possibilita oportunidade de crescimento pessoal, profissional e reflete nas relações sociais e até familiares.

In document Naturtypari Lindås (sider 29-0)