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In document Engasjering i midlertidig investering (sider 88-96)

“O que escrevo não é o que tenho, é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não porque tenho água. Sou pote” (Rubem Alves, O melhor de Rubem Alves).

Pensar, falar, estudar, pesquisar sobre a morte e todos os aspectos que a envolve traz à tona a história, as regras, as leis que tanto regeram e dominaram nações, culturas, famílias e pessoas.

A morte, último estágio do desenvolvimento humano, é um fato, um acontecimento que mobiliza todo o sistema familiar e social que envolve o morto.

As atitudes do homem diante da morte já a consideraram “domada”, “do outro”, “invertida” (Ariès, 2003) e agora “re-humanizada”, mas, sempre morte; traz sofrimento, necessidade de reestruturação. Independente de que nome possa ter, medidas precisam ser tomadas, rituais precisam ser realizados, e a despedida, o último momento com aquele(a) que foi tão importante em vida deixará um luto a ser vivenciado.

Em um tempo em que a sociedade cresce cada vez mais em recursos e avanços tecnológicos e de desenvolvimento, o consumo passa a ser a lei; e a expressão de emoções, sinônimo de fraqueza. O que fazer, então, quando a morte acontece? Talvez, o

possível seja contratar os melhores produtos e serviços para demonstrar a importância de quem morreu.

As indústrias funerárias ganharam espaço e se tornaram necessárias, acompanharam o desenvolvimento e oferecem desde um simples caixão, uma simples mortalha ou vestimenta, uma simples higienização, em um simples velório até embalsamamento, cremação, caixões e urnas luxuosas, tanatopraxia e velórios com música, memorial eletrônico e velórios virtuais (internet).

O agente funerário é o profissional da morte, o responsável por esses serviços, aquele que oferece a possibilidade de entregar um defunto que não estampe as faces da morte. Ao re-humanizar o corpo morto, limpa, higieniza, maquia e até perfuma, a fim de oferecer à família, por meio de um corpo íntegro e reconhecido, a despedida necessária e tão importante no último momento.

Este estudo demonstrou que, diante dessa prática, a morte precisa ser racionalizada como objeto de trabalho, passa a ser definida como “natural”, “uma passagem”, “uma certeza”, mas quando afeta a vida pessoal, traz consigo todas as emoções que marcam os que passam pela dor da perda, como demonstrou Fernando Pessoa: “É, não muda, não; não vejo diferença não. Como eu disse a você, eu achava que, quando acontecesse na família da gente, uma pessoa da gente, a gente ia tá preparado, mas não existe isso, não existe”.

O contato com o corpo morto, no qual a morte se torna concreta, também requer recursos para que seu caráter sagrado possa ser violado. Revela as possibilidades de morte e as fragilidades de ser apenas um corpo, que pode trazer odores e decomposições, antes apenas atribuídas a animais, como revela Gabriel García Márquez: “(...) não é nojo da pessoa, do ser humano, é daquela catinga, daquele fedor, o ser humano fede mais que carne de animal morto, mais podre que cachorro morto”.

O defunto é o objeto de trabalho desses profissionais e o cuidado se torna possível a partir de mecanismos de defesa de naturalização. Entretanto, o contato com os familiares estampa a dor e a história não só da morte, como do corpo morto e daquela família, o que difere dos cadáveres do anatômico, no caso dos estudantes de medicina, que, de fato, não possuem identidade nem histórias conhecidas. Assim, como não sentir? Como não se emocionar?

Sofrimentos, dores, dificuldades são revelados no contato com os familiares enlutados, clientes que, diante de suas fragilidades, acabam por contar muito de suas histórias. Apresentam o defunto como uma pessoa e não apenas como um corpo morto, o que pode emocionar e, por vezes, levá-los a se identificar.

Além disso, ao receber o corpo para os últimos cuidados, o agente funerário está sujeito às reações da família, a qual se encontra ainda impactada diante da notícia da morte. Algumas vezes, familiares expressam sua dor em reações direcionadas a esses profissionais, que mostram a realidade ainda tão difícil de ser aceita, a morte.

“Entregar o corpo” ao familiar, e ser agradecido por isso, é a grande satisfação numa profissão que possui pouco reconhecimento social, que enfrenta dificuldades relacionadas ao preparo para a atuação, às condições de trabalho, aos salários baixos, sem órgão de defesa e fiscalização. Enfim, uma profissão “de qualquer um”, “para qualquer um”, mas que, de fato, não é feita por qualquer um.

Quem são essas pessoas que, de uma forma ou de outra, “escolhem” e permanecem neste ofício, mesmo diante de tantas e visíveis dificuldades? São pessoas como qualquer um de nós, como todos nós, que têm família, história, sentimentos, medos e necessidades. Grandes pessoas que se dispõem a cuidar do que não é delas, nem para elas: um corpo morto e, para isso, precisam se utilizar estratégias de enfrentamento para suportar tantas dores, todos os dias. Pessoas, profissionais que

precisam de cuidado, de atenção e de voz para dizer e, se possível, gritar ao mundo sobre a “beleza” de sua prática.

Conhecer os agentes funerários permitiu-me, hoje, oferecer-lhes respeito e admiração, e é com esses sentimentos que desejo que esta pesquisa invada os leitores e que esses profissionais possam conquistar um lugar digno em nossa sociedade. Para que, quando nós ou nossos familiares estivermos em suas mãos, possamos receber deles o mesmo cuidado, com a mesma dedicação e respeito que eles ofereceram a tantos corpos, defuntos, que já passaram por eles.

Cuidadores são também os agentes funerários, que ao cuidar do corpo morto, por meio da higienização e, por que não dizer, da re-humanização de corpos mortos, cuidam dos familiares que os procuram, como clientes tomados pela dor da perda, muitas vezes, “trazendo” corpos despedaçados, mutilados, ou mesmo, com a morte tão cruelmente estampada e que, ao atuarem, “entregam” não apenas um corpo morto mas uma pessoa morta.

A arte também reforçou o recuperado em nossa pesquisa, o filme A Partida (Nakazawa et al., 2008), retratou os achados, mesmo sendo em outra cultura, a Oriental, parece que alguns aspectos se repetem: a morte como um acontecimento temido e pouco falado, ritualizado de maneira a facilitar a passagem do morto para a outra vida, mas, sobretudo, para permitir a despedida. A preocupação em suavizar as faces da morte, além da discriminação e do preconceito diante do profissional que “toca” a morte, que, diante do corpo morto, invade os espaços sagrados; cuidar do corpo morto, re- humanizando-o. Ser “profissional da morte” parece não ser uma escolha advinda do desejo pela profissão, mas iniciada pela necessidade financeira, que, nesse caso, é alta. Atribuir um significado à profissão parece ser o fator determinante para a permanência, como diz o protagonista do filme, Daigo:

Fazer reviver um corpo frio e dar a ele beleza eterna isso tudo feito com muita tranqüilidade, precisão e sobretudo com infinito afeto. Participar do último adeus e acompanhar o morto em sua viagem. Nisso eu percebi uma sensação de paz e extraordinária beleza. (Nakazawa et al., 2008)

A partida (Nakazawa et al., 2008) não retratou apenas os achados desta pesquisa,

conseguiu, também, demonstrar a beleza encontrada nesse universo de pesquisa, a partir da disponibilidade de, verdadeiramente, olhar para esses profissionais. O filme é um resumo fiel ao observado neste estudo.

Vejo beleza nessa prática, mas também vejo dificuldades; vejo o quanto reflete, ainda, as dificuldades de uma sociedade que marginaliza a morte e tudo o que está relacionado a ela.

O cuidado não se encerra no que parece o fim, pois é aí que novos começos surgem e recomeços se tornam necessários. Cuidar é um ato humano, demasiadamente humano, e possível, mesmo diante do que parece impossível, a morte.

Assim, esta pesquisa não tem a pretensão de esgotar o assunto, tão pouco, abarcar todas as possibilidades de diálogo com tal demanda, mas lançar dados e questões a serem discutidos, e instigar novas pesquisas, visões, interpretações, sobretudo, contribuir para fazer dessa profissão uma fonte mais frequente de cuidado.

Ofereci uma das muitas possibilidades, diante do tema morte e agentes funerários, propondo a inclusão do cuidado como aspecto presente no fazer dessa profissão e necessário para os profissionais que atuam. Realizar tal pesquisa foi uma experiência que enriqueceu-me como profissional e pessoa. A cada leitura feita, a cada palavra escrita estava presente o amor e o respeito a esses temas – tão complexos quanto necessários.

Ressignificar uma profissão associada ao sofrimento humano e que escancara a mais dura das realidades, a morte, pode abrir as portas para o único aspecto que nos torna iguais, como foi dito por Gabriel García Márquez: “O que eu aprendi: que a gente só vale quando tá aqui, quando a gente morre não vale nada; não tem rico nem pobre, não tem bom nem ruim, é tudo uma coisa só; a carne é a mesma, apodrece do mesmo jeito”.

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