Em meio aos anos de ebulição que conduziriam a Nova Espanha à autonomia, José Servando Teresa de Mier vem ao mundo em 18 de outubro de 1763 na cidade de Monterrey, capital do Novo Reino de Leão. Era filho de Joaquín Mier y Noriega, que teria desempenhado o cargo de governador e comandante geral do reino de Novo Leão, e de Antonia Guerra Iglesias de Santacruz, ambos espanhóis de nobre estirpe37. Sua história de vida, antes da partida para a Europa, reflete o universo
criollo de uma elite bem nascida. Aos 17 anos, Mier entra para a ordem de São Domingos na cidade
do México onde estuda Filosofia e ordena-se sacerdote. Em poucos anos de carreira sacerdotal, tornar-se-ia professor no convento principal da ordem, para em 1790, aos 27 anos, ser agraciado com título de doutor em Teologia pela Real e Pontifícia Universidade do México. Já nesse período se tornara renomado como pregador ao ser escolhido para pronunciar a oração fúnebre em homenagem ao conquistador Hernán Cortez, no Hospital de Jesus, fundado pelo conquistador.
A Voz de Prata, como era chamado pela incrível habilidade de oratória, tem o rumo de sua existência alterado em 12 de dezembro de 1794, ao pronunciar o famoso Sermão Guadalupano, na Colegiata de Guadalupe, diante das autoridades vice-reinais e do arcebispo Alonso Nuñez de Haro. Convidado a predicar em honra a Nossa Senhora de Guadalupe, Mier contesta o principal motivo da conquista espanhola sobre o Novo Mundo, a missão evangelizadora, o que levou o dominicano a construir uma versão peculiar sobre o milagre. Não inovadora, é certo, porém muito menos anti- religiosa. Nesse período pré-independentista, Mier, ao realçar os valores novo-hispânicos, em rejeição aos metropolitanos, revestia-se gradualmente do papel de questionador da ordem absolutista.
Ao rejeitar o pretexto espanhol para conquista dos povos americanos, Mier valorizou a religião pré-colombiana, vinculando-a a uma espécie de cristianismo autóctone. O destacado poeta, escritor e historiador mexicano Andrés Henestrosa aponta que Mier sabia latim, mas não o grego, o que não o impediu de citar os clássicos em seu sermão. Não sabia náhuatl, a língua dos mexicas, mas inventou ou seguiu as etimologias de Inácio Borunda, fonte de quem o frei teria sorvido as idéias sobre a aparição da Virgem38. Mier costurou, adequou, retirou e parafraseou para que o texto
alcançasse o resultado que desejava. Se o documento não contribuía como pensava, inventou e
37 Teresa foi adicionado em seu nome em razão da sua ordenação como dominicano, em honra à santa de mesmo nome. 38 HENESTROSA, Andrés. “Prólogo”. In: TERESA DE MIER, Servando. Historia de la Revolución de Nueva España.
exagerou a fantasia, dando-lhe uma convincente aparência de verdade. Além disso, convertia toda escrita alheia como se fosse a sua própria citando sem aspas trechos de autores renomados, como Miguel Cervantes. Embora muitos estudiosos o vejam como imaginativo, novelesco, repetitivo, egocêntrico e desviante é preciso concordar com Henestrosa ao dizer que “quien usó la historia como polémica, la oratória como historia, la politica como patriotismo, la vehemencia como expresión diaria, es digno de figurar entre los mejores”39.
É nessa encruzilhada, em que todas as saídas levam a um único caminho, que se inicia a vida de aventuras, perseguições, descobertas e fugas do dominicano. Faz-se necessário, antes de se analisar sua obra em maior profundidade, compreender o contexto intelectual em que Mier se vê inserido à época de criação do Sermão Guadalupano, tendo-se por objetivo traçar um panorama das influências recebidas em um momento anterior ao seu engajamento revolucionário, que se dá somente após a condenação ao exílio na Espanha e sua chegada ao Velho Mundo.
2.1 Universo intelectual de frei Servando Teresa de Mier antes do exílio na Europa
Antes de se avançar na análise do Sermão Guadalupano de 1794, é preciso realizar um breve estudo sobre a rede de pensadores e idéias em que Frei Servando estava inserido. Fontes com as quais dialogava e nas quais encontrava inspiração em um momento anterior ao seu exílio na Europa e o contato com os clássicos da Ilustração ocidental. Faz-se necessário dizer que, conforme o próprio frei afirma em suas Memorias, seu contato com a literatura da elite intelectual da Nova Espanha era profundo e evidente em seus escritos. Os clássicos da literatura da conquista como Torquemada, Motolínea, Sahagún, Singüenza y Góngora, bem como os ilustrados da geração de 1750, Boturini, Bartolache, Clavijero, e Muñoz, guiaram os escritos de Mier e principalmente tornam-se referências para obras posteriores sobre a história da Nova Espanha, como se verá na
Historia de la Revolución de Nueva España. É preciso dizer que Miguel de Cervantes e as
aventuras de seu cavaleiro Don Quijote de La Mancha, são sempre citados nos momentos em que as aventuras narrativas de Mier se perdem na sutil fronteira entre realidade e ficção.
Mesmo em contato com novas idéias, vindas dos intelectuais espanhóis, franceses e ingleses, Mier continuaria em permanente diálogo com as fontes documentais que dão suporte à produção histórica e intelectual da Nova Espanha. Contudo, é pela influência de um outro dominicano que frei Servando sentiria pesar sobre si o dever de guiar espiritualmente a América revolucionária. Este dominicano não seria ninguém menos que o Frei Bartolomé de Las Casas (1474 - 1566). Originário de Sevilha, Las Casas teve aulas na escola da catedral, dirigida no período por grandes humanistas da Espanha, como Antônio de Nebrija, que contribuiu para a formação latinista do sacerdote. Sua iniciação na vida religiosa aos 18 anos não o impediria de ir para o Novo Mundo em 1502, na expedição comandada por Nicolás Ovando. Assim como outros conquistadores, ele próprio possuía
uma encomienda e seus índios trabalhavam na lavoura e nas minas. É somente em 1514 que Las Casas desiste das encomiendas próprias e experimenta uma profunda crise de sentimentos. Essa crise é produzida em razão do maior contato com dominicanos recém chegados da península que iniciaram o debate público acerca do tratamento dado aos indígenas, fazendo com que o sacerdote aprofundasse suas concepções acerca da natureza dos índios.
Outro elemento que contribuiu para a mudança de postura de Las Casas em relação à população indígena foi também seu espanto com relação ao método “pacificador” operado pelos conquistadores espanhóis. Os estudiosos Lewis Hanke40 e José Alcina Franch41 concordam que
dizer que as cenas de violência e extermínio de que se tornara testemunha com a expedição de Ovando lhe causaram profundo impacto e por isso ele passou a expressar o desejo de reformas sobre o sistema de exploração indígena. Seu ideário em prol das castas e da população americana lhe valeriam o título de defensor dos índios, outorgado pelo Cardeal Francisco Ximenéz de Cisneros e, em 1543, ele seria nomeado bispo de Chiapas.
Principal criador da lenda negra da Espanha, Las Casas dedicaria sua vida a promover reformas políticas em relação ao tratamento indígena, não cessando em escrever inúmeros trabalhos em defesa do índio e em denunciar a política denegridora impulsionada pela Coroa espanhola. Suas construções teóricas o envolveram na grande controvérsia perante o tribunal da Inquisição de Valhadoli, em 1542, cujas principais vertentes foram defendidas pelos grandes intelectuais do período: Francisco de Vitoria, Juan Ginés de Sepúlveda e o próprio Las Casas.
Vitoria estudou na Universidade de Paris e foi titular, na Universidade de Salamanca, da primeira cadeira de Teologia, abrindo um seminário para estudar a questão indígena. Em sua obra
Relaciones sobre los índios y el derecho de guerra, atacou a teoria de os índios serem escravos,
seguindo o pensamento de Aristóteles em que alguns homens, por sua natureza, deveriam ser governados por outros, sem justificar a escravidão. Refutou a doutrina canônica da monarquia universal do papado, pois, segundo Torquemada, Cristo jamais havia dito que o seu domínio era temporal, disso se seguia que o papa não teria direito para dispor dos reinos materiais e muito menos de ceder domínios42. Sepúlveda era padre e auxiliar do rei Carlos I e também o mais
arraigado ao pensamento colonizador de superioridade racial e cultural do homem europeu sobre a figura do indígena. Em seu Tratado sobre las justas causas de la guerra contra los índios, Sepúlveda defendeu a justiça das conquistas da Espanha e o império do Novo Mundo. Para ele a incapacidade dos índios em constituir uma sociedade governada por leis justas e racionais era
40Ver HANKE, Levis. “Estudo preliminar”. In: LAS CASAS, Bartolomé de. Historia de las Indias. México: Fondo de
Cultura Económica, 1995.
41 Ver FRANCH, José Alcina. Bartolomé de Las Casas. Madri: Quorum, 1987.
justificativa suficiente para a conquista, pois eram mais bestas do que homens racionais, por apenas possuírem vestígios de humanidade43.
Já Las Casas acreditava que não existiriam nações no mundo, por mais rudes e selvagens que fossem, que não pudessem ser conduzidas à civilização, desde que usadas habilidade, doçura e amor para se conseguir esse fim. A razão estaria no fato de que todas as nações seriam compostas por homens e todos eles seriam racionais, possuidores de inteligência e vontade, pois seriam à imagem e semelhança de Deus. Las Casas considerou injustas todas as guerras de conquista dirigidas contra os índios e como tirânico o governo que se instalasse dessa forma. Ele argüía, que uma vez batizados, os índios tornavam-se súditos do rei da Espanha e em havendo qualquer rebelião a culpa recaía no monarca, pois já cristãos, os índios poderiam resistir com todo o direito à tomada da liberdade e da propriedade.
Para o professor doutor de História do México na Universidade de Cambridge e diretor do Centro de Estudos Literários Latino-americanos David A. Brading, a proposta mais clara das idéias de Las Casas sobre a conversão e a questão indígena encontra-se na sua obra Del único modo de
atraer a todos los pueblos a la verdadera religión, escrita no México entre 1538-154044. Segundo o
historiador inglês, esse seria o texto mais teológico dos seus escritos, que tem por premissa principal afirmar que todos os povos do mundo possuem a mesma gama de qualidades humanas e que, em todas as nações, Deus predestinou certo número desconhecido de almas à salvação eterna. Por isso, seria uma necessidade espiritual que se pregasse o Evangelho universalmente a todos os homens e que deveria ser propagado com amor e por meio da persuasão racional. O caminho da fé seria, portanto, igual ao do conhecimento, ambos seriam alcançados por meio da convicção intelectual. Por isso era importantíssima a figura do apóstolo, do guia moral que não almejaria riquezas ou glórias, mas que oferecia sua vida às verdades que pregava. Mier sentia que, como Las Casas, a ele cabia o labor de um apóstolo do presente, sempre desperto e atento para conduzir os povos ignorantes a caminhos seguros, onde imperassem a concórdia e a justiça, dispostos a fundar na América uma nova Igreja, depurada da corrupção terrena.
Em 1542, Las Casas compõe a Brevísima relación de la destrucción de las Índias. Las Casas define os indígenas como o povo mais dócil e disposto a conversão pela verdadeira fé. Os espanhóis são apresentados como tiranos e assassinos cruéis de seres quase indefesos. A conquista foi seguida de exploração e barbárie que dizimou cerca de 15 milhões de índios. A estrutura do texto está marcada por repetições e descrições de atrocidades, algumas delas por ele presenciadas, apresentadas de modo aberto para causar desconforto em quem lê. Estilo de narração a ser repetido na obra Historia de La Revolución de Nueva España, na qual Mier elenca as atrocidades cometidas
43 Idem.
44 BRADING, David A. Orbe indiano – de la monarquía católica a la república criolla, 1492-1867. México: Fóndo de
contra o exército insurgente pelas forças regalistas, em contraste com a nobreza de caráter e civilidade dos revolucionários. Fica manifesto que Mier substitui a imagem do bom selvagem, decisiva no século XVI, pela do bom criollo decisiva no processo de independência mexicano.
Entre os anos de 1547 a 1566, Las Casas dedica todos os seus esforços a uma extraordinária ação de ataque contra os conquistadores, e humanistas que os elogiavam, em virtude de terem levado a civilização aos conquistados. Em Historia de las Índias, Las Casas descrevia a América como lugar edênico, anterior à queda de Adão, em que todos viviam em paz e inocência. A Divina Providência quis que o paraíso fosse destruído pelo reino das trevas e os conquistadores eram sem dúvida, regidos pelo diabo. Somente com a chegada dos dominicanos se fez um esforço para se pregar o Evangelho e para denunciar o descalabro de que eram vítimas os índios, visto que os franciscanos, presentes desde o início da conquista e envolvidos com a venalidade dos espanhóis, pouco fizeram pela questão indígena. Las Casas exaltava a virtude dos seus irmãos de ordem e profetizava sobre a vida dos defensores dos pobres e dos humildes, revelando Historia de las Índias sua própria vida e obra missionária como obra da providencia divina.
Importante foi assim a influência de Las Casas sobre o surgimento de uma tradição política na América Espanhola45. Brading conta que Mier o chama de gênio tutelar das Américas e pai dos
índios ao afirmar que as leis das Índias não seriam mais que conclusões dos escritos de Las Casas. Mier se atribui o dever de dar continuidade ao trabalho de Las Casas. Sua obra possui características narrativas em muito semelhantes às do padre defensor dos indígenas, como a verve épica e a tônica bíblica, como se ambos fossem apóstolos emergidos do cristianismo primitivo. Como Las Casas, Frei Servando sentia pesar sobre seus ombros o dever de guia moral do povo mexicano no período de formação do estado nacional, bem como reproduzia a visão maniqueísta de espanhóis-maus versus americanos-bons, sejam eles índios ou criollos.
O Sermão Guadalupano de 1794 está impregnado dessa vocação messiânica de que se sentia investido frei Servando. O impacto dessa pregação no espaço interno da Igreja e no espaço público da Nova Espanha foi notável, como observar-se-á na análise da vida e obra do mexicano. Antes de se abordar os elementos presentes no sermão, importa retraçar a origem da devoção popular mexicana a Nossa Senhora de Guadalupe.
3. O Milagre da aparição de Nossa Senhora de Guadalupe e seu debate no universo intelectual da