Neste capítulo apresentamos a experiência desenvolvida com o fim de implementar e
validar o método proposto para a especificação multilingue de ontologias, realizada com base num caso de estudo. A experiência, que descrevemos ao longo do capítulo, foi realizada no âmbito do projecto H‐Know ‐ Advanced Infrastructure for Knowledge Based Services for Buildings Restoring138 (H‐Know), e consistiu na aplicação do método na especificação multilingue de uma ontologia do domínio da Reabilitação, construída de modo partilhado, no âmbito da rede colaborativa do projecto H‐Know.
O capítulo descreve e contextualiza o caso de estudo, bem como as diferentes fases seguidas na implementação da experiência, apresenta e analisa os principais resultados
decorrentes da experiência realizada, tendo em conta também as hipóteses que colocamos
e que orientaram este estudo, e considera, finalmente, as limitações decorrentes da aplicação do método.
De modo a implementar o método e a recolher os resultados da experiência para
análise, agimos, enquanto investigador participante no projecto H‐Know, como
observadores participantes no desenvolvimento do caso de estudo, assumindo, para além
do papel de observador, os papéis de terminólogo e tradutor/localizador.
4.1. Caso de estudo – especificação multilingue da ontologia H‐Know
Para o desenvolvimento desta dissertação e a experimentação do método proposto,
seleccionamos como caso de estudo o projecto europeu H‐Know ‐ Advanced Infrastructure
for Knowledge Based Services for Buildings Restoring. Este projecto, que envolveu parceiros de cinco países europeus139, teve como objectivo a construção de uma plataforma colaborativa que permitisse o acesso ao conhecimento do domínio da reabilitação, restauro e manutenção do património edificado, sendo dirigido fundamentalmente às Pequenas e
138
Projecto Europeu do 7º Programa Quadro, que se iniciou em Janeiro de 2009.
Médias Empresas (PME) e aos Institutos de Investigação e Desenvolvimento (I&D) daquele sector.
O projecto H‐Know, tal como retratado na figura seguinte, preconizava a criação de um
ambiente tecnológico específico que promovesse e fomentasse a partilha e reutilização do
conhecimento especializado das empresas e dos especialistas do domínio de modo
interactivo e colaborativo.
Fig. 16 – Conceito de alto nível do sistema H‐Know
Como referimos anteriormente, assiste‐se, hoje, a um aumento de qualidade nos processos de interacção e partilha dos recursos de conhecimento das organizações, através,
por um lado, de um maior envolvimento dos diferentes interlocutores em formas eficazes e
inovadoras de colaboração, como é o caso da criação de redes colaborativas e, por outro, do
desenvolvimento de sistemas de gestão da informação e do conhecimento mais robustos,
como os sistemas de gestão do conhecimento baseados em ontologias.
O projecto H‐Know procurou, neste contexto, desenvolver uma abordagem
património e de edifícios antigos140, através da criação de uma plataforma colaborativa, cuja arquitectura se representa abaixo, que proporcionasse aos actores envolvidos no projecto e
aos futuros utilizadores da plataforma um acesso avançado e sistemático ao conhecimento
sobre processos, materiais e actores neste domínio específico da Indústria da Construção (IC). Para alcançar esses objectivos, a investigação desenvolvida abrangeu as seguintes vertentes:
desenvolvimento de metodologias para a criação de redes virtuais de PME e Institutos
de I&D, apoiadas por um conjunto de modelos e de métodos de criação de redes e
espaços colaborativos. Estes têm em conta os aspectos organizacionais, culturais e técnicos e os procedimentos e modelos de estruturação e gestão do conhecimento especificamente adaptados às PME do sector; desenvolvimento de plataformas de apoio, albergando um conjunto de serviços para a gestão das interacções sociais, gestão do conhecimento e de formação em e‐learning; desenvolvimento de serviços de apoio à gestão de conhecimento que resultassem na partilha eficiente do conhecimento do domínio no seio da rede colaborativa (H‐Know, 2010)141.
140 Pereira (2010: 38), partindo de abordagem sócio‐semântica, entende a conceptualização das redes colaborativas como redes epistémicas, onde são representados os relacionamentos entre os actores da rede e as estruturas conceptuais. Tendo por base Roth (2006), a autora considera uma rede epistémica como sendo composta por três redes: “uma rede social (envolvendo ligações entre
indivíduos, neste caso representando organizações), uma rede semântica (com ligações entre conceitos e sistemas de conceitos) e uma rede socio semântica (a qual liga indivíduos a sistemas de conceitos). No final todos os parceiros pertencentes a rede colaborativa estarão ligados a um sistema de conceitos da mesma forma, ou seja, a rede semântica que representa a conceptualização partilhada”. A rede colaborativa H‐Know assume, a nosso ver, e tendo em conta a
definição anterior, características de rede epistémica.
Fig. 17 – Arquitectura do sistema H‐Know
Este projecto procurou, assim, através do desenvolvimento de um conjunto de métodos e ferramentas dedicados à gestão do conhecimento, à formação específica e à interacção social, implementar soluções inovadoras, centradas na partilha e reutilização de
conhecimento no seio de uma comunidade colaborativa constituída por PME, Associações e
Institutos de I&D da área da reabilitação142.
Centrou, por isso, parte da sua atenção nos aspectos relacionados com a construção social de uma conceptualização partilhada do conhecimento, nos acordos sociais feitos sobre uma conceptualização do domínio, nos diferentes tipos de actores envolvidos no processo e nas metodologias e ferramentas disponíveis para apoiar a construção da conceptualização do domínio e a sua localização, bem como na identificação dos recursos e fontes de informação disponíveis para apoiar os processos de conceptualização e localização.
Seguiu‐se, deste modo, uma abordagem à gestão do conhecimento baseada em ontologias com o intuito de criar uma ontologia de domínio, desenvolvida de modo colaborativo e cujos objectivos se centraram em:
142 A comunidade que formava a rede colaborativa H‐Know pode ser descrita, de modo breve, como uma
entidade sociocultural complexa e especializada, de carácter multicultural e multilingue, com objectivos de colaboração e partilha, composta por um conjunto de intervenientes especialistas cujo saber é diversificado e transdisciplinar.
1. develop an infrastructure to efficiently and effectively organize, classify and retrieve information and knowledge,
2. supply H‐Know users with a common ground for a shared understanding of terms and concepts when engaging in the VBE/VCN143 activities, and
3. develop a tool for interoperability when proprietary databases and knowledge bases need to
communicate with the H‐Know system. (Soeiro, 2010: 03)
A abordagem seguida no âmbito do projecto para a construção da ontologia de domínio considerou dois níveis e etapas distintas. A primeira etapa centrou‐se no desenvolvimento de uma ontologia de alto nível – a H‐Know Global Ontology (H‐KnowG), criada, num primeiro momento, com recurso à língua inglesa, e, posteriormente, localizada para as línguas dos diferentes parceiros do projecto. Numa segunda etapa, proceder‐se‐ia à construção de ontologias locais – H‐Know Local Ontologies (H‐KnowL), que seriam posteriormente alinhadas e integradas com a ontologia global, tal como se descreve na figura seguinte. Fig. 18 – Processo de construção da ontologia H‐Know: da H‐KnowG (global) às ontologias H‐KnowL (locais) 143 VBE – Virtual Breeding Environment; VCN – Virtual Collaborative Network.
A decisão de seguir esta metodologia foi tomada após análise cuidada dos requisitos apresentados pelos actores do projecto, de modo a responder às necessidades profissionais, culturais e linguísticas particulares de cada parceiro H‐Know, bem como ao contexto social e profissional em que a(s) ontologia(s) e a plataforma H‐Know seriam utilizadas. Por outro lado, as duas etapas correspondem a necessidades e objectivos diferentes da rede H‐Know: a primeira, de estruturação e representação da informação do domínio de
mais alto nível e de obtenção de consenso entre os especialistas dos diferentes países; a segunda, de estabelecimento de negócios e partilha de conhecimento a um nível mais local, em que, previsivelmente, será necessário o uso de informação e conhecimento mais específico. Esta decisão de optar pela construção de mais do que uma ontologia representando níveis distintos, seguiu abordagens testadas em projectos anteriores do domínio da IC, como o Know‐Construct144, e as recomendações da norma ISO 12006‐2145.
A solução adoptada pretendeu, assim, desenvolver um sistema de gestão do conhecimento construído com base em “distributed ontologies, locally managed and centrally integrated into H‐KnowG, with intention to adopt in the future the usage of a global ontology” (H‐Know, 2010)146. Em termos tecnológicos foi tomada a decisão de implementar e fazer a manutenção da ontologia utilizando as aplicações Protégé147 e OntoWiki148.
4.2. Implementação do método no contexto do caso de estudo
Como resulta dos objectivos do projecto H‐Know e da tipologia multilingue da sua rede de parceiros, tanto o conhecimento do domínio a disponibilizar, como a representação
144 http://www.know‐construct.com/index.htm 145
Como afirma Ekholm (2005: 275), o sector da construção assume, tradicionalmente, um carácter nacional e regional. Refere, no entanto, o desenvolvimento crescente de normas que procuram contribuir para a normalização da gestão de informação no sector, de que destaca duas:” there are two major international
candidates for core ontologies common to the sector, ISO 12006-2:2001, Building construction - Organization of information about construction works – Part 2: Framework for classification of information (ISO 2002), and Industry Foundation Classes, IFC, developed by the International Alliance for Interoperability, IAI (IAI 2000)”.
146 H‐Know D1.3 System Concept. http://h‐know.eu/project‐overview/wp‐deliverables 147http://protege.stanford.edu/download/ontologies.html
148