Como sugeri no segundo capítulo, a definição e o uso feito por Simon do conceito de
organização são bastante fluidos. O conceito de organização é um conceito formal, mais no
sentido de estrutural do que de rigoroso, e é aplicado à diferentes realidades a partir de recortes destas. Estes recortes não são totalmente arbitrários, mas são bastante flexíveis. Correspondem ao que Simon (1996b: 184) chama de subsistema. As características importantes dos subsistemas, tais como Simon os pensa, são duas: primeiro, o subsistema compreende um conjunto de interações significativas e, segundo, o subsistema deve ser em alguma medida “isolado”, ou seja, que o conjunto de interações no subsistema seja mais relevante do que as interações entre os diferentes subsistemas, ou seja, que as interações
dentro do subsistema sejam significativamente mais intensas do que entre os subsistemas.163 Associando esta idéia de subsistema a grupos sociais temos as organizações. Assim, explorando as possibilidades lógicas do conceito, uma organização pode ser uma família, uma firma, um clube, uma cidade, uma sociedade inteira etc. Simon, ao menos explicitamente, faz uso do conceito de maneira mais próxima do senso comum, mas sempre explora brechas da generalidade e do grau de abstratividade do conceito.
Uma destas “brechas” mais utilizadas é a de se pensar a sociedade como uma organização: Simon faz isso implicitamente de forma regular. O argumento explícito usado por ele é o de que suas proposições são válidas ou relevantes para uma teoria das organizações, mas a definição adotada para este conceito é bastante ampla, quase confundindo-se com outros como o de instituição social, no sentido de um padrão regular (pattern) de relações num determinado grupo social. Na definição do autor:
In the pages of this book, the term organization refers to the complex pattern of communication and relationships in a group of human beings. This pattern provides to each member of the group much of the information and many of the assumptions, goals, and attitudes that enter into his decisions, and provides him also with a set of stable and comprehensible expectations as to what the other members of the group are doing and how they will react to what he says and does. (Simon, 1976a: xvii)
O próprio argumento de que as organizações fornecem estabilidade ao ambiente decisório dos agentes é muito semelhante ao institucionalista. Os termos organização e instituição são eventualmente, embora não freqüentemente, utilizados de forma análoga ou equivalente.164 A intenção parece ser, de fato, a de deixar fluida a fronteira daquilo que deve ser incluído no conceito de organização. Tanto em Simon (1947, 1976a) quanto em March e
163
Uma analogia pode deixar isso menos árido. O conteúdo de um copo de água é composto por um conjunto de moléculas do elemento. As forças intramoleculares (a “interação”) são muito, ordens de grandeza, superiores às forças intermoleculares. Cada molécula de água pode, então, ser entendida como um subsistema do “copo”. Cada molécula pode ter o seu comportamento estudado, e previsto de forma aproximada, quase isoladamente, bastando para tanto conhecimento sobre o comportamento agregado do copo. Por outro lado, cada molécula é composta por três átomos e, mais uma vez, as forças intraatômicas são ordens de grandeza maiores que as interatômicas. Assim, cada átomo pode ser entendido como um subsistema da molécula. Cada átomo é composto de elétrons, prótons e nêutrons. E assim por diante. E no outro sentido também poderíamos seguir: molécula, célula, tecidos, órgãos, organismo etc. O subsistema constitui uma subdivisão “natural” do sistema. O ponto crucial é que Simon (1996b) entende que este tipo de organização, que ele chama de hierárquica, é característica bastante geral do mundo em que vivemos. Em particular aqui, é aplicada às organizações.
164
Como no seguinte trecho: “It was mentioned several times in this chapter that the mechanisms leading to the integration of behavior might be interpersonal. If organizations and social institutions be conceived, in the broad sense, as patterns of behavior, it is not hard to see that the individual’s participation in such organizations and institutions may be the source of some of the most fundamental and far-reaching integrations.” (Simon, 1947: 100)
Simon (1958) o objeto de estudo explícito é o comportamento no interior de organizações. No entanto, o único trecho nestas duas obras que encontrei voltado à distinção entre organização e sociedade atesta que a diferença está na especificidade das influências exercidas no interior de uma organização, quando comparado com a difusão delas fora da organização.165 Há que se notar, no entanto, que esta é uma distinção apenas relativa, que não altera a qualidade das coisas: a diferença é apenas de grau. Processos de influência na sociedade podem ser analisados pela mesma estrutura teórica, e afinal de contas, por que uma sociedade não poderia ser vista como “um padrão complexo de comunicações e relações em um grupo de seres humanos”?
De fato, quando Simon (1976a) contrapõe sua teoria com teorias sociológicas, ele escolhe duas teorias bastante gerais: a teoria da ação social, de Talcott Parsons, e a teoria dos papéis (role theory), e as ataca num plano bastante geral, alegando que nem uma ação, e nem um papel são unidades adequadas de análise para uma teoria comportamental.166 Como vimos acima ele advoga a premissa, unidade mais fina, como mais adequada. Neste sentido, acredito que podemos entender a teoria das organizações de Simon como tendo pretensões de teoria social ou comportamental mais geral, embora isso seja raramente explicitado. Acredito que o melhor exemplo da pretensão de generalidade da teoria comportamental de Simon se encontra na coletânea de artigos Models of man, social and rational, em seu prefácio consta o seguinte:
For when these essays are viewed in juxtaposition, it can be seen that all of them are concerned with laying foundations for a science of man that will accommodate comfortably his dual nature as a social and a rational animal. (Simon, 1957: vii, ênfase minha)
Assim, essa generalidade do conceito de organização ajuda a explicar também a flexibilidade da teoria comportamental de Simon a diferentes contextos, conforme discutido anteriormente. Tendo estas considerações em mente, podemos agora analisar os mecanismos de influência organizacional que engendram, como já disse, o contexto no qual o comportamento se dá.
165
“If we wished to sum up in a single quality the distinctive characteristics of the influence processes in organizations, as contrasted with many other influence processes of our society, we would point to the specificity of the former as contrasted with the diffuseness of the latter.” (March e Simon, 1958: 2-3)
166
Alguns anos antes, no entanto, Simon (1963) tentou vestir sua teoria como uma versão melhorada da teoria dos papéis.