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litt om materielltjenestens historien fra 1945 til 1992

a) Maria Cristina Prando

Maria Cristina nasceu em janeiro de 1946, na Província L’Aquila, região dos Abruzzos, filha de Umberto Liberatore e Assunta, e foi criada em Ateleta57, cidade próxima de onde nascera. Logo depois que a guerra terminara, a população local tentava se reestruturar com a ajuda do governo italiano, pois a cidade ficara destruída com a guerra.

Figura 60 – Maria Cristina Prando – s/d

Fonte: Acervo do LAPHO.

“A cidade onde fui criada fica no meio das montanhas, tem mais ou menos dois mil anos e foi totalmente destruída durante a guerra. então foi refeita depois da guerra. Tentaram manter as mesmas estruturas, mas claro, um pouquinho mais modernas, fizeram banheiros dentro, antes não tinha” (PRANDO, 2011, p. 06). O trauma da guerra, a carestia, o temor de outra guerra fez com que muitos moradores decidissem ir embora para outros países, em busca de uma vida melhor. No período correspondente aos anos de 1950 e 1957 houve uma imigração em massa de populares para a Bélgica e a Venezuela; eles iam trabalhar nas minas ou reunir-se com seus familiares. A maioria dos imigrantes era proveniente de regiões da Campanha, da Sicília, da Puglia e de Abruzzos (LAMBO 2014, p. 15).

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Ateleta encontra-se em uma colina chamada Colle Sisto, em um vale situado no lado esquerdo do rio Sangro, ao longo da fronteira que divide Abruzzo de Molise. Durante a guerra, em novembro de 1943, os bombardeiros alemães quase destruíram o lugar e os alemães, antes de se retirarem, mataram parte da população, inclusive velhos e crianças, em um lugar chamado Pietransieri. Depois da guerra a aldeia foi totalmente reconstruída. (ITALYHERITAGE.COM).

Figura 61 – Ateleta – s/d

Fonte: Acervo do LAPHO.

Se registrava, em 1950, a saída de 8.863 italianos originários das Províncias de L’Aquila, Chieti, Pescara e Teramo, que se dirigiram para as Américas ou para a Austrália. O Brasil, no período, recebeu um total de 3.085 imigrantes entre 1950-1953. Desses indivíduos, 924 eram de Pescara, 852 teramani, 829 teatini e 480 aquilani (BENEDINI; ARQUILLA, 2007, p. 17). Cristina integrou o contingente da “imigração espontânea” que veio para o Brasil através de chamado dos familiares residentes no país.

Conta que a vinda da família foi direcionada ao Brasil porque um tio, irmão de sua mãe, era padre e trabalhava em Guaporé, no Rio Grande do Sul. A viagem foi assistida pelos padres scalabrinianos58, que auxiliaram a vinda da família. Primeiro veio o pai, em 1951, para ensinar o oficio de sapateiro aos meninos do Orfanato Educandário São Luiz, mantido pela congregação de Don Guanella59. A sede da congregação se localizava na cidade de Porto Alegre. Dois anos mais tarde vieram os outros membros da família, a mãe, ela, com sete anos de idade, e o irmão Giacomo, com onze anos. Durante sete meses os padres ajudaram a família, fornecendo abrigo e refeições para todos. O pai abriu uma sapataria na Lima e Silva

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Comunidade internacional de religiosos que acompanham os migrantes das mais diversas culturas, crenças e etnias. Fundada em 1887 por João Batista Scalabrini, Bispo de Piacenza (Itália). Fundada no período da grande imigração da Itália para as Américas atuou e atua de forma socialmente marcante nos processos migratórios. (SCALABRINI.ORG).

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O Educandário São Luiz teve início em 1947, numa casa de madeira na Avenida General Lima e Silva, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Como o espaço era pequeno, começou a procura de um outro lugar mais amplo e surgiu na Vila Ipiranga a localização ideal. Na época os proprietários da área, Irmãos Benno e Frederico Mentz, da Urbanizadora Mentz, estariam loteando suas terras e doaram um terreno para a edificação do Educandário São Luiz. A nova sede foi inaugurada em 28/10/1952. No início os meninos eram abrigados em regime de internato, anos mais tarde adotou-se o sistema de semi-internato. Hoje o Educandário atende no Turno Inverso à Escola em regime de SASE – Serviço de Apoio Socioeducativo. OBRASSOCIAISDOMGUANELLA1.BLOGSPOT.COM.BR).

e, com recursos provenientes da mesma, comprou terreno e construiu uma casa na Vila Ipiranga.

Figura 62 – Assunta Ciotola Liberatore com os filhos60

Fonte: Prando (2010, p.136).

Quanto aos trâmites de partida, recorda que levaram meses para liberarem a família por causa de uma conjuntivite que ela contraíra antes da vinda. A mãe inclusive recorreu ao cônsul em Roma mas, sua tentativa de liberação não obteve êxito já que, segundo as normas de imigração, todos deveriam estar em perfeitas condições físicas e mentais. Após a terceira tentativa obteve permissão e foram para o porto de Gênova para embarcar rumo ao Brasil. Foram dezessete dias de viagem em que a mãe permaneceu na enfermaria do navio. Grande parte dos passageiros que iam para São Paulo e Argentina era imigrante e foram solidários ajudando a cuidar dela e do irmão (PRANDO, 2011, p. 8).

Desembarcaram em Santos, onde os padres scalabrinianos os acolheram e hospedaram em um colégio na cidade de São Paulo; depois prosseguiram a viagem de trem até Passo Fundo, de lá rumaram para Porto Alegre de ônibus. Lembra que, quando chegaram, a mãe chorava muito, ficou desiludida, por que o pai não construíra a casa para a familia, tinha apenas comprado um terreno. “[...] no começo ficaram hospedados em uma peça no colégio dos padres e faziam as refeições no refeitório junto com internos, para a mãe foi um choque. E comer arroz e feijão todo o dia...” (PRANDO, 2011, p. 9). Alguns imigrantes tiveram suas expectativas frustradas ao chegarem ao Brasil; em geral, as mulheres mais velhas tiveram uma cota de sofrimento marcada pelas mudanças e alterações de hábitos cotidianos.

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Giacomo Liberatore (11 anos) e Maria Cristina Liberatore (07 anos). Foto do passaporte na vinda para o Brasil em 1953.

Ao chegarem à cidade de Porto Alegre Maria Cristina foi estudar em um colégio na Lima e Silva. No ano seguinte mudaram para a Vila Ipiranga onde continuou os estudos no colégio interno das freiras carlistas na cidade de Bento Gonçalves. Retornou para a capital e continuou os estudos no Colégio Bom Conselho. Foi nessa escola que enfrentou preconceito relativo à sua condição financeira que dificultou o relacionamento com algumas colegas de classe. Encontrou amizade nas patrícias oriundas de Morano Calabro, que tinham uma condição financeira proeminente. Desse modo, consolidou sua rede de relacionamentos na região central da cidade de Porto Alegre, onde predominavam as casas dos imigrantes calabreses.

Cristina recorda que suas relações se ampliaram quando começam suas atividades sociais além do espaço familiar. Até então seu único divertimento era passear com o pai, com a mãe e com o irmão na Praça da Alfândega, frequentar os cinemas que funcionavam no entorno da praça (PRANDO, 2011, p. 12). Os cinemas ficavam na Rua da Praia em frente à Praça e próximo ao Clube do Comércio. Eles garantiram que durante muitos anos o local onde estavam localizados e seu entorno fosse o principal point da cidade para o footing. Nas tardes dos sábados e domingos dos anos 1950 e 1960 os jovens estacionavam seus carros na diagonal, ao meio-fio da praça – e, sentados sobre os para-lamas, observavam as meninas que desfilavam na calçada oposta.

Na época os cinemas proliferavam na capital gaúcha, e Cristina, frequentava a maioria deles. Não recorda o nome de todos, mas havia salas na Avenida Assis Brasil, no Rosário, na Avenida Getúlio Vargas, no Quarto distrito, na Avenida Azenha e na Avenida Salgado Filho. Cristina lembra com saudades, por que a maior parte deles não existe mais. Agora estão localizados nos shoppings61, “[...] imagine todas as coisas que tinha naquela época e hoje em dia não tem mais nada...” (PRANDO, 2011, p. 15). Através das suas lembranças é possível perceber algumas transformações que a modernidade trouxe à capital gaúcha e que suas lembranças têm como referência o presente, onde busca parâmetros comparativos de mudanças que ocorreram através do tempo.

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A era de Shopping Centers no Brasil começou formalmente em novembro de 1966, com a inauguração do Shopping Center Iguatemi, em São Paulo. Projeto idealizado e desenvolvido pelo empreendedor, Alfredo Mathias, com fundos de investidores que foram arrecadados através de um sistema de quotas vendidas de “porta-a-porta”. O Iguatemi no início contava com uma área de 25.425 m2 de área bruta para locação – hoje essa área é de 33.825m2. Entretanto, a indústria nacional dos shoppings se consolidou somente na década de 1970, com o Matarazzo e o Ibirapuera. Desde então houve uma proliferação do ramo em todo o país e o primeiro a ser construído no Rio Grande do Sul foi o Iguatemi, em Porto Alegre. (SEMMA.COM.BR).

Figura 63 – Rua da Praia – 1950

. Fonte: WP. CLICRBS. BR

As mudanças se refletiam no ofício do pai, em decorrência das novas demandas do mercado; passou de “oficio” de sapateiro, que era designativo daquele que fabricava artesanalmente o sapato, para a atribuição de sapateiro/consertador, denominação de quem fazia pequenos reparos nos calçados. A partir da década de 1950 ocorreu a intensificação do processo de industrialização do setor calçadista, com a implantação de modernas técnicas de produção, voltadas para o aumento da produtividade. Essas transformações já se operavam em sua terra natal quando o pai percebera a escassez de trabalho e a desvalorização de sua mão de obra em detrimento dos calçados industrializados que não requeriam habilidade manual.

Figura 64 – Maria Cristina Prando (ao centro) e alunos do Curso de italiano (ACIRS) – s/d

Dentro desse cenário de mudanças Cristina concluiu sua formação no Instituto de Educação, no curso de Pedagogia. Trabalhou a vida inteira com educação e se aposentou como orientadora educacional. Entretanto, seu espírito inquieto não se conformava em ficar em casa. Recebeu convite para lecionar na Associação Cultural Italiana do Rio Grande do Sul (ACIRS), fez curso de aperfeiçoamento e passou a ministrar aulas de italiano. Somente retornou à Itália para um curso de capacitação de patrocinado pela Associação.

Foi a primeira vez que eu voltei. A primeira vez fui com aquela emoção, louca pra voltar, pra rever minha cidade... Claro que também cheguei lá e me decepcionei, porque eu tinha saído de lá pequena, quando se é pequena tudo é grande. Chegando lá e não é bem assim... As pessoas já não moram mais lá, muitas se foram... (PRANDO, 2011, p. 15).

Cristina apresenta o confronto entre a Itália imaginada e a vivida, que se manifesta através das expectativas frustradas quando o imigrante efetua um retorno ao lugar onde nasceu. Deve-se levar em conta que são expectativas de uma menina dimensionadas pelas lembranças a partir do seu lugar social e espacial. Ela congelou suas lembranças no tempo e, ao voltar, percebeu que nunca se retorna ao estado original das coisas e lugares.

A memória de Cristina aponta para uma busca constante de suas origens fomentada pelas atividades culturais que participa ativamente desde o casamento. Relata que, com o marido, de origem veronesa, natural de Nova Bassano, ajudou a fundar e tornou-se presidente da Sociedade Veronesa, que atualmente está com as atividades suspensas. Juntamente com o marido e outras doze famílias, fundou a Associação dos Italianos dos Abruzzos, da qual ainda é representante:

A associação foi fundada no dia 5 de agosto, desde então, sempre se promove um encontro anual com o grupo de associados para comemorar a vinda desses imigrantes e na ocasião convidamos também membros de outras comunidades. Já fizemos muitos encontros [...] como missa na igreja da Pompeia, apresentações sobre a região na ACIRS, na Sociedade Italiana, degustações de vinhos e de produtos típicos da região feitos por nós... Nessas ocasiões decoramos o local da festa com materiais e folders sobre a região. (PRANDO, 2014).

A imagem que segue representa um desses momentos. Foi tirada durante uma festa em Florianópolis, no Estado de Santa Catarina, onde um grupo de mulheres italianas e descendentes participou apresentando a região do Abruzzo (PRANDO, 2014). Nela, Maria Cristina e uma amiga aparecem vestindo trajes típicos de Abruzzo. Sobre a mesa se observam pratos típicos, bebidas e objetos, como a “conga” 62, que fazem referência à região de

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procedência da imigrante. Quanto ao traje típico63, Maria informa que era usado pelas mulheres da península em modelos e materiais diversificados64, que variavam conforme a região. Ressalta que a roupa de cada pequena localidade tinha uma característica singular.

Figura 65 – Festa das etnias em Florianópolis

Fonte: Acervo do LAPHO.