Cabe tratar da modalização, haja vista que os gêneros textuais encontrados em LD estão repletos de elementos linguísticos que explicitam esse fenômeno liguístico-discursivo de natureza argumentativa.
Segundo Cabral (2010), a modalização diz respeito à aplicação dos conceitos da modalidade ao ato enunciativo; a modalização é a operacionalização, a lexicalização dos conceitos da modalidade. Assim, expomos aqui as apreciações de Silva (2012) acerca da modalização, sob o ponto de vista de autores como Jean Dubois (2001), Elisa Guimarães (2001) e Ingedore Koch (2002), para que possamos concluir, em poucas palavras, que há uma harmonia sobre o fato de que a modalização se configura “como um processo que se manifesta através de modalidades, estas representadas, por sua vez, por elementos linguísticos – os modalizadores.” (SILVA, 2012, p. 54). Mais à frente, a mesma autora cita que os modalizadores podem ser identificados como “todos os elementos linguísticos que funcionam como indicadores das intenções, dos sentimentos e das atitudes do enunciador no que diz respeito a seu discurso” (GUIMARÃES, 2001, p. 68 apud SILVA, 2012, p. 54). Por isso é necessário que expliquemos os quatro grupos nos quais os modalizadores estão classificados (Cf. NASCIMENTO; SILVA, 2012):
a) Modalização epistêmica – esse tipo de modalização ocorre quando o locutor avalia o valor da verdade de um enunciado, bem como revelando o seu conhecimento com relação ao conteúdo apresentado. A modalização epistêmica apresenta-se das seguintes formas:
(i) Epistêmica asseverativa – é uma estratégia argumentativa muito eficaz na qual o locutor considera o conteúdo do enunciado como verdade e se responsabiliza por (ou até se compromete com) esse conteúdo que foi dito. Alguns exemplos: realmente, evidentemente, naturalmente, efetivamente, é claro, é certo, é lógico, sem dúvida.
(ii) Epistêmica quase-asseverativa – é uma estratégia argumentativa na qual o locutor não se compromete com o conteúdo do que foi dito no enunciado, visto que ele considera o conteúdo como uma hipótese a ser confirmada. Alguns exemplos: talvez, possivelmente, provavelmente, eventualmente. (iii) Epistêmica habilitativa – é uma estratégia argumentativa utilizada quando o
locutor quer expressar que algo ou alguém tem a capacidade de realizar algo porque tem o conhecimento (habilidade) a esse respeito. Um exemplo clássico é o verbo „poder‟ em frases do tipo: A seleção brasileira pode ganhar a Copa do Mundo de 2014 porque os jogadores se prepararam excessivamente para esse torneio.
b) Modalização deôntica – esse tipo de modalização, conforme Nascimento e Silva (2012), seguindo os passos de autores como Castilho e Castilho (1993)30
, Cervoni (1989)31
e Neves (2000)32
, ocorre quando o locutor quer expressar um conteúdo de obrigatoriedade, permissão, proibição ou desejo. A modalização deôntica apresenta-se das seguintes formas:
(i) Deôntica de obrigatoriedade – é uma estratégia argumentativa que ocorre quando o locutor expressa algo que deve ocorrer obrigatoriamente e que (provavelmente) para o interlocutor não há outra opção senão obedecer a esse conteúdo (ordem) dado pelo locutor. Alguns exemplos: obrigatoriamente, é obrigatório, necessariamente, é necessário.
(ii) Deôntica de proibição – é uma estratégia argumentativa que ocorre quando o locutor quer expressar um conteúdo proibido, com um caráter de ordem, e, consequentemente, este espera que o interlocutor acate o conteúdo como tal. Alguns exemplos: é proibido, não pode, não poderá.
(iii) Deôntica de possibilidade ou de permissão – é uma estratégia argumentativa que ocorre quando o locutor expressa, sem se comprometer, um conteúdo considerado facultativo e/ou quando o
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CASTILHO, A. T.; CASTILHO, C. M. M. de. Advérbios modalizadores. In: ILARI, Rodolfo (org.) Gramática do Português Falado. Vol II: níveis de análise linguística. 2 edição. Campinas: Editora UNICAMP, 1993.
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CERVONI, Jean. A enunciação. São Paulo: Ática, 1989. 32
interlocutor tem a permissão para realizar ou adotar esse conteúdo. Alguns exemplos: é permitido, pode(m), poderia.
(iv) Deôntica volitiva – é uma estratégia argumentativa que ocorre quando o locutor expressa uma vontade, ou seja, ele solicita ao interlocutor que faça algo que deseja. Exemplo: Eu gostaria que.
c) Modalização avaliativa – esse tipo de modalização ocorre quando o locutor avalia (ou faz um juízo de valor) o conteúdo de uma proposição, ou pelo menos parte dele. Muitas vezes, um modalizador avaliativo serve para que o locutor demonstre o seu ponto de vista bem como indica de que maneira o interlocutor deve fazer a leitura do enunciado. Alguns exemplos: lamentavelmente, francamente, curiosamente.
d) Modalização demilitadora33
– esse tipo de modalização ocorre quando o locutor procura estabelecer os limites que o interlocutor deve considerar no conteúdo do enunciado. Nascimento e Silva (2012, p. 90) consideram os modalizadores delimitadores como “elementos linguísticos que agem como negociadores na articulação argumentativa com o interlocutor, o qual será guiado pelo locutor a partir de sua intenção, atendendo ao seu próprio interesse discursivo”. Alguns exemplos: uma espécie de, um tipo de, teoricamente, geograficamente, profissionalmente.
Percebe-se que, na maioria dos casos, os advérbios são os termos mais utilizados para marcar a modalização na trama argumentativa. Igualmente, alguns verbos e até mesmo alguns adjetivos podem funcionar como modalizadores, cumprindo, assim, um papel importante na organização e articulação de um texto argumentativo. Todavia, ressaltamos que um mesmo elemento linguístico pode expressar diferentes tipos de modalização, gerando, portanto, diferentes efeitos de sentido. À título de complementação, deixamos a reflexão de Nascimento:
Em determinados textos, a observância dos modalizadores é de fundamental importância para a construção de um sentido mais global do próprio texto. Por essa razão, quando da ocorrência de modalizadores, o professor deve orientar seus alunos para considerar os efeitos de sentido que esses geram, bem como de que maneira esses interferem para a compreensão global. (2012b, p. 06).
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Para aprofundar os estudos acerca da modalização delimitadora, sugerimos a leitura de NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de usos do português. São Paulo: UNESP, 2000.
Portanto, vê-se que a identificação do sentido que certos elementos dão ao texto como um todo faz parte do conjunto de habilidades que um usuário de uma língua precisa ter a fim de que ele seja considerado competente linguisticamente.
Como observado neste capítulo, a Teoria da Argumentação na Língua, proposta pelo semanticista francês Oswald Ducrot e colaboradores, engloba uma gama de aparatos teóricos que são considerados aspectos relevantes a serem levados em consideração na trama argumentativa de diversos textos, perpassando pelos mais variados gêneros. Indubitavelmente, o nosso objetivo é mostrar que as duas perspectivas (retórica e linguística) são relevantes para o trabalho com a argumentação nos diversos gêneros textuais. Por isso, durante todo o processo de aprendizagem de leitura e produção de textos, é necessário que os elementos aqui apresentados neste capítulo sejam trabalhados concomitantemente, de forma epilinguística, com os demais conteúdos de LP para o Ensino Médio.