Numa primeira abordagem deveremos ter em conta três definições que explicam a amplitude e complexidade do termo tecnologia. A tecnologia como:
a) artefacto físico ou máquina;
b) um conjunto de conhecimentos, processos e sistemas de organização e controlo; e, por último,
c) redes organizadas ou um conjunto de espaços por onde flui algo significativo para o homem que, no essencial, se chama informação.
Apesar de tudo o que envolve a tecnologia, como acima se disse, fica a interrogação sobre o significado social da palavra tecnologia não só para reduzir o seu alcance, mas também para entender que a tecnologia é um produto cultural criado pelo ser humano para seu benefício e para melhor poder interagir com o seu ambiente. Leo Marx (1996)3foi um dos estudiosos que partindo da génese da palavra tecnologia tentou definir o que esta actualmente significa.
A palavra tem como origem o termo de raiz grega techné que significa arte e ofício. No século XVII, era raramente referida nos tratados técnicos e chegou a ser usada como o equivalente de artes práticas colectivas. No início do século XX, o termo surge para designar um conceito semelhante ao que mais tarde será conhecido como técnica, mas foi só depois da II Guerra Mundial que o seu uso se popularizou.
Com efeito as técnicas são mensageiros de projectos, de esquemas imaginários, de implicações sociais e culturais muito variadas. A sua presença e a sua utilização num determinado local em determinada altura cristalizaram relações de força sempre diferentes entre seres humanos. (…) Para trás das técnicas agem e reagem as ideias, os projectos sociais, as utopias, os interesses económicos, o leque inteiro dos jogos do homem em sociedade. (Lévy, 2000, pp. 23 e 24)
Desde sempre a palavra tecnologia esteve relacionada com o conceito de progresso. A ideia de progresso tem como base o princípio de que o ser humano melhora constantemente, com o fim de alcançar um maior desenvolvimento quer produtivo quer de bem-estar. Uma maneira de conseguir esse progresso é através das máquinas e ferramentas que facilitam o trabalho manual do homem. Em geral, a estas tarefas manuais que os seres humanos desenvolvem damos o nome de “artes mecânicas”. Contudo, na Europa dos séculos XVI e XVII, estes trabalhos de artes mecânicas eram associados a trabalho sujo e impuro, não adequado para pessoas de determinada hierarquia social, sendo considerados trabalhos de pessoas comuns e pouco reconhecidos.
3 Leo Marx (nascido em 1919) é professor do Massachussetts Institute of Technology e autor conhecido pelos seus trabalhos no campo dos Estudos Americanos. A obra de Marx analisa a relação entre tecnologia e cultura, na América, no século XIX e XX.
No artigo “Invisible Technician”, Shapin4 (1989) descreve em detalhe o grande trabalho realizado por trabalhadores técnicos, especialmente em laboratórios, manipulando e controlando todas as tarefas do quotidiano, realizando experiências, enquanto os grandes cientistas se alheavam dessas tarefas, a sua missão estava em pensar, construir conhecimento a partir de teorias para explicar o que acontecia na prática.
Neste plano, a revolução industrial enfatizou o trabalho técnico como um elemento indispensável para conseguir a aplicação da máquina na cadeia de produção, assim apareceu o operário como trabalhador que vende a sua força de trabalho, surge também o operário especializado (o técnico), um funcionário que operava as máquinas e era responsável por todas as questões relativas à sua manutenção e bom funcionamento. Durante a consolidação da revolução industrial, o termo tecnologia muda o seu estatuto, é reavaliado e associado a um trabalho qualificado, realizado por pessoas com um treino apropriado e especializado. Agora, “técnica” está associada ao trabalho técnico “limpo”, de observação e manipulação de painéis, de instrumentos e monitores altamente complexos e capazes de descrever o processo e o funcionamento das máquinas, tornando-se em elementos fundamentais na correcta utilização e manutenção dos “motores da modernidade”. No final do século XIX, a crença nos avanços tecnológicos e a sua aceitação na criação de bem-estar para o ser humano tornou-se um credo.
Na segunda metade do século XX, a tecnologia já era considerada como um dos principais agentes responsáveis pelo bem-estar dos indivíduos, ao ponto de ser considerada como a solução para todos os problemas da vida moderna. A premissa de progresso suportada pelos avanços tecnológicos, uma vez socializados, tornou-se numa crença sendo, por vezes, referida como um “culto” ou uma “fé cega” revestida por tecnologia.
4 Steven Shapin (nascido em 1943) é um historiador e sociólogo da ciência. É actualmente Professor de História da Ciência na Universidade de Harvard.
A tecnologia torna possível mais tecnologia, como verificaremos se observarmos um momento o processo de inovação. A inovação tecnológica tem três estádios, unidos entre si num ciclo auto-reforçante. O primeiro estádio é o da ideia criadora e exequível; o segundo, o da aplicação prática; o terceiro, o da sua difusão pela sociedade.
O processo completa-se, fecha-se o ciclo, quando a difusão da tecnologia que corporiza a nova ideia ajuda, por sua vez, a gerar novas ideias criadoras. Actualmente, há provas de que o espaço de tempo entre cada uma das fases do ciclo foi encurtado.
Portanto, não se trata apenas de ser verdade, como frequentemente se diz, estarem vivos 90% de todos os cientistas jamais existentes, de se fazerem todos os dias novas descobertas científicas. Estas novas ideias são postas em prática muito mais depressa do que nunca, o intervalo entre o conceito original e o uso prático foi radicalmente diminuído. É esta a extraordinária diferença entre nós e os nossos antepassados. (Toffler, 2001, pp. 32 e 33)
Considera-se que a tecnologia tem poder como um agente de mudança fundamental no nosso tempo, a maioria das pessoas tem necessidade de apanhar o “comboio da modernidade” e acredita que a melhor maneira de o conseguir é através da tecnologia. Esta declaração é parte da cultura da Europa Ocidental, onde as inovações e as novas tecnologias são introduzidas na sociedade, adquirem uma vida própria e, da mesma forma, são tidas como causas ou desencadeadores de mudanças sociais, culturais, económicas e políticas. O termo tecnologia, directamente relacionado com progresso benéfico, tem sido sobrevalorizado.
Pela importância central que tem a tecnologia no mundo pós-moderno, alguns autores dão um enfoque relevante à relação entre a modernidade, a ciência e a tecnologia. Podemos referir os finais do século XIX como o início de uma interligação mais efectiva entre estes dois campos, mas para Thomas Kuhn (1989) essa aproximação só acontece de facto nos dias de hoje e representa, para ele, uma das características da modernidade. Esta relação, no entanto, nem sempre existiu e, segundo Khun, seria importante tratar a ciência e a tecnologia como diferentes, uma vez que o âmbito da tecnologia deve ser procurado no campo social, pois esta implica e envolve a cultura, a linguagem, os meios de produção e o mercado, para além de outras mediações sociais, num grau bastante mais elevado do que o da ciência.
Por seu turno, a proposta crítica, especialmente a pós-moderna, questiona seriamente a tecnologia, com perguntas como: Que mais-valia ou valor acrescentado trouxe a tecnologia para a humanidade? Será verdade que os homens se tornaram nas ferramentas dos seus artefactos? Será que a tecnologia não realiza um determinado percurso e depois volta atrás, imitando o efeito “boomerang”, ou melhor, as consequências da tecnologia quando não são racionalizadas começam a reverter directamente contra o homem, o criador da técnica e da tecnologia? Será que as consequências do seu impacto podem ser vistas nos casos de Hiroshima e Nagasaki, em Chernobyl, no Vietname, no aquecimento global do planeta, e em outros mais?
Estamos no limiar do século XXI, no cruzamento da história, olhando nervosamente em direção ao horizonte em busca de alguma indicação segura de que nossa compreensão dos eventos passados nos ajudará a prefigurar a forma dos tempos impressionantes que estão por vir. Confrontados pela nova ordem mundial das tecnologias da comunicação, pela sociedade da informação, pelos movimentos diaspóricos ligados ao fenômeno da globalização, pela política cultural ligada à pós- modernidade e por desenvolvimentos educacionais tais como o multiculturalismo e a pedagogia crítica, as educadoras e os educadores do século XXI enfrentam um enorme desafio. Como resultado de discursos conflitantes de reforma educacional e social, as educadoras e os educadores do novo milênio estão caminhando num terreno política e epistemologicamente minado. Além disso, elas e eles serão confrontados pelas novas estratégias de resistência e lutas exigidas pelo desafio da era da informação: desde o desenvolvimento de novas linguagens de crítica e interpretação até a uma práxis revolucionária que se recusa a abandonar seu compromisso com os imperativos da emancipação e da justiça social. (Peter McLaren, in Scocuglia, 2007)
Todos os discursos referentes à tecnologia, sejam eles optimistas ou fatalistas, não deixam de reflectir sobre o impacto que esta tem produzido na sociedade. Tal efeito deve ser visto a partir de determinados critérios que o sustentam, esse é o trabalho da reflexão filosófica, cultural, científica e tecnológica que nos dá uma visão contextualizada. Por outras palavras, a interpretação da tecnologia deve obedecer a certos critérios básicos que as próprias disciplinas estabelecem no momento de explicar o fenómeno tecnológico, sejam de carácter unilateral,
como o “determinismo tecnológico”5e o construtivismo social, ou os de carácter multilateral, como os estudos de Ciência Tecnologia e Sociedade de recorte económico, político, social e cultural. Seja qual for o contexto que rodeia a tecnociência, a sua interpretação será sempre variada e diferenciada, na maioria dos casos por falta de concordância entre as diferentes visões.
A permanência na bipolarização das abordagens tecnológicas não ajuda a enfrentar a contextualização necessária para explicar o fenómeno técnico e, em menor medida, o seu impacto social. A proposta é aproximar-se dos planos já referidos para confrontar e discutir as posições aqui apresentadas, indicando que cada interpretação se baseia em posturas previamente identificadas. Esta poderia ser uma maneira viável de manter um certo equilíbrio entre as diferentes abordagens.
We are living in a moment of unprecedented complexity, when things are changing faster than our ability to comprehend them. This is a time of transition betwixt and between a period that seemed more stable and secure and a time when, many people hope, equilibrium will be restored. Awash in a sea of information that seems to have meaning and bombarded by images and sounds transmitted by new media, many people have lost the sense of direction and purpose and long for security and stability. Stability, security and equilibrium, however, can be deceptive, for they are but momentary eddies in an endlessly complex and turbulent flux. In the world that is emerging, the condition of complexity is as irreducible as it is inescapable (Taylor, 2001, p. 3)
Grande parte do material consultado e das leituras efectuadas, defende o domínio da funcionalidade tecnológica, juntamente com os aspectos materiais da mesma e a sua evolução histórica. A outra parte do mesmo destaca os efeitos que a implicação tecnológica propicia pela sua implantação, por vezes, forçada ou imposta. Associar imediatamente a mudança tecnológica à mudança social é “determinismo tecnológico”.
5 O determinismo tecnológico é hoje a teoria mais popular sobre a relação entre tecnologia e sociedade. Os “deterministas tecnológicos” mais importantes são: Marshall McLuhan, Harold Innis, Neil Postman e Jacques Ellul. A visão que estes autores apresentam é de que as tecnologias são consideradas como a causa principal das mudanças na sociedade, e são vistas como a condição fundamental de sustentação do padrão da organização social.
Pensar que a sociedade é que vai determinar o caminho que vai tomar a tecnologia é acreditar no construtivismo social. Não permitir a entrada de uma proposta cultural flexível é negar a possibilidade de ajustar qualquer outra opção às posições extremas referidas. Para destacar estas e outras questões, é necessário compreender e reflectir sobre os conceitos actuais e tentar explicar a polissemia do termo tecnologia, de modo a que as abordagens que a seguir se apresentam conduzam a diferentes interpretações da tecnologia e das suas concepções.