Eco (1974, 1980 e 1991c e d) faz severas críticas ao célebre modelo de dicionário proposto por Katz e Fodor, apontando suas insuficiências, sua incapacidade de dar conta de alguns fenômenos semânticos, entre os quais, por exemplo, podemos citar a conotação.
Este modelo consiste, grosso modo, numa descrição do item lexical a partir de uma diagramação arbórea de nós que se ramificam a partir de um nó principal, indicador da classe gramatical a que pertence o lexema. O célebre exemplo bachelor servir-nos-á como ilustração.
O termo é classificado como nome, e se ramifica conforme os marcadores semânticos inseridos entre parênteses, marcadores que desembocam em distinguidores, entre colchetes. Existem as seleções restritivas, expressas por letras gregas inseridas no sinal < >, postas abaixo da última indicação semântica, seja ela marcador ou distinguidor. Estas indicam uma condição necessária e suficiente para que uma dada leitura se combine com outra.
Como se disse, Eco tece algumas críticas a este modelo de descrição semântica, julgando-o insuficiente por não dar conta de uma série de fenômenos que ocorre no uso cotidiano de uma língua.
O semiólogo italiano aponta a estreiteza do modelo KF, que, baseado na competência ideal de um falante ideal, permanece indiferente às contradições histórico-
culturais a que os indivíduos de um grupo estão sujeitos. O modelo KF, diz-nos ele, limita-se a construções intemporais e imutáveis, restringe-se ao que chama de dicionário. Tal modelo, conforme salienta Eco, pode corresponder a uma elegante construção formal, mas revela-se inútil, de aplicação prática desprezível. Por outro lado, um modelo que considerasse as crenças efetivas, contraditória e historicamente radicadas, pecaria por certa perda da perfeição formal na descrição. Esta é, no entanto, a melhor opção para Eco, porque mais realista.
Eco reconhece a pertinência da objeção de Katz (1972: 75), consoante a qual uma teoria como esta, que opera com o histórico-cultural, tomaria as palavras como algo extremamente mutável, dependente do entorno extralingüístico, do conhecimento de mundo compartilhado por um dado grupo, já que novas descobertas acerca do homem e das coisas, uma vez passando a conhecimento comum (compartilhado), deveriam ser inseridas na representação semântica de um item lexical. Isto resultaria um trabalho inesgotável e de difícil sistematização, concorda Eco. Mas, por outro lado, observa que, infelizmente, é esta a operação que uma cultura desenvolve ininterruptamente, ‘enriquecendo e criticando seus próprios códigos’. Logo, há que se postular, ao lado da noção de dicionário, a de enciclopédia (a cujo arcabouço teórico nos referiremos mais adiante), como uma teoria semântica mais ampla, para dar conta da dinamicidade histórico-cultural dos itens lexicais de uma dada língua.
Quanto aos resultados a que tal teoria semântica poderia conduzir, Katz teme a inserção de todas as modificações idiossincráticas relativas à experiência cotidiana do falante. Pelo menos, é esta a preocupação que manifesta ao criticar propostas que aludem ao mesmo princípio da relevância histórico-cultural na descrição do estrato semântico de uma língua. Outro ponto sobre o qual Katz se indaga diz respeito aos critérios que nos fazem reconhecer a legitimidade de uma nova opinião acerca do significado de uma palavra. Noutros termos, Katz se pergunta pelos parâmetros que nos orientariam na eleição de uns significados como pertinentes e outros como não- pertinentes na descrição semântica de um dado item lexical.
Quanto ao primeiro ponto, ou seja, à inserção de idiossincrasias na teoria semântica, Eco assim se expressa, de modo a eliminá-la:
...as opiniões correntes, ainda que muito difusas, devem ser CODIFICADAS ou de algum modo reconhecidas e INSTITUCIONALIZADAS, pela sociedade. (1991: 89) No que concerne ao segundo ponto, o de como se dá o reconhecimento da legitimidade de uma nova opinião, Eco afirma, em tom de ironia:
A resposta é: na mesma base a que se refere Katz ao admitir que um bachelor é um
homem não-casado e não uma pasta de dentes. Ou seja, na base que autoriza não só uma enciclopédia mas também um modesto dicionário a registrar que um dado item lexical se acha estatisticamente associado pelo corpo social a um dado significado, mudando de significado em certos contextos fraseológicos específicos e registráveis. (op. cit.: 89)
Eco não vê relevância nas críticas de Katz. Admite, não obstante, que um modelo semântico que contemple as transformações histórico-culturais tende a ser menos formalizável que um modelo semântico semelhante a um dicionário. Mas atribui àquele uma capacidade descritiva bem superior à deste, razão por que advoga a construção de um modelo baseado na noção de enciclopédia.
Eco critica também o fato de o modelo KF não levar as conotações em consideração, fato este decorrente da estreiteza de seus limites. O modelo propõe-se como uma representação estritamente denotativa e, por isso,
(...) fornece as regras para um dicionário por demais elementar, do tipo do usado por turistas num país estrangeiro, que permitem pedir um café ou um bife, mas não ‘falar’ realmente uma língua. (op. cit.: 90)
Eco pondera ainda que um dado item lexical pode ocorrer em diversos eixos semânticos, pondo inclusive em contradição suas próprias conotações, e que a escolha entre uma e outra conotação deve ser motivada por fatores contextuais e circunstanciais. Segundo ele, o modelo KF:
(...) não consegue explicar por que um dado termo, expresso numa dada circunstância ou inserido num contexto lingüístico específico, adquire um ou outros dos seus sentidos de leitura. (op. cit.: 91)
Com muita precisão, esclarecem os autores [Katz e Fodor] não estarem interessados
neste problema. Mas deveriam estar. De fato, apresenta-se aqui o elo faltante entre a teoria dos códigos e a teoria da produção sígnica, e esse elo é na realidade o espaço de uma intersecção, do contrário se teriam dois conjuntos teóricos privados de um liame que lhes garanta a mútua funcionalidade. (op. cit.: 91)
Em suma, Eco critica o modelo KF por ter os estreitos limites de um dicionário e por não levar em consideração as conotações, nem os contextos e as circunstâncias que envolvem a atualização de um dado item lexical. Por tais razões é que vai postular um modelo reformulado que, apesar da perda de perfeição formal, se revela mais profícuo, com um poder de descrição ampliado.
Além destes três pontos, Eco (1991c) alude ainda à natureza platônica das marcas semântica (inanalisáveis), à impureza extensional dos distinguidores e à incapacidade do modelo KF de descrever as expressões não-verbais e os termos sincategoremáticos.