O português brasileiro não admite plosivas em coda. Em siglas como PASEP e VARIG, os falantes tendem a produzir a consoante final seguida de uma vogal epentética ([pa»zEpi], [»varigi]. Assim, a produção de palavras do inglês encerradas por [p], [t] e [k] implica a aquisição de um novo padrão de coda entre os aprendizes. Esperávamos, sobretudo nos níveis
mais baixos de proficiência, altos índices de produção de segmentos epentéticos. Nas Tabelas 03, 04 e 05, a seguir, apresentamos os dados obtidos das tentativas de produção de palavras do inglês encerradas por /t/, /p/ e /k/, respectivamente:
Tabela 03 – outputs encontrados nas tentativas de produção das palavras do inglês encerradas pela plosiva alveolar /t/
/t/ Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Total
t| (0/31) 0 (0/29) 0 2,63%(1/38) (0/18) 0 0,86% (1/116) t 3,23% (1/31) 3,45% (1/29) 10,53% (4/38) 11,11% (2/18) (8/116) 6,9% tH 67,74% (21/31) 86,2% (25/29) 86,84% (33/38) 88,89% (16/18) 81,9% (95/116) tS 25,8% (8/31) 6,9% (2/29) (0/38) 0 (0/18) 0 8,62% (10/116) tSi48 0 (0/31) (0/29) 0 (0/38) 0 (0/18) 0 (0/116) 0 Outros 3,23% (1/31) 3,45% (1/29) (0/38) 0 (0/18) 0 1,72% (2/116)
Tabela 04 – outputs encontrados nas tentativas de produção das palavras do inglês encerradas pela plosiva bilabial /p/
/p/ Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Total
p| 3,13% (1/32) 3,33%(1/30) 10,53%(4/38) (0/22) 0 4,92% (6/122) p 6,26% (2/32) 10% (3/30) 23,68% (9/38) (0/22) 0 11,47% (14/122) pH 84,35% (27/32) 83,33% (25/30) 55,26% (21/38) 100% (22/22) 77,87% (95/122) pi (0/32) 0 (0/30)0 (0/38) 0 (0/22)0 (0/122)0 Outros 6,26% (2/32) 3,33% (1/30) 10,53% (4/38) (0/22)0 5,74% (7/122)
48 Ao longo deste capítulo, nas tabelas que apresentarem casos de ocorrência de epêntese após / t/, transcreveremos a manifestação fonética de tal consoante como uma africada [tS], uma vez que, nos dados de epêntese encontrados em nosso corpus, a plosiva era sempre palatalizada, em função de os aprendizes palatalizarem a consoante /t/ antes de [i] em seu dialeto de L1, conforme vimos em 2.4.3.
Tabela 05 – outputs encontrados nas tentativas de produção das palavras do inglês encerradas pela plosiva velar /k/
/k/ Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Total
k| (0/31) 0 0 (0/32) 0 (0/36) 0 (0/24) 0 (0/123) k 3,23% (1/31) 6,25% (2/32) 16,67% (6/36) 8,33% (2/24) 8,94% (11/123) kH 74,19% (23/31) 93,75% (30/32) 77,78% (28/36) 91,67% (22/24) 83,74% (103/123) ki 19,35% (6/31) (0/32)0 (0/36)0 (0/24)0 4,88% (6/123) Outros 3,23% (1/31) (0/32)0 5,55% (2/36) (0/24)0 2,44% (3/123)
Novamente, baixos foram os índices de epêntese encontrados na produção de palavras encerradas por plosivas, o que confirma a verificação de Zimmer (2004) de que tal estratégia se mostra como um processo de interlíngua considerado de baixa freqüência, e característico apenas dos níveis mais baixos de proficiência. De fato, não foram encontradas produções de epêntese em palavras encerradas pela consoante alveolar. Acreditamos que tal ausência pode ser explicada pelo fato de que segmentos coronais apresentam o ponto de articulação menos marcado (Dorsal > Labial > Coronal), e tende, dessa forma, a ser adquirido primeiramente.
No que diz respeito às palavras encerradas pela plosiva bilabial, também não foram encontrados casos de epêntese. Retomemos que, em estudos como o desenvolvido por Baptista & Silva-Filho (2006), índices mais altos de epêntese foram encontrados após [f] (18,5%) do que após [p] (10,5%). Em nosso estudo, conforme vimos nas Tabelas 02 e 04, a fricativa labial foi produzida com epêntese por apenas um sujeito, e a plosiva labial nunca foi epentetizada. Os dados de S4, o único informante a produzir uma vogal após a fricativa labial, parecem sugerir que, pelo menos no caso do sujeito em questão, a fricativa labial seja adquirida após a plosiva de mesmo ponto. Entretanto, os baixos índices de epêntese impedem-
nos de chegar a conclusões de caráter definitivo, no que diz respeito à ordem de aquisição desses dois segmentos em coda.
Encontramos, entretanto, produções de epêntese após a plosiva velar, no caso de 3 aprendizes do Nível 1, de nível mais baixo de proficiência49. A Tabela 06, apresentada a seguir, revela quais sujeitos epentetizaram após a plosiva dorsal final, apresentando, também, os índices individuais de produção de epêntese de cada um desses sujeitos.
Tabela 06 – índices de epêntese nas tentativas de produção de /k/ final, organizados por sujeito
Sujeito/Proficiência n [ki] %
S3 1 4 1 25
S4 1 4 1 25
S7 1 4 4 100
A Tabela 06 não somente evidencia que três foram os sujeitos que produziram epêntese após a plosiva dorsal, mas fornece um maior detalhamento, também, acerca dos índices de produção de epêntese por parte de cada um dos informantes. Verificamos que, enquanto que os sujeitos S3 e S4 já apresentam a variação [k] ~ [ki] em final de palavra, S7 parece se encontrar em um estágio desenvolvimental ainda anterior, mais próximo da L1, uma vez que todas as suas tentativas de produção das palavras da L2 encerradas por /k/ são realizadas com epêntese.
Para a comparação entre os índices de epêntese em função do ponto de articulação dos segmentos proibidos em coda, utilizamos o teste estatístico de Friedman50. Os resultados
49 Ainda que a epêntese tenha sido produzida apenas por sujeitos de nível mais elementar, a verificação através do teste de Kruskal-Wallis, entretanto, não demonstrou diferenças significativas (p=0,061), ao comparar a produção de epêntese nos 4 níveis de proficiência.
50 Segundo informações prestadas pela profissional responsável pela aplicação dos testes estatísticos, o teste de Friedman é equivalente a uma ANOVA para medidas repetidas, e permite comparar dados que envolvem o
desse teste apontaram não haver diferenças significativas, dentre as produções de epêntese encontradas no nível 1, em função do ponto de articulação dos segmentos.
Ainda que o teste de Friedman não tenha apontado diferenças significativas em função do tipo de segmento-alvo em coda, acreditamos, mesmo assim, que os dados de epêntese após [k], frente à ausência de manifestações de epêntese após [p] e [t] finais, parecem sugerir o caráter mais marcado do ponto de articulação dorsal. A tendência aqui apontada se mostra consonante com os dados encontrados em outros estudos de aquisição de coda do inglês por falantes brasileiros, que ratificam o caráter mais marcado das dorsais, dentre os quais citamos Koerich (2002) e Baptista & Silva Filho (2006).
A constatação aqui feita, de que epênteses podem ainda vir a ser produzidas após o segmento dorsal, mesmo que não mais sejam realizadas após as plosivas labiais e coronais finais, mostra-se de grande relevância para a seleção das restrições de marcação com que operaremos, na análise a ser desenvolvida no próximo capítulo. A partir dos dados aqui apresentados, vemos que não basta apenas uma única restrição tal como *{stop}coda, que se oponha à ocorrência da classe de plosivas como um todo, para dar conta dos padrões de produção dos aprendizes. É preciso, de fato, captar em nossa análise o fato de que as plosivas labiais e coronais, que exibem pontos menos marcados, parecem já se encontrar plenamente adquiridas em posição de coda, ao passo que as plosivas dorsais, com o ponto mais marcado, ainda se encontram em vias de aquisição, no caso de alguns sujeitos. Em nossa análise, precisaremos expressar, em restrições, as diferenças entre a aquisição de cada um dos pontos de articulação.
mesmo grupo realizando testes em mais de duas condições, ou mais de dois testes. No caso desta verificação, os alunos de cada nível de proficiência produziram tokens que terminavam em três tipos de coda (três condições): [p], [t] e [k]. Devido ao número reduzido de tokens, as variáveis não apresentam distribuição normal, de modo que fosse aconselhável utilizar o Teste de Friedman. Diferentemente da ANOVA, que compara as diferenças entre médias, o teste de Friedman compara diferenças entre medianas, as quais, assim como as médias, são utilizadas para indicar uma tendência central, ou seja, um número que represente todos os valores obtidos pelo grupo.
Em suma, verificamos que, dentre os aprendizes com Nível 1 de proficiência, a epêntese pode se mostrar ainda presente, como uma estratégia de adaptar a estrutura da L2 ao padrão da L1. Além disso, ao observarmos as Tabelas 03, 04 e 05, verificamos, também, outras formas de saída, além daquela que contém a vogal epentética. Além da produção de tais plosivas com soltura normal, encontramos, no caso de palavras encerradas por /t/, a produção de [tS] em posição final. Verificamos, também, produções do segmento final sem soltura audível, bem como segmentos plosivos que exibem uma soltura exagerada (“aspiração”), manifestação essa presente nos 4 níveis de proficiência.
Consideramos fundamental questionar se alguma outra dessas formas de saída representa, também, uma estratégia de mudança da estrutura prosódica da L2, assim como é a epêntese. Assim, discutiremos cada um desses tipos de output, com foco, sobretudo, na possibilidade de algum desses padrões de saída propiciarem uma alteração da estrutura silábica da L2.