Chapter 1 Introduction
1.3 Literature review
Para se entender a relação da educação e trabalho faz-se necessário abordar a tese de Saviani (2007) sobre a essência desta relação antes de expor as teorias levantadas por outros autores. O autor expõe os fundamentos ontológicos e históricos dessa relação como atividades especificamente humanas pensando o homem como animal racional. Afirma:
[...], o atributo essencial é dado pela racionalidade, consoante o significado clássico de definição estabelecido por Aristóteles: uma definição dá-se pelo gênero próximo e pela diferença específica. Pelo gênero próximo indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero (no caso do homem, a racionalidade). Conseqüentemente [sic], sendo o homem definido pela racionalidade, é esta que assume o caráter de atributo essencial do ser humano. (SAVIANI, 2007 p.153).
O autor entende que o homem diferencia-se do animal por agir e transformar a natureza de acordo com suas necessidades. Denomina esse processo de trabalho, que é a essência do homem que não provém de uma dádiva divina. “[...]. É um trabalho que se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo: é um processo histórico.” Reforça esse entendimento citando Marx e Engels (1974, p.19) que distinguem o homem dos animais por vários fatores, mas identificam um fator principal, que é o ato de “[...] produzir seus meios de vida, passo esse que se encontra condicionado por sua organização corporal.” (SAVIANI, 2007, p.154, grifo do autor).
A existência humana como um produto do trabalho significa para Saviani (2007) que:
[...] o homem não nasce homem. Ele forma-se homem. [...] Precisa aprender a produzir sua própria existência. Portanto, [...], é ao mesmo tempo, a formação do homem, isto é, um processo educativo. [...] A produção da existência implica o desenvolvimento de formas e conteúdos cuja validade é estabelecida pela experiência, o que configura um verdadeiro processo de aprendizagem. (SAVIANI, 2007, p. 154).
Esses fatos, segundo o autor, reforçam a coincidência entre a origem da educação e a origem do homem. Afirma, portanto, que aí esteja o surgimento da relação educação e
trabalho como uma relação de identidade. Comenta a origem da escola e, por conseguinte, a especificidade de uma nova forma de educação, denominada como “processo de institucionalização da educação” juntamente com a origem da sociedade de classes e com a profusão da divisão do trabalho. (SAVIANI, 2007, p. 155).
A primeira modalidade de educação deu origem à escola. A palavra escola deriva do grego σχολείο e significa, etimologicamente, o lugar do ócio, tempo livre. Era, pois, o lugar para onde iam os que dispunham de tempo livre. Desenvolveu-se, a partir daí, uma forma específica de educação, em contraposição àquela inerente ao processo produtivo. Pela sua especificidade, essa nova forma de educação passou a ser identificada com a educação propriamente dita, perpetrando-se a separação entre educação e trabalho.
(...) com a divisão dos homens em classes a educação também resulta dividida; diferencia-se, em consequência [sic], a educação destinada à classe dominante daquela a que tem acesso a classe dominada. E é aí que se localiza a origem da escola. A educação dos membros da classe que dispõe de ócio, de lazer, de tempo livre passa a organizar-se na forma escolar, contrapondo-se à educação da maioria, que continua a coincidir com o processo de trabalho. (SAVIANI, 2007, p.155-156).
O autor conclui que “[...] é o modo como se organiza o processo de produção – portanto, a maneira como os homens produzem os seus meios de vida – que permitiu a organização da escola como um espaço separado da produção.” Afirma, ainda que “[...] nas sociedades de classes a relação entre trabalho e educação tende a manifestar-se na forma da separação entre escola e produção.” Contudo o autor afirma que essa separação “[...] não coincide exatamente com a relação educação e trabalho.” Mas confirma que, com a presença da escola essa relação adquire dupla identidade: (SAVIANI, 2007, p. 157).
De um lado, continuamos a ter, no caso do trabalho manual, uma educação que se realizava concomitantemente ao próprio processo de trabalho. De outro lado, passamos a ter a educação de tipo escolar destinada à educação para o trabalho intelectual. (SAVIANI, 2007, p.155-156).
Com a revolução das máquinas e depois, com a revolução industrial, o trabalho passou a representar especialidades e a educação uma obrigatoriedade para toda a sociedade.
A história da educação, segundo Saviani (2007), demonstra o processo de transformações de sua relação com o trabalho.
Se é possível detectar certa continuidade, mesmo no longuíssimo tempo, na história das instituições educativas, isso não deve afastar nosso olhar das
rupturas que, compreensivelmente, se manifestam mais nitidamente, ao menos em suas formas mais profundas, com a mudança dos modos de produção da existência humana. (SAVIANI, 2007, p.154)
As mudanças no mundo do trabalho devido à internacionalização do capital são apresentadas por Alves e Corsi (2002, p. 8) não somente como a lógica do capital que se transformou em domínio sobre os investimentos aplicados na produção, fazendo com que houvesse um entrelaçamento das várias formas de capital, mas promovendo a fusão de “[...] processos concomitantes e intimamente interligados”.
[...]: (i) a formação de oligopólios transnacionais em importantes setores; (ii) a formação de mercados de capitais, de câmbio e de títulos de caráter global; (iii) a formação de um mercado mundial cada vez mais integrado; e (iv) a instituição de uma divisão internacional do trabalho baseada na relativa desconcentração industrial. Esses processos são acompanhados por uma onda de inovações tecnológicas, concentrada na biotecnologia e na informática. É o que se convencionou chamar de a III Revolução Tecnológica e que atinge os mais diversos aspectos da vida social. (ALVES; CORSI, 2002, p. 8).
A identificação dessas tendências é apontada por Antunes e Alves (2004), como ações direcionadas à classe trabalhadora denominada pelo autor como “classe-que-vive-do- trabalho” formada pela “[...] totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho [...], e que são despossuídos dos meios de produção.” (ANTUNES, 1995 e 1999 citado em ANTUNES e ALVES, 2004, p.336 grifo do autor).
Para Carvalho (2003) as discussões sobre as tendências do mercado de trabalho frente aos processos de modernização tecnológica são controvertidas. “[...]. Há os que associam a este processo, o aumento do desemprego e há aqueles que, ao contrário, vislumbram a expansão de novas atividades e, portanto, a criação de novos empregos em setores de ponta e nos serviços.” (CARVALHO, 2003, p. 34).
A autora afirma ainda que:
[...] a introdução da microeletrônica afeta, sobretudo, aquelas empresas com produção em série, nas quais são introduzidas a robótica e os sistemas integrados flexíveis. O impacto dessa mudança no emprego pode ser observado em indústrias automobilísticas, de eletrodomésticos, máquinas e ferramentas, gráfica e telecomunicações, e resulta em empregos não- qualificados [sic], semiqualificados e de supervisão. (CARVALHO, 2003, p. 35).
Esse impacto pode ser observado também no setor de serviços como “[...] no trabalho rotineiro da oficina, no processamento de dados e no setor financeiro.” (CARVALHO, 2003, p. 35)
Os estudos, segundo a autora, não conseguem apresentar conclusões em relação à durabilidade da influência das tendências na indústria ou se elas não intervêm em outros ramos produtivos, por existirem diversos fatores que afetam essas relações. Entretanto, afirma que a estrutura de emprego está, sim, relacionada ao avanço tecnológico, assim como a reação das empresas em relação “[...] às limitações impostas à relação capital-trabalho.” (CARVALHO, 2003 p. 35)
Analisando o pressuposto defendido por Carvalho (2003) sobre o novo paradigma técnico-econômico e sua relação com o sistema educativo, é possível notar um dos dilemas do século XXI que é “[...] o da sociedade centrada no crescimento sem emprego.” A autora afirma que “[...] as tentativas de explicar e de resolver esse dilema apontam consensualmente para a qualidade da formação profissional, uma vez que o pressuposto é de que os empregos que agora são criados tendem a exigir um aumento de qualificações.” (CARVALHO, 2003, p. 67).
São muitos os reflexos do processo de modernização das relações de trabalho, mas destacam-se os efeitos na qualificação que, como argumenta Kuenzer (2000), “[...] têm trazido à agenda político-pedagógica, novas demandas de formação humana, e, em que pese as pesquisas estarem reiteradamente apontando a tendência à polarização das qualificações, esta é uma questão fundamental para o enfrentamento da exclusão”. (KUENZER, 2000, p.18)
Essa necessidade de qualificação identificada pela autora acontece mais especificamente na educação formal pelas exigências de um mercado mais moderno e exigente dando ênfase à inserção no mercado produtivo e na constituição da cidadania e da transformação social.
A formação contínua de recursos humanos qualificados é cada vez mais necessária frente a essas transformações que ocorrem no mundo do trabalho. Incompetência e improvisação aparecem como qualidades fora do processo produtivo. As habilidades mínimas de saber ler, escrever e operar números são insuficientes. Há a necessidade de se estar integrado ao contexto atual, ter desenvolvidas as capacidades de lidar com conceitos abstratos, trabalhar em grupo e empregar potencialidades da tecnologia. A concepção da educação profissional e os espaços de atuação a partir das mudanças ocorridas no mundo do trabalho trazem novos desafios, tanto para o capital quanto para o trabalho (KUENZER, 2002).
Saviani (2007) demonstra a importância da educação formal para o crescimento individual e, por conseguinte, da realidade em que o indivíduo está inserido, considerando que toda a estrutura do sistema educacional se fundamenta a partir da questão do trabalho. O trabalho como base da existência humana.
[...] e os homens se caracterizam como tais na medida em que produzem sua própria existência, a partir de suas necessidades. Trabalhar é agir sobre a natureza, agir sobre a realidade, transformando-a em função dos objetivos, das necessidades humanas. A sociedade se estrutura em função da maneira pela qual se organiza o processo de produção da existência humana, o processo de trabalho. (SAVIANI, 2007, p. 14)
Analisando a importância da presença do homem no trabalho entende-se a necessidade de uma discussão mais detalhada sobre as abordagens de competências e qualificação profissional.