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Segundo o dicionário Priberam da língua portuguesa, a palavra sociabilidade significa “qualidade do que é sociável; modos de quem vive em sociedade; tendência para viver em sociedade”. Portanto, indica para um conceito estruturante de análise em ciências sociais, mas também aponta para o inacabado, em permanente reconstrução.

Baechler (1995), no capítulo sobre Grupos e Sociabilidade no livro Tratados de Sociologia, sistematiza o estado da arte do conceito, lembrando do diversificado emprego do mesmo,

Para alguns, como Gurvitch, a sociabilidade designa o princípio das relações entre pessoas e a capacidade de estabelecer laços sociais [...]. Para outros como, como Maurice Agulhon, a sociabilidade indica seja a capacidade associativa em geral, seja as associações particulares que são os salões, os círculos, os clubes, os cafés, onde os homens encontram um meio de serem sociáveis [...]. Mais recentemente, surgiu uma corrente de pesquisa para a qual a sociabilidade designa as redes que nascem espontaneamente das relações que cada indivíduo mantém com os outros (BAECHLER, 1995, p. 65).

Diante do exposto, o autor enfatiza a legitimidade das interpretações no campo da sociologia. No entanto, reforça a importância de diferenciar alguns conceitos que se aproximam, o que faremos adotando a perspectiva de Simmel para o conceito de sociabilidade, autor cujo qual já tomamos como referência anteriormente.

Para Simmel (2006), o objeto da sociologia das formas é a interação – são os indivíduos que realizam as ações, o que também podemos chamar de microssociologia. Desse modo, a sociedade é produto das interações sociais entre os indivíduos, determinadas por impulsos ou busca de certas finalidades, afirmando assim que toda forma de interação entre os indivíduos é uma sociação.

A sociação é, portanto, a forma (que se realiza de inúmeras maneiras distintas) na qual os indivíduos, em razão de seus interesses – sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, movidos pela causalidade ou teleologicamente determinados -, se desenvolvem conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam (SIMMEL, 2006, p. 60 e 61).

São esses interesses, que segundo o autor, formam a base da sociedade humana. Sobre a sociologia das formas, Fontes (2015, p. 532) chama a atenção para a metodologia de investigação de Simmel, que parte das formas e conteúdos dos processos de interação para compreender a realidade social, “contenido y forma. Manifestaciones singulares, por un lado, y representaciones abstratas y en consecuencia más generales, por otro”. Portanto, as formas são representações abstratas, enquanto o conteúdo particulariza, revela a singularidade do fenômeno.

Essa concepção de sociação constitui a Teoria das Redes Sociais, baseada em ações recíprocas e de trocas entre indivíduos. Para Simmel (2006), a análise da realidade social está centrada nas relações sociais e não nos atributos dos indivíduos, sendo que a complexa interação entre os mesmos constitui uma rede social e esta configuração impõe um padrão de estrutura social. O sociólogo afirma que as relações são o produto das decisões e da estrutura, o que impõe um limite nas possibilidades de decisão dos indivíduos.

São as formas, representações abstratas, que adquirem uma vida própria a partir dos impulsos – gerados por necessidades e/ou interesses específicos - ou finalidades determinadas pelos indivíduos que constituem o fenômeno da sociabilidade. Simmel (2006, p. 65 e 66) define “[...] a sociabilidade como a forma lúdica de sociação [...] algo cuja concretude determinada se comporta da mesma maneira como a obra de arte se relaciona com a realidade”. A sociabilidade alarga o conceito de sociação, pois não apresenta finalidade objetiva, permitindo maior liberdade impessoal e menos objetivação das relações, é a forma que os indivíduos constituem uma unidade a partir de interesses diversos baseados num sentimento e

por uma satisfação mútua de estarem socializados. Portanto, no fenômeno da sociabilidade, forma e conteúdo são indissociáveis.

Simmel (2006, p. 64) cita alguns exemplos de sociabilidades, como “[...] reuniões econômicas ou irmandades de sangue, em comunidades de culto ou bandos de assaltantes”, sendo as necessidades e interesses dos indivíduos o conteúdo agregador do grupo. Para o autor “todas essas formas de sociação são acompanhadas por um sentimento e por uma satisfação de estar justamente socializado, pelo valor da formação da sociedade enquanto tal” (SIMMEL, 2006, p. 64). No entanto, a simples interação entre os indivíduos não é sinônimo de sociabilidade, para tanto é preciso que haja autonomia entre os indivíduos em sociação. O autor também remete que o caráter objetivo da personalidade (do interesse racional na sociação) precisa se separar de sua função como elemento da sociabilidade, exercendo assim uma autorregulação que evita o egoísmo e “[...] entra na forma sociável apenas com as capacidades, os estímulos e interesses de sua humanidade pura” (SIMMEL, 2006, p.68).

Outra condição de sociabilidade perante o outro, definida por Simmel (2006, p. 68), é a discrição, pois

Tanto no momento em que o estar junto se apoia em um conteúdo e em uma finalidade objetivas, como no momento em que o fator absolutamente pessoal e subjetivo do indivíduo aparece sem qualquer reserva, a sociabilidade não é mais o elemento central e formador, mas, no máximo continua a ser o princípio mais formalista superficial e mediador.

De acordo com Simmel (1977), os novos espaços de sociabilidade se ancoram em comunidades de interesses, conectando indivíduos em qualquer momento por algo em comum. Pessoas aparentemente estranhas umas às outras e distantes em campos diversos de sociabilidade, se conectam para cooperar em busca de algum interesse comum, o que muitas vezes resulta em laços frágeis de apenas uma parcela do universo das interações dos indivíduos.

O conjunto de interações do indivíduo com diferentes formas de sociabilidades constitui o que Simmel (1977) chama de círculos sociais. Portanto, o indivíduo procurará círculos que atendam às suas aspirações e que ofereçam vantagens coletivas, enquanto que, por outro lado, o específico da individualidade fica garantido pela combinação de múltiplos círculos. Quanto mais estreito o círculo a que pertencemos, menos liberdade individual teremos. Ao ampliar o círculo em

que estamos e no qual se concentram nossos interesses, mais espaço teremos para o desenvolvimento da nossa individualidade; porém, em troca, como partes desse todo, possuiremos menos peculiaridades, pois o grupo social será, como grupo, menos individual (SIMMEL, 1977).

As novas formas de sociabilidades descritas por Simmel (1977), características da vida moderna, possuem laços mais frágeis e círculos sociais mais amplos, o que faz emergir o fenômeno da individualidade nas grandes cidades. Para o autor, a economia monetária e a crescente divisão do trabalho proporcionaram a possibilidade de expansão do indivíduo, na medida em que ocorre cada vez mais a diferenciação social e o indivíduo cada vez mais adquire uma individualidade específica. O surgimento do indivíduo na modernidade rompeu com as identidades unificadas e enraizadas em tradições. A evolução nas formas de organização em grupos ampliou a liberdade de escolha do sujeito sobre pertencimento (BOTELHO, 2013).

De acordo com Simmel (1977) o homem moderno pertence primeiro ao círculo de seus pais, logo fundará sua própria família e, consequentemente, a de sua esposa; depois, ao círculo da sua profissão, que o ligará com diversos outros; sabe que é cidadão e pertence a uma determinada classe social, podendo relacionar-se com diversos círculos. Tudo isso supõe uma grande variedade de grupos, no quais o indivíduo pode associar-se sem deixar de pertencer a outro. A união de associações coloca o indivíduo em uma pluralidade de círculos.

A interação dos indivíduos em diferentes círculos sociais possibilita uma fragmentação de relações que constituem sua identidade, quanto maior seja o número de grupos participantes, mais ampliará o campo da individualidade. Assim como a individualidade de cada membro de uma família que estabelece relações em círculos externos poderá modificar a sua conexão originária (SIMMEL, 1977).

A participação em diferentes círculos poderá colocar o indivíduo em conflito moral, pois o sistema de representações pode ser contraditório, entretanto a individualização cresce quando o indivíduo ocupa situações distintas nos diferentes círculos em que faz parte ao mesmo tempo, fragmentando assim a sua própria identidade. Os círculos produzem diferença entre os indivíduos pelos papeis que assumem, pois desloca os indivíduos – se num círculo ocupa lugar periférico, em outro ocupará lugar central – e muitas vezes colocam-nos em situação de igualdade (SIMMEL, 1977).