Sabe-se que, dentre as características que diferenciam seres humanos de animais, “[...] a capacidade de falar do modo como o fazemos” (CALLOU; LEITE, 1995, p. 13) é certamente um dos aspectos mais importantes da singularização da espécie humana.
De fato, se a linguagem é vista somente como um sistema de comunicação, então muitas espécies se comunicam, como afirmam Fromkin; Rodman e Hyams (2007). Os autores explicam que o cantar dos pássaros e dos golfinhos, a dança das abelhas, podem representar um sistema de comunicação similar à linguagem humana. Afinal, “[…] if animal
communication systems are not like human language, it will not be because of a lack of speech” (FROMKIN; RODMAN; HYAMS, 2007, p. 22).6 A diferença entre a linguagem
humana e a linguagem animal reside no fato de que a linguagem humana é um sistema que relaciona sons e gestos para transmitir significados. Segundo os autores, pássaros que falam (como, por exemplo, os papagaios) são capazes de imitar perfeitamente palavras e frases da linguagem humana, mas suas imitações não carregam sentido algum.
6 Se os sistemas de comunicação dos animais não são como a linguagem humana, isso não se dá devido à
Em termos lingüísticos, Callou e Leite (1995) explanam que a linguagem humana se distingue de outros sistemas simbólicos que servem para a comunicação – como os gestos, os códigos, a linguagem das abelhas, o simbolismos das flores e das cores, etc – “[...] por ser segmentável em unidades menores, unidades essas em número finito para cada língua e que tem a possibilidade de se recombinarem para expressar idéias diferentes” (CALLOU; LEITE, 1995, p. 13).
Já em termos fisiológicos, sabe-se que
[…] phonation developed as a principal function of the larynx in which the vocal folds are used as a flutter valve. This type of flutter valve is only seen in vertebrates possessing the respiratory requirements of an effective bellows. This is possible only in vertebrates which have a diaphragm; that is the mammals. Among all mammals, only humans have acquired the
potential for the production of meaningful sounds, i.e.,speech, by using the laryngeal valve as a source of vibration (HIROSE, 1999, p. 1, grifo nosso). 7
Segundo Ladefoged (2006), a maioria dos sons da fala é resultado de movimentos da língua e dos lábios. Aliado a este procedimento, está o fato de que, de acordo com o autor, fazer com que a fala seja audível envolve expulsar o ar dos pulmões enquanto se produz um ruído da garganta. Este ruído básico é modificado pelas ações da língua e dos lábios. Em outras palavras, Löfqvist (1999) explica que “[...] a speaker creates variations in air pressure and air flow in the vocal tract by making valving actions with different parts of the vocal tract: the glottis, the velum, the tongue, the lips, and the jaw” (LÖFQVIST, 1999, p. 1). 8
Dando prosseguimento a esse processo e retomando o que Ladefoged (2006) afirma acima, Shadle (1999) diz que
[…] we speak, for the most part, while exhaling, and the sound waves travel through that moving airstream. Further, most speech sounds are generated by that airstream: it sets the vocal folds vibrating which in turn chop up the steady airstream, and it can become turbulent and generate noise
(SHADLE, 1999, p. 1). 9
7 A fonação se desenvolveu como a principal função da laringe, nas quais as cordas vocais são usadas como uma
válvula vibrante. Este tipo de válvula vibrante é somente encontrada nos vertebrados que possuem as exigências respiratórias de um fole efetivo. Isto é possível somente em vertebrados que possuem um diafragma; são os mamíferos. Dentre todos os mamíferos, apenas os humanos adquiriram o potencial para produzir sons significáveis, por exemplo, a fala, usando a válvula da laringe como fonte de vibração – tradução nossa.
8 Um falante cria variações em pressão e fluxo do ar no trato vocal executando movimentos de válvula com
diferentes partes do trato vocal: a glote, o véu palatino, a língua, os lábios e a mandíbula – tradução nossa.
9 Na maioria das vezes, nós falamos enquanto expiramos, e as ondas sonoras viajam nessa corrente de ar.
Ademais, a maioria dos sons da fala é gerada por meio desta corrente de ar: ela faz com que as cordas vocais vibrem e, logo em seguida, cortem essa corrente constante, podendo-se tornar turbulenta e gerar barulho – tradução nossa.
Por fim, as mudanças na pressão e no fluxo do ar resultam em sinais acústicos que ouvimos quando se percebe o som, como afirma Löfqvist (1999). 10
De fato, constata-se que a produção da fala é um processo complexo que requer a participação de diversos órgãos do corpo humano, não somente da língua, dos lábios, dos pulmões e da garganta. A seguir, tem-se o que diversos autores dizem a respeito da função anatômica do aparelho fonador na produção dos sons.
De acordo com Callou e Leite (1995), “[...] as unidades constitutivas do contínuo sonoro [os fonemas, os sons propriamente ditos] são produzidas por um mecanismo fisiológico específico a que se convencionou chamar de aparelho fonador” (CALLOU; LEITE, 1995, p. 13-14). Este aparelho é constituído pelos pulmões, pela laringe, pela faringe e pelas cavidades oral e nasal.
Cagliari (1981), Callou e Leite (1995), Cristófaro Silva (2002) e Sonesson (1970) concordam que as partes constitutivas do aparelho fonador têm outros funcionamentos, distintos dos usados na produção dos sons: “[...] os pulmões e a cavidade nasal tem um desempenho específico no processo de respiração [...]. Os dentes e a língua são órgãos cruciais para a trituração dos alimentos” (CALLOU; LEITE, 1995, p. 14). Já a laringe, segundo Cristófaro Silva (2002), tem a função primária de “[...] atuar como uma válvula que obstrui a entrada de comida nos pulmões por meio do abaixamento da epiglote” (CRISTÓFARO SILVA, 2002, p. 24-25); nesse sentido, a laringe também tem a função básica de proteger a passagem da corrente de ar no trato vocal (HIROSE, 1999). É na laringe que se localizam as cordas vocais (CAGLIARI, 1981).
Segundo Perkell (1999), o processo de articulação consiste na manipulação das estruturas respiratória, laríngea e do trato vocal, a fim de se criarem fontes de sons e de filtrarem esses sons. É como Cagliari (1981) já havia comentado: “Para falar, usamos quase metade do corpo, desde o diafragma até o cérebro” (CAGLIARI, 1981, p. 9). Levando estes aspectos em consideração, Cristófaro Silva (2002) apresenta uma divisão do aparelho fonador em três partes: o sistema respiratório, o sistema fonatório e o sistema articulatório, como mostra a figura 1:
10 As características acústicas do som serão apresentadas com mais ênfase na próxima seção deste texto, a saber,
Figura 1: Os sistemas articulatório, fonatório e respiratório Fonte: Félix (2004)
Callou e Leite (1995), Hirose (1999), Ladefoged (2006), Maia (2001) e Sonesson (1970) – entre diversos autores – explicam como se dá o processo de fonação. Abaixo, encontra-se, de maneira bastante sintética, o modo como tal processo ocorre.
A produção de qualquer tipo de som requer energia, como argumenta Ladefoged (2006). Segundo o estudioso, na maioria dos sons da fala, a fonte básica de produção reside no sistema respiratório, havendo expulsão de ar dos pulmões. Como já foi mencionado anteriormente, nós falamos enquanto expiramos o ar (LADEFOGED, 2006; SHADLE, 1999). Assim, quando falamos, o ar que vem dos pulmões atravessa a traquéia e a laringe, ponto no qual o ar deve passar entre dois músculos denominados cordas vocais. “As cordas vocais tem a forma de dois lábios e são constituídos de músculos tireo-cricóide e de tecido elástico denominado ligamento [...]. À abertura triangular existente entre as cordas vocais se denomina glote (CALLOU; LEITE, 1995, p. 18). 11
Segundo Sonesson (1970), a corrente de ar vinda dos pulmões separa as cordas vogais e abre a glote; desta maneira, elas vibram, abrindo e fechando a glote alternadamente, durante períodos de tempo muito curtos. Ladefoged (2006) explica que, se as cordas vocais estão separadas, o ar vindo dos pulmões terá passagem livre na faringe; contudo, se as cordas vocais
11 Maia (2001) salienta que o termo “cordas vocais” é problemático, “porque sugerem serem cordas o que, na
realidade, é uma válvula constituída por membranas, músculos e ligamentos” (MAIA, 2001, p. 36), como já foi destacado acima. Desta maneira, decidiu-se aqui utilizar o termo “cordas” uma vez que, fisiologicamente, elas realmente parecem cordas.
Sistema articulatório (faringe, língua, nariz, palato, dentes, lábios)
Sistema fonatório (laringe onde está a glote)
Sistema respiratório (pulmões, músculos pulmonares, brônquios, traquéia)
estão ajustadas de maneira em que haja somente uma passagem estreita entre elas, a corrente de ar dos pulmões ocasionará na vibração das cordas. Em resumo, tem-se que,
[...] para produzir voz, basta um movimento muscular voluntário: trata-se de aproximar as cordas vocais, vedando a glote, que é o orifício de comunicação entre a laringe e a traquéia. Daí em diante, tudo se torna automático: quando a pressão do ar sob a glote aumenta, as cordas vocais cedem e deixam escapar uma pequena corrente; logo que a pressão diminui, as cordas vocais, devido à sua leveza e elasticidade, precipitam-se para dentro [...]. Isso é suficiente para fechar a glote e restabelecer o ciclo, que prossegue com um novo aumento da pressão subglótica, e assim sucessivamente (MAIA, 2001, p. 36).
Dando prosseguimento, a passagem de ar acima da laringe corresponde ao trato vocal (CALLOU; LEITE, 1990; LADEFOGED, 2006; SILVA, 1998). Este, por sua vez, é dividido em cavidade oral (que inclui a boca e a faringe) e em cavidade nasal (que inclui o nariz).
Figura 2: Cavidades do trato vocal Fonte: Morisson (2004)
Ladefoged (2006) e Cristófaro Silva (2002) mostram que, quando o véu palatino é abaixado, o ar entra e sai pelo nariz. Segmentos consonantais como /m/ e /n/ são produzidos com as cordas vocais vibrando e com o ar saindo pelo nariz; é o que mostra a figura 3 abaixo:
Figura 3: Fluxo da corrente de ar na realização de sons nasalizados Fonte: Morisson (2004)
Os sons orais, por sua vez, são produzidos predominantemente por meio do mecanismo de fechamento velofaríngeo, no qual se obstrui a passagem da corrente de ar para a cavidade nasalem atividades de fala e alimentação, como afirma Cedeño (2010).A figura 4 representa, de maneira bem simplificada, a realização dos segmentos orais:
Figura 4: Fluxo da corrente de ar na realização de sons orais Fonte: Morisson (2004)
Nas palavras da autora, o fechamento velofaríngeo para a produção dos sons orais consiste num movimento velar ao pôr-se em contato com as paredes laterais e posteriores da faringe. Existem diferentes tipos de fechamento, a depender da aproximação dos músculos do aparelho fonador: existe o fechamento coronal, no qual o véu se fecha contra a parede posterior da faringe; há o sagital, no qual ocorre o fechamento das paredes laterais da faringe; e o circular, que se caracteriza pelo fechamento de todas as estruturas (CEDEÑO, 2010).