1. Introduction
1.5 Literature and source materials
Essa subcategoria foi revelada a partir dos discursos das mães sobre sua experiência do parto e nascimento do filho. Elas descreveram as intercorrências durante o parto, o estado de saúde do filho ao nascimento e a assistência prestada pelos profissionais de saúde a elas e a seus filhos. As mães M4 e M8 escolheram iniciar sua narrativa a partir do trabalho de parto, enquanto a mãe M14 optou por começar seu relato após o nascimento da filha.
Em seus discursos, três mães (M2, M11, M12) descreveram o trabalho de parto como rápido e fácil. Entretanto, outras três (M4, M8, M9), ao abordarem sua experiência do parto, descrevem-no como difícil e demorado, evidenciando uma percepção negativa, como apresentado nos relatos:
Foi de fórceps. [...] Foi muito difícil, foi muito demorado [o parto]. (M4-38)
Eu ganhei a minha filha foi no Hospital A e lá eles induzem mesmo o parto normal, o parto natural... E continuaram tentando e não tinha [dilatação], acho que eu fiquei com três centímetros só de dilatação. Quando foi mais ou menos 5 horas da madrugada, foi que eles estouraram a minha bolsa, pra ajudar e mesmo assim não teve. Quando foi 5 horas da madrugada eles me levaram pra sala, porque eu já não estava aguentando mais. É muito tempo, já tinha quase 12 horas que eu tava ali. Eles me levaram pra sala e ela nasceu. (M9-3)
[Os profissionais ] eles forçaram pra ganhar ele normal, forçando eu ganhar normal e nada dele sair. (M8-8.1)
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Em estudo sobre a satisfação das mulheres com a assistência ao parto, identificou- se que aquelas com opinião negativa apontavam como motivos do sofrimento no parto, a má atenção da equipe, o parto demorado ou difícil e as complicações do bebê. As mulheres valorizam o conforto físico e o suporte psicológico, além de um cuidado apropriado e personalizado realizado por profissionais que reconheçam suas necessidades e respondam suas perguntas (DOMINGUES; SANTOS; LEAL, 2004).
Os relatos de sete mães (M3, M4, M5, M8, M9, M10, M11) revelaram que as intercorrências na gravidez que ocasionaram o parto prematuro ou as complicações durante o trabalho de parto tornaram o nascimento do filho um momento de ansiedade e apreensão, devido aos riscos para a vida e saúde do recém-nascido.
Estudo a respeito da percepção materna sobre o nascimento prematuro e a gravidez com pré-eclâmpsia identificou situações semelhantes às vivenciadas pelas mães M5 e M10. As mulheres do estudo de Souza et al. (2007) souberam dessa intercorrência mediante a hospitalização. A internação e a iminência do parto prematuro desencadearam nessas mães o medo de morrer e de perder o filho. Os autores ressaltaram que, na gravidez de risco, o parto pode estar relacionado à maior ansiedade, principalmente quando existe necessidade de hospitalização materna, pois a evolução natural do nascimento é alterada. Assim, o suporte emocional e psicológico é fundamental na assistência a essas mulheres.
Os relatos das mães M3, M4, M8 e M9 permitiram apreender que vivenciaram a ocorrência da asfixia perinatal durante o parto e o nascimento dos filhos. Essa intercorrência também está associada ao aumento de ansiedade e temor na parturiente. Estudo sobre a vivência de mães relacionada à ocorrência de asfixia perinatal no momento do parto identificou aspectos positivos e negativos percebidos pelas mulheres na assistência recebida durante o trabalho de parto e parto. O diálogo com a mulher, a confiança no profissional e a agilidade no atendimento durante o trabalho de parto são aspectos positivos. Já o despreparo do profissional para assistir a mulher no momento da intercorrência, a desumanização na assistência e a não presença de um acompanhante durante o trabalho de parto e parto são considerados aspectos negativos (MILBRATH et al., 2010a).
Dessa forma, os resultados dos estudos reforçam a importância da humanização da assistência ao parto, com reconhecimento das necessidades das mulheres, com garantia de suporte psicológico e de diálogo para informá-las e esclarecer suas dúvidas (DOMINGUES; SANTOS; LEAL, 2004; MILBRATH et al., 2010a; SOUZA et al., 2007).
As mães relataram sobre a condição de suas crianças ao nascimento que desencadeou a internação na UTIN após o parto. Os filhos de seis mães (M3, M5, M10, M11,
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M12 e M13) nasceram prematuros, sendo que quatro desses recém-nascidos (filhos de M5, M10, M11 e M12) apresentaram dificuldade respiratória. Como evidenciado nos enunciados:
Na gravidez correu tudo bem, só que, com oito meses, 35 semanas e cinco dias, a bolsa estourou e ele nasceu. (M13-9)
Eu entrei com 27 semanas, 28, uma coisa assim, e conseguiu segurar até 29 e dois dias. Desci pro Hospital porque eu fiquei numa casa de apoio da instituição, me levaram na quinta à noite e eu fui fazer meu parto. Já era oito horas e três minutos da manhã quando ela nasceu. (M5-10)
Tava com 27 semanas e três dias [de idade gestacional], mas chegou uma hora que começou a dar alteração de plaquetas, teve que tirar. E ela pesou 620 gramas, mediu 30 centímetros e foi pra UTI e ficou lá. (M10-18)
Ela nasceu acordada, não precisou reanimar [...] ela já nasceu chorando, até super tranquilo. [...] Quando eu voltei lá [Unidade Neonatal] da outra vez, já tava aparelho pra tudo quanto é lado, colocou ela no respirador, entubou ela... (M11-11)
Os discursos dessas mães apresentaram detalhes sobre a condição do nascimento do filho, como idade gestacional, peso e choro; além disso, evidenciaram a separação entre mãe e filho após o nascimento. Em estudo a respeito da percepção materna sobre a vivência de ter um bebê prematuro, todas as mães mencionaram que tiveram medo de o bebê ser muito prematuro e não sobreviver. No estudo, foi identificado ainda que as mães de recém-nascidos prematuros sofreram no pós-parto ao saber que ficariam longe de seus filhos devido à necessidade de internação em UTI (SIQUEIRA; DIAS, 2011).
Os filhos de quatro mães (M3, M4, M8 e M9), após complicações no trabalho de parto, nasceram com insuficiência respiratória, como evidenciado em seus relatos. As mães M3 e M9 mencionaram ainda que seus filhos nasceram em parada cardiorrespiratória e precisaram de reanimação.
Ele começou a ficar sem oxigênio, com pouco batimento cardíaco, engolir líquido, quando ele nasceu já levaram ele direto pra UTI... (M8-8.2)
Eu fiz de emergência, a cesárea, fui já direto pro bloco. [...] Ela nasceu parada, reanimou ela, até então eu não sabia que isso gerava sequelas... (M3-3)
Ela nasceu roxinha, sem respirar, tanto que quando eles me levaram pro quarto, eles já tinham avisado a minha mãe que o neném não tava tendo batimento cardíaco mais. Que eles falam que era parto depressivo, que ela tava depressiva, foi o que eles falaram, não entendo direito. Ela nasceu sem respirar, roxinha, eles começaram a fazer massagem cardíaca nela, pra ela voltar a cor e depois levaram ela pro oxigênio... (M9-11)
Milbrath et al. (2010b), em estudo sobre a vivência materna do nascimento do filho com asfixia perinatal, destacaram que as mães abordaram ter notado algo errado acontecendo com o recém-nascido, o que foi evidenciado por suas características ao nascimento, como cianose ou não ter chorado. A necessidade de realização de manobras para
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recuperar a oxigenação do recém-nascido e o encaminhamento para uma Unidade de Tratamento Intensivo ocasionou a separação inesperada entre a mãe e o bebê. Dessa forma, as mães que esperavam ver, tocar, acariciar, amamentar seu filho logo após o parto, vivenciaram uma ruptura do considerado normal e do que haviam imaginado. A percepção de que havia algo errado acontecendo com seus bebês gerou medo e ansiedade nessas mães.
Em seus discursos, as mães M6 e M9 disseram que, após o nascimento, durante as primeiras 24 horas, seus filhos apresentaram episódios convulsivos:
Ele nasceu no dia 21, meia noite. Quando foi por volta de umas três e pouca da tarde do dia 21, ele deu uma convulsão. Só que foi assim uma convulsão rápida, que não deu nem tempo de mostrar à médica. Quando foi por volta de seis horas da tarde, eu
dando ‘mamá’, ele foi e deu outra, no meu colo. A médica já pegou ele e levou pra
uma sala lá e deu medicamento e a gente já foi transferido para a Neonatal. (M6-5)
No outro dia, o médico veio pra me dá alta. [...] Eu falei assim ‘Engraçado que ela
tem até tic!”, ele falou ‘Como assim, mãe?’, eu falei ‘Ah, ela mexe a mãozinha, o pezinho e o olhinho.’. [...] Ele falou assim ‘Ué, mãe, quantas vezes que ela fez isso?’, eu falei “Ah... comigo assim, que eu reparei, duas vezes’ e a enfermeira veio e falou ‘Ela já teve comigo também.’. Aí ,eles já correram com ela. Ela tava tendo
convulsão. [...] Foi passando de médico em médico pra poder encontrar o que que ela tava tendo. E médico não entendia, já levou ela pra UTI [...] (M9-17)
A mãe M2 relatou que, após o nascimento de seu filho, os profissionais de saúde identificaram que ele tinha mielomeningocele. Ela foi encaminhada do hospital de seu município, pois sua pressão estava alta, para o Hospital A, onde realizou parto normal.
Ele teve mielomeningocele, ele nasceu com isso, não foi detectado no ultrassom, foi mesmo na hora que ele nasceu que o pessoal viu. (M2-3)
A mãe (M2) falou que o médico responsável pelo acompanhamento posterior de seu filho explicou que, se a mielomeningocele tivesse sido identificada durante a gravidez, teria sido realizada cesárea e diminuiria o risco de infecção para o recém-nascido. Após o nascimento, o filho de M2 foi transferido para o Hospital D, onde realizaria cirurgia para correção da mielomeningocele.
As mães M1 e M14 relataram que a identificação dos problemas de saúde de seus filhos pelos profissionais ocorreu horas ou dias após o parto; dessa forma, a internação em UTIN ocorreu posteriormente. Em um dos casos, o recém-nascido chorava muito e não conseguia amamentar; M14 ressaltou, em seu relato, que a filha já tinha sido examinada pelo pediatra, mas ele não tinha identificado a alteração no palato:
Ela já tinha passado pelo pediatra, o pediatra olhado tudo e ele não identificou esse problema nela. Minha mãe foi fazer uma oração pra ela. Minha mãe colocou ela na palma da mão e na hora que começou a fazer a oração pra ela, ela começou a chorar e abriu a boca, aí minha mãe viu! Minha mãe falou assim ‘Engraçado, ela tem o
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descobriu, a gente chamou a menina do andar, a enfermeira do dia, e ela acionou o pediatra. (M14-1)
No outro caso, a mãe M1 relatou que o filho estava amamentando pouco, mas os profissionais consideraram que era por estar sonolento e deram alta para a mãe e seu filho 24 horas após o nascimento. Entretanto, cinco dias depois, a mãe foi encaminhada para a Maternidade novamente pois, quando procurou o Centro de Saúde para fazer o teste do pezinho, a enfermeira identificou que o recém-nascido estava desidratado e ictérico:
Cinco dias depois eu levei ele para fazer o teste do pezinho, no Posto de saúde, mas já levei até cedo, porque de todo jeito já ia levar que ele tava muito sonolento e não tava sugando direito [...]. Chegou lá ,a menina chamou a enfermeira. A enfermeira
que veio e falou assim ‘Essa criança tem que ir para a Maternidade onde nasceu, ela
está com princípio de desidratação’ [...]. Ela falou ‘Ele tem que ir na Maternidade
onde nasceu viu mãe, nós nem vamos fazer...’, porque a menina furou o pezinho dele e o sangue não vinha, furou uma, duas vezes e falou ‘Não vou furar mais não
porque não tá vindo’ e chamou a enfermeira para olhar. (M1-11)
Os relatos das mães revelaram que também vivenciaram, no parto e no nascimento de seus filhos, uma ruptura do esperado como normalidade e do idealizado. Souza
et al. (2009), em estudo a respeito da representação das mães sobre hospitalização do filho
prematuro, identificaram que as mulheres têm esperança de que os bebês possam permanecer com elas após o parto e que poderão interagir com eles. Dessa forma, com a notícia da internação do recém-nascido em UTIN, ocorre a ruptura da dinâmica do nascimento de um bebê saudável e da idealização do papel materno, que inclui poder ter o filho nos braços, levá- lo para casa após o nascimento e cuidar dele. Os autores abordam que o afastamento do recém-nascido, imposto pelo uso de equipamentos e tratamentos neonatais, dificulta a construção inicial do vínculo mãe-filho e ocasiona, nas mães, sentimento de tristeza (SOUZA
et al., 2009).
As mães mencionaram problemas no trabalho de parto, como demora e dificuldade, além de intercorrências relacionadas ao parto, como asfixia perinatal. A respeito da condição de saúde do filho ao nascimento, abordaram prematuridade, dificuldade respiratória, episódios convulsivos e alterações congênitas, como mielomeningocele e malformação do palato. A identificação dos problemas de saúde do recém-nascido e a internação em UTIN ocorreram logo após o nascimento ou nos primeiros dias de vida. Nessa subcategoria, as mães também expressaram sua insatisfação em relação a aspectos da assistência prestada pelos profissionais de saúde, principalmente devido às dificuldades no trabalho de parto e à demora em identificar os problemas de saúde dos filhos após o nascimento.
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Estudos evidenciam uma estreita relação entre as condições de gestação, parto e nascimento e a origem de necessidades especiais de saúde nas crianças. As afecções perinatais e as malformações congênitas estão entre as principais causas de internação hospitalar (NEVES; CABRAL, 2008a). Entre as ocorrências perinatais que contribuíram para problemas de saúde posteriores, destaca-se o nascimento pré-termo e suas complicações, ocasionando um tempo de internação prolongado. Dessa forma, evidencia-se a importância de empreender ações que qualifiquem os serviços de atendimento perinatal, incluindo medidas preventivas de complicações relacionadas ao parto e nascimento (NEVES; CABRAL, 2008a; PEREIRA, 2007; SIQUEIRA, 2008).