Hannah me recebeu em sua casa como quem recebe uma amiga de longa data. Logo me ofereceu um café—“turco, obviamente”—me disse orgulhosa. Enquanto o preparava na cozinha, eu ajeitava meu equipamento na sala. As plantas muito bem cuidadas denotavam dedicação. Ela nasceu em Israel, filha de búlgaros que emigraram após a segunda guerra, como aconteceu com a maior parte da comunidade judaica daquele país. Eu esperava inicialmente obter um relato pleno de detalhes específicos dos costumes sefaraditas da Bulgária que me permitiriam traçar um mapa preciso tornando possível rastrear os passos de cada sub-grupo. Obviamente isto não aconteceu, confirmando minha percepção que se
149 Faça três pitadas na mezuzá. 150
Que se vá com os males. Ah, Deus! Não sei com o que se assustou! Faça [o costume das] três pitadas na
mezuzá.
151 Vide figura em anexo. 152 Vide figura em anexo.
delineava ao longo das entrevistas, do quanto as fronteiras da memória são difusas e a cultura sefaradita flui orgânica, embrenhando-se nos pequenos detalhes. Aprendi a perceber seus traços nas entrelinhas e a entrevista com Hannah foi um marco em minha trajetória.
A mãe de Hannah perdeu os pais muito cedo e se casou bastante jovem. De alguma maneira desenvolveu a mão para a cozinha e preservou a fala do ladino por toda a vida. Após a morte da mãe, um dos tios de Hannah veio para o Brasil e já estabelecido, mandou vir as outras irmãs durante a guerra. A mãe de Hannah, já casada, não acompanhou as outras duas, e acabaram por perder contato quando ela partiu para Israel.
Quando minha mãe tinha dezoito anos, meu avô faleceu. Minha avó faleceu quando minha mãe tinha treze anos e meu tio Rafael foi embora da Bulgária. Ele foi para a Argentina, da Argentina ele veio para o Brasil, fez fortuna com café e fez família em Jaú. Ele mandou passagem para as três irmãs para virem para o Brasil. Mas a minha mãe já era casada e não tinha como vir, meu pai tinha negócios, meu pai tinha loja de roupas íntimas, meias, essas coisas.[...] [e] eles ficaram durante muitos anos sem se ver. [...] Estourou a guerra, a minha mãe não queria ficar na Bulgária. Lá os judeus não sofreram como em vários outros lugares. Tinha que andar com a estrela, tudo isso, mas sem massacres. [...] E teve uma madrugada, que bateram na porta da minha mãe e falaram: olha, é para vocês saírem, irem para o porto, que tem um navio cargueiro levando gente para Israel. E foi assim que eles largaram tudo e foram embora, com a roupa do corpo. Minha mãe contava que durante os dias em que eles estavam no navio, que como era um navio cargueiro, eles não tinham como ficar de pé. Minha mãe disse que quando levantou depois de alguns dias de viagem, doía o corpo inteiro, porque você não tinha posição confortável e quando eles chegaram, tiveram que esperar os ingleses abrirem as comportas para a entrada, porque era meio complicado entrar em Israel.
Anos mais tarde, duas conhecidas do tio da sinagoga da Abolição a encontraram em uma viagem em visita a parentes em Israel. O fato de falarem ladino aproximou as três mulheres e permitiu que o destino se cumprisse:
Um dia minha mãe saiu para fazer uma compra, quando minha mãe vem voltando, ela encontra duas senhoras. E elas querem falar com ela, perguntando se ela só fala hebraico, então minha mãe falou: “Falo francês, falo búlgaro, falo ladino.” “Então você fala ladino, fala búlgaro?” “Sim.” “Vamos conversar.” Uma delas era da [sinagoga da rua da] Abolição, a esposa do rabino e a outra era a Vivi, que eles vieram para um bar mitzvá153 ou um casamento da família e elas tiraram uns dois ou três dias para procurar para uma pessoa daqui do Brasil, souberam que a família tinha saído da Bulgária e morava naquela cidade. E lá a gente foi morar em Natânia, que foi onde aconteceu isso. Então minha mãe falou: “Olha eu moro daqui a três, quatro quadras, se vocês quiserem vir para um chá, um café, eu convido vocês”—que viu que tem familiaridade, são próximas, sabe o que é, falavam a mesma língua e o interessante disso é que quando elas vieram e começaram a conversar e minha mãe perguntou: “De onde vocês são?” “Do Brasil.” “E vocês estão falando que estão procurando alguém. Quem que vocês estão procurando aqui?” “Nós estamos procurando uma irmã que se desprendeu da família antes da guerra, porque ela já tinha se casado, as outras ainda eram solteiras, que o irmão tinha mandado passagens, mas que ela não foi, estourou a guerra e eles perderam contato.” Aí minha mãe falou: “Nossa! E é no Brasil que eles moram?” “É, no Brasil.” E minha mãe ficou emocionada. Nossa, minha mãe não era
uma ignorantona, minha mãe sabia que tamanho tinha o Brasil, que tamanho é Israel, então minha mãe falou: “Nossa o Brasil enorme, quem me dera que meus irmãos estivessem me procurando.” Aí uma das mulheres fala assim: “Você conhece todas as pessoas que vieram da Bulgária, que estão morando nessa região?” “Pode ser que eu possa ajudar!” Então ela perguntou: “Como é o nome dos irmãos que estão procurando?” “Um chama Rafael, outra chama Ana e outra chama Sofie.” Aí minha mãe estremeceu. Minha mãe falou: “Olha, é muita coincidência, achar uma pessoa assim, é agulha no palheiro.” Aí ela perguntou: “E como é o nome da irmã que estão procurando aqui?” Quando falou Suzana, minha mãe desabou, aí minha mãe soluçava, né? Minha maē chorou tudo que tinha de direito. “Que foi? Ela faleceu? Está doente? Ela está mal?” “Não, ela sou eu!”154
A família terminou por se unir a seus parentes em São Paulo e construiu a vida na nova pátria. Estabeleceram-se inicialmente em Santana, na zona norte da cidade, mudando-se em seguida para o Bom Retiro, bairro com alta incidência de judeus na época. Anos mais tarde Hannah, já adulta, cuidava da mãe com mal de Alzheimer. Em um período de apuro econômico uma conhecida encomendou as famosas burekas de Suzana, a mãe de Hannah. Sem pestanejar ela aceitou o pedido, mas qual não foi sua surpresa quando a mãe não somente não se lembrou da receita, como sequer suspeitava que um dia a tivesse conhecido.
E minha mãe fazia muito burekas sempre. Minha mãe fazia aquela massa filo, que eu não vejo ninguém mais fazer isto e minha mãe fazia assim, tipo um caracol com espinafre, com queijo, com maçãs e nozes e passas e fazia assim uns caracóis muito lindos e muito saborosos. Minha mãe era uma mulher que fazia uma comida que as vizinhas onde eu sempre morei, batiam na porta: “Por favor, meu marido está dizendo que o cheiro está matando ele. Você pode dar só um pouquinho?” Minha mãe achava graça, minha mãe achava isso encantador.
“Mamo, me fala uma coisa, vamos sentar e vamos conversar. Quando você fazia burekas, como é que você fazia, com a farinha, com a água, com a manteiga, conta para mim.” Aí ela, com a maior cara de ingênua, ela olhou para mim e falou: “Burekas? Ni sei como se
hace isso!” Falei: “Mãe, você sempre fez.” “Io? No!”—ela esqueceu.155
Depois de inúmeras tentativas para reproduzir a massa das burekas que tantas vezes observara a mãe fazer, quase vencida pelo desespero, Hannah deitou-se para descansar:
Eu falei: “Vou começar a fazer testes. Aí abre e fecha a massa, péssimo, ai, que horror! Mais um pouco, fazia, horrível! Quando eu achava que estava começando a melhorar, um dia eu fui lá levar para o meu irmão provar. Ele falou: “Que horror! O que que é isso?” Isso era terça quando ela ligou, eu quarta, quinta tentando, era para a outra semana. E como é que eu vou fazer? Aí pensando, pensando, eu fiquei preocupada, falei: “Bom, eu vou testar mais uma vez, mais duas.”
[...] Aí eu tentei, era quase meia-noite e meia, eu já estava cansada, cansada, deitei um pouco, eu acho que você acredita, porque você é sefaradi, você sabe que essas coisas iluminadas acontecem, os milagres acontecem e eu me deitei e era como se, olha, começo a falar e meus olhos se enchem d'água! Era como se eu tivesse alguém vindo no meu ouvido e me falar a receita, você acredita?
154 Entrevista concedida a Rafaela Barkay por Hannah.
“A comida envolve emoção”—diz Maciel—“trabalha com a memória e com sentimentos. As expressões ‘comida da mãe’, ou ‘comida caseira’ ilustram bem este caso, evocando infância, aconchego, segurança, ausência de sofisticação ou de exotismo.” E prossegue:
O “toque caseiro” é o toque mais íntimo em oposição ao “toque profissional”, em série, não-pessoal. O toque “da mãe” é uma assinatura, que implica tanto no que é feito, como na forma pela qual é feito, que marca a comida com lembranças pessoais. A comida pode marcar um território, um lugar, servindo como marcador de identidade ligado à uma rede de significados. (MACIEL, 2001, p. 151).
Ao evocar a sabedoria da mãe, Hannah conectou-se ao fluxo da memória coletiva sefaradita. Aquilo que para ela era memória de infância, desempenhava também o papel de elo de conexão com a tradição que a antecedera. A percepção da interferência divina nos fatos da vida, a interpolação dos mundos real e imaginário, a transmissão informal e muitas vezes quase imperceptível da cultura no ambiente doméstico, o orgulho por se perceber como herdeira de um legado e acima de tudo, a consciência de pertencimento a um povo estiveram presentes em todo o discurso de Hannah. Foi preciso que ela respirasse para que aquele conhecimento que já fazia parte de seu íntimo pudesse se revelar como um sussurro vindo de um momento distante e já inatingível em que a presença forte e decidida da mãe lhe indicava o caminho a seguir. Por fim, quando solicitei a receita das burekas na intenção de ilustrar esta pesquisa, recebi um não como resposta, que aceitei e compreendi com um doce sorriso nos lábios, afinal isto também é a tradição.