2 Hazard identification and characterisation
2.1 Literature
A procura por interação com outros sujeitos, longe de seu co- tidiano – podendo ser também viajantes ou habitantes locais –, como visto, é uma das principais motivações de Benny para empreender suas jornadas. De maneira significativa, o apreço pelas possíveis as- sociações em seus deslocamentos e o valor da “imanência da es- trada” aproximam sua disposição de fabricar um roteiro idêntico ao de Ceci. Ambos, assim, não se importam em “desembarcar” em “portos” conhecidos, mas objetivam viver tais espaços de modo a distanciar-se de comportamentos ou visões prescritas por roteiriza- ções de agências. Como relatei, conheci Benny em um percurso que tinha como destino Ilha Grande, no Rio de Janeiro, apenas uma das paradas que o economista pretendia fazer ao longo de alguns países que compunham a América do Sul. Sua viagem era dividida, segundo ele, em visitações a lugares de cidade e de natureza, mas seu obje- tivo geral – conhecer pessoas – era o mesmo nas duas ambiências.
Especificamente acerca da viagem sobre a qual mais conver- samos, que duraria seis meses, de acordo com seus planos iniciais, ela começou na cidade do Rio de Janeiro onde o inglês passou cerca de um mês. Depois, motivado pelo relato de outros viajantes, de- cidiu-se por visitar o litoral carioca, buscando, a partir daí, cruzar a divisa com a intenção de também conhecer a costa paulista. Foi nesse momento inicial de sua viagem, como pontuado, que nos co- nhecemos. Do litoral paulista, sempre no sentido de dar forma uma movimentação que cotejasse grandes e pequenas cidades, dirigiu-se a Florianópolis. Após algumas semanas na capital de Santa Catarina, efetuou um deslocamento rumo à cidade de Porto Alegre, onde passou um par de dias e tomou um ônibus para Montevidéu, no Uruguai. No referido país, ainda visitou as localidades de Punta del
Este e de Punta del Diablo, conhecidos destinos turísticos, porém
frequentados por perfis diferentes de viajantes. Nas palavras de Benny, Punta del Diablo foi uma “experiência única”, devido à cal- maria e às conversas constantes com os habitantes locais.
Terminado o tempo no Uruguai, o economista cruzou o Rio da Plata e desembarcou em Buenos Aires. Após duas semanas na capital
argentina, as cidades de Rosário, Córdoba e Mendoza foram visi- tadas. Em Mendoza, especialmente, as vinícolas foram bastante men- cionadas no discurso de Benny, um argumento que ressaltava a be- leza do lugar e os passeios ciclísticos diários realizados por ele na companhia de outros viajantes. Depois disso, Benny rumou para Santiago, de onde também visitou as cidades de Valparaíso e Viña del
Mar. Passados alguns dias nesta última cidade litorânea, o destino
apresentou-se como sendo o sul do Chile: Puerto Varas e Puerto
Montt, na Região dos Lagos, foram percorridas. Continuando sua tra-
jetória, o destino seguinte do economista, após uma breve parada em Santiago, foi o norte do país, de onde cruzou a fronteira com o Peru para visitar Arequipa e Lima. De Lima, Benny encaminhou-se para aquilo que – conforme suas palavras – foi uma das experiências inesquecíveis de sua viagem: a visitação de Cusco e, em especial,
Machu Picchu. Esta última localidade foi descrita pelo inglês a partir
do emprego de adjetivos como “mágico”, “único” e “original”.
Figura 5 – Roteiro de Benny pela América do Sul
Para além de reflexões acerca da posição de centralidade que os encontros ou associações com outros sujeitos ocupam nos empre- endimentos de viagens, algo que já foi discutido nas considerações sobre as experiências de Ceci, a análise da composição do roteiro de Benny pode levantar questões acerca de um tema clássico na litera- tura dos estudos do turismo. Desde Boorstin (1992) e MacCannell (1999), por exemplo, a “autenticidade” é pontuada como um dos pro- pulsores da atividade turística.102 E, em certo sentido, não estaria
Benny à procura disto quando opõe a viagem a seu cotidiano de rela- ções mecanizadas ou quando fabrica suas rotas de modo a visitar não somente grandes cidades, mas igualmente cidades ou locali- dades de pequenas dimensões ou interioranas? O pensador francês
102 Ao analisar a moderna sociedade estadunidense, Boorstin (1992) aponta como seus ele- mentos de estruturação a superficialidade, a massificação e a mercantilização das experiên- cias pessoais. Segundo o pensador, o progresso tecnológico e crescente domínio da natureza pelo homem foram responsáveis pela criação de expectativas que não podem ser cumpridas; um deslocamento, então, entre realidade e desejo operou-se. No sentido de tentar satisfazer tais expectativas inatingíveis, contudo, “pseudoeventos” são criados e mercantilizados, po- dendo ser entendidos como experiências fabricadas/encenadas para um consumo que não se dirige mais ao que é do registro do “autêntico”. A “bolha ambiental” – onde o viajante é subs- tituído pelo turista que busca, mesmo na distância de sua comunidade de origem, o como- dismo, a segurança e a familiaridade – seria, portanto, uma expressão da superficialidade destacada, sendo o turismo moderno conformado a partir dos citados “pseudoeventos”.
Exótico e diferente são apontados por Boorstin (1992) como imagens perdidas no tempo, so-
lapadas pela atuação de turistas, empresas e governos que fazem o comércio de atrações por ele consideradas homogêneas e, por isso mesmo, inautênticas. De forma próxima a caracteri- zação da sociedade norte-americana feita por Boorstin, MacCannell (1999) realça a superfi- cialidade e a fragmentação da experiência como componentes constituintes das sociedades modernas, sendo o cotidiano dos homens definido por modo de vida alienante, inautêntico. Mas, ao contrário de Boorstin, MacCannell não considera os turistas como reprodutores e consumidores, em suas viagens, da alienação pelo primeiro criticada. Para ele, os turistas em seus périplos buscam reintegrar a dimensão de autenticidade perdida em seu mundo ordi- nário, o envolvimento com as culturas e sociedades visitadas configurar-se-iam como essas vias de superação da alienação, oportunizando o estabelecimento de relações “reais”. Turista e peregrino se associariam, em termos de imagem, como aqueles que em seus caminhos procuram algo sagrado para redefinir suas experiências ordinárias. Importante frisar que não necessariamente as viagens são proporcionadoras de encontros com a autenticidade, as ló- gicas mercantis também atuam sob tal domínio, fabricando cópias e simulacros de expressões autênticas. Baseado nesse movimento de cópia é que o autor, inspirado em Goffman (2007), desenvolveu o conceito de “autenticidade encenada”, relacionando-o com os de “região de fachada” e “região de fundo” ou “bastidores”. No turismo massificado, a lógica mercantil ofe- receria apenas encenações da diferença, constituindo uma fachada comumente acessada pelos turistas. Nos “bastidores”, em contraponto, é que residiria a autenticidade, o dado ori- ginal do lugar que se visita. Entretanto, o acesso à “região de fundo” é difícil, sendo ele mesmo objeto de preparação, de encenação, uma vez mais para receber os turistas.
Amirou (2007) possui uma posição interessante acerca da noção de “centro”, presente em alguns empreendimentos de viagem: segundo ele, o interior ou centro de um país reserva para si, na opinião de alguns viajantes, um sentido de originalidade, primitivismo ou inti- midade. Assim, atingir ou buscar atingir o centro ou interior de um país ou região seria o equivalente a conhecê-lo de forma profunda; a “fuga” dos roteiros que priorizam apenas as grandes cidades seria mobilizadora de um imaginário acerca do centro que contrapõe a autenticidade nele presente à artificialidade das periferias.103
A maneira como Benny reporta-se às experiências localizadas em Machu Picchu talvez possam ser consideradas indícios do que aqui se discute. A localidade peruana é descrita como “original”, como “mágica” e como “única”, ganhando proeminência em relação a outros destinos. Ainda sobre Machu Picchu, o inglês afirma ser im- possível ir ao Peru sem conhecer tal lugar, reforçando uma vez mais a impressão de incontornabilidade do centro, do “interior mítico”, conforme Amirou (2007), para o real acesso ou conhecimento do país. O mesmo pode ser dito em relação às sensações de Benny no que diz respeito à localidade de Punta del Diablo,104 no Uruguai. Para
103 Para Amirou, a atividade turística não envolve apenas uma geografia física; ela se serve igual- mente de uma “geografia mítica”. Os mitos do “coração de um país”, do “verdadeiro em um país”, do “segredo de um país”, desta forma, concorrem para a fabricação da atividade, muito pelo trabalho da publicidade ou do marketing turístico, tanto quanto a efetiva experiência de cruzar um deserto ou uma pradaria. Sobre a dimensão mítica que engloba o espaço do tu- rismo, o autor afirma: “A descoberta de um sítio torna-se assim uma prática semântica, uma procura (dirigida e ritualizada) de sentido. Deste modo, o circuito turístico progride desde o mais superficial, o mais conhecido ou menos diferente (o hotel, o banco etc.), rumo às ´pro- fundezas´ e à autenticidade. Este movimento é vivido como um simulacro de exploração se- melhante a um fantasma de desfloração. Fazer quilômetros equivale a ir mais longe no ‘co- nhecimento profundo’ e íntimo de um país. Advém assim uma forma simbólica de divisão radiocêntrica da extensão, materializada por itinerários que vão da periferia para o centro” (AMIROU, 2007, p. 88).
104 O vilarejo de Punta del Diablo é, de forma recorrente, evocado por um grande número de viajantes como destino de destaque na América do Sul. A proximidade com o Brasil coloca-o na condição de fácil acesso, sendo mais um ponto a ser visitado por aqueles que se propõem a fazer um turismo baseado em práticas litorâneas. Importante dizer que a calmaria e a tran- quilidade citadas por Benny parecem, unicamente, ter lugar em Punta del Diablo durante o dia ou nos períodos de baixa estação, uma vez que sua “noite” é descrita para mim por muitos viajantes como bastante “agitada”, oferecendo diversas opções de festas que podem se es- tender para além das madrugadas. Embora seja apontada como um destino concorrido, so- bretudo no verão, Punta del Diablo distancia-se muito, segundo Benny e outros viajantes, do
o economista, a tranquilidade do lugar, associada ao caráter desér- tico de suas praias e a rusticidade de sua arquitetura, revelam um espaço ainda não tão explorado e, por isso mesmo, devendo ser co- nhecido e valorizado enquanto destino. Como o extremo oposto de
Punta del Este – lugar da agitação turística, das mansões e grandes resorts –, é que a antiga colônia de pescadores é prestigiada, sítio
onde se pode “comer um peixe fresco” ou “comprar artesanato dire- tamente das mãos dos moradores”, nas palavras do viajante inglês.
Escusado dizer que a questão da “autenticidade” dialoga de forma bastante próxima com a ideia de um roteiro off the beaten
track, mencionada no tópico anterior. O roteiro feito fora do consi-
derado pelo “turismo convencional”, do que é preparado de antemão por uma agência de turismo, tende a ser envolto por certo senso de “acesso profundo”, “conhecimento genuíno”, “apreensão do ori- ginal” em relação ao lugar que se visita. Mobilizado por essas ideias é que Benny, como último exemplo a ser discutido, resolveu – em sua volta ao Rio de Janeiro – participar de um baile funk em uma favela carioca. O economista afirmava que os tours105 oferecidos durante o
famoso balneário de Punta Del Este, mais próximo da capital uruguaia, Montevidéu. Na se- gunda, por exemplo, a arquitetura consiste em amplas casas de veraneio e prédios altos, configurando um turismo de segunda residência, que contrasta com a rusticidade arquitetô- nica da primeira. Para maiores discussões sobre o desenvolvimento do litoral uruguaio e, principalmente, de Punta del Este como atração turística, ver Campadônico e Cunha (2009). 105 A conversão da favela carioca em destino turístico foi, de forma detalhada, objeto de investi-
gação de Freire-Medeiros (2009). Para a pesquisadora, em termos macroestruturais, dois fe- nômenos concorrem para tal conversão: o primeiro, diz respeito à emergência dos chamados
reality tours, elaborados no sentido de oferecer aos turistas uma proximidade maior com
aquilo que antes era inconcebível de figurar entre seus “objetos de olhar”. Exemplo clássico desses reality tours são os passeios por bairros como Soweto, na África do Sul, associados à memória do apartheid naquele país. Ao lado dessas “experiências singulares”, para Freire- Medeiros, a circulação da favela enquanto “marca” – ambiência de novelas, filmes e video- clipes (como o de Michel Jackson, no morro Dona Marta) – também contribuiu para a conso- lidação de interesses e olhares curiosos sobre o lugar. A experiência de Benny no citado baile
funk na favela carioca, portanto, abre espaço para a discussão do consumo de tours por parte
de viajantes que antes o criticavam por buscar fazer seus deslocamentos sem mediações de agências. Ao mesmo tempo, em um plano maior, a atuação de tais operadoras turísticas na favela engendra uma necessária reflexão sobre as relações entre turismo e comunidade, cha- mando à baila, inclusive, o tratamento de questões morais como uma possível exploração da pobreza ou da admissão da precariedade como atração turística em nome do chamado “tu- rismo de experiência”. Para mais sobre o tema, ver – além de Freire-Medeiros – Panosso Netto e Gaeta (2010) e Freire-Medeiros e Castro (2007).
dia não se apresentavam como atividade de seu interesse porque tomavam a favela apenas como mais um “objeto para se ver”. Em sua opinião o baile funk, ao contrário, proporcionaria uma oportunidade privilegiada de se apreciar como as pessoas que habitam o citado lugar “realmente vivem”; a festa seria um dos canais, portanto, de manifestação do “genuíno” da favela. As relações lá estabelecidas seriam, então, mais autênticas.
O que Benny, contudo, parece não ter se dado conta é de que – como afirma Freire-Medeiros (2009) – a favela e suas múltiplas ex- pressões, incluindo o baile, nos últimos anos foram alçados à con- dição de “pontos turísticos”, figurando como espaço de constante exploração levado a cabo por empresas que tomaram para si a tarefa de elaborar tours ou passeios fora da alçada daquilo que era conside- rado convencional, objetivando atingir um perfil de viajantes que, outrora, caracterizava-se pela evitação deste tipo de mediação. O baile funk visitado por Benny, assim, era também um “produto” ofe- recido por uma “operadora de turismo mochileiro”, como seu pró- prio site a definia, que tinha sugestivamente como slogan a ex- pressão: “Não seja um gringo, seja um local!”. Ou seja, o que talvez possa ser dito em relação à posição de Benny diante da compra de um tour – antes criticado – para a festa na favela, é que a imagem daquele espaço como algo da ordem do “primitivo”, “original”, “au- têntico”, “natural” ou “simples”, se sobrepõe à insatisfação no que concerne aos processos de mediação que serão experimentados: o deslocamento em transporte sugerido pela agência contratada, a vin- culação a um guia turístico e o posicionamento, por vezes, em áreas denominadas VIP´s (camarotes reservados aos turistas), onde a inte- ração com a população local é reduzida.