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LITERATURE CITED
O ser humano, enquanto ser racional que pensa e é capaz de tomar decisões de forma consciente, resulta da fusão de diversas dimensões das quais, a genética, cultural, social e educativa. As relações estabelecidas entre todas essas dimensões fazem com que o indivíduo construa a sua personalidade, valores e conhecimentos fazendo de cada homem um ser único e individual.
Tendo em conta esta realidade vemos que cada uma das crianças que integram uma turma e cada professor possuem caraterísticas únicas que orientarão a ação do indivíduo dentro e fora da sala de aula. A criança enquanto ser único possui diferentes capacidades, necessidades e interesses que deverão ser potenciadas e consideradas ao longo do processo de aprendizagem da mesma. Assim, de acordo com Grave-Resendes
e Soares (2002), é fundamental que a escola considere e dê resposta a essas individualidades das crianças visando o seu pleno desenvolvimento.
Todavia, apesar de cada vez mais se reconhecer que todas as crianças aprendem de forma diferente devido às suas individualidades, ainda continuamos a assistir a um ensino igual para todos onde as necessidades e interesses de cada criança não são considerados. As crianças ao entrarem na escola esperam que a educação que lhes é proporcionada satisfaça a sua curiosidade, sede de descobrir e, para além disso, dê resposta às suas necessidades mas, uma educação igual para todos, não permite que tal aconteça. Deste modo, Perrenoud (2001) e Niza (2000) referem que é crucial que o sistema educativo, as escolas e os professores deixem de ser indiferentes à diferença e que comecem a encarar as crianças como seres únicos que necessitam de diferentes estímulos e recursos de aprendizagem.
Perante esta necessidade de mudar a visão de educação onde “(…) um tipo de ensino ‘pronto a vestir – tamanho único’ não irá servir (…) a alunos com diferentes necessidades, mesmo que estes tenham a mesma idade cronológica” (Tomlinson, 2008, p.9) é crucial diferenciar o ensino para que as escolas possam realmente promover o pleno desenvolvimento e aprendizagem das crianças (Perrenoud, 2001).
Esta necessidade de diferenciar fez com que surgissem diversos estudos que evidenciam os benefícios e importância de implementar nas nossas salas de aula a denominada diferenciação pedagógica. Niza (2000, 2004), Perrenoud (2001) e Tomlinson e Allan (2002) definem a diferenciação pedagógica como uma estratégia que reconhece e respeita as necessidades e interesses das crianças e organiza os percursos de ensino-aprendizagem das mesmas com o intuito de maximizar as suas aprendizagens e desenvolvimento. A diferenciação pedagógica surge então como resposta educativa às necessidades individuais de cada criança (Niza, 2000). O professor ao diferenciar o seu ensino reconhece e respeita as individualidades dos alunos e tenta adequar os momentos de aprendizagem a essas caraterísticas individuais para, deste modo, potenciar todas as capacidades do indivíduo (Tomlinson & Allan, 2002).
A diferenciação pedagógica, tal como a aprendizagem cooperativa, assenta em princípios construtivistas de educação pois, como Tomlinson e Allan (2002) evidenciam, a criança assume um papel central e ativo no seu processo de aprendizagem. Desta forma, segundo Tomlinson e Allan (2002, p.24) e Tomlinson (2008, p.79), a diferenciação pedagógica envolve três elementos chave que irão servir
de base para a ação pedagógica do professor sendo eles: a “receptividade” ou “preparação”, os “interesses” e o “perfil de aprendizagem”.
O primeiro elemento denominado de “receptividade” ou “preparação” corresponde aos conhecimentos prévios, predisposição e motivação da criança para construir novas aprendizagens. O segundo elemento, os “interesses”, diz respeito às curiosidades, paixões e áreas fortes das crianças que aumentam a sua motivação para agir e aprender. Por fim, o terceiro elemento, o “perfil de aprendizagem” evidencia que cada criança tem a sua própria forma de aprendizagem e, como tal, responde de diferentes formas aos diversos estímulos provenientes do meio que a rodeia.
Constata-se assim, que a diferenciação pedagógica exige que o professor tenha em conta os conhecimentos prévios e competências básicas das crianças; tenha em conta os seus interesses e motivações e adeque as suas estratégias à forma de aprendizagem de cada criança. Para que estes elementos possam ser tidos em conta durante a ação do professor é crucial que este conheça muito bem as crianças pois, só assim, poderá ter acesso aos três elementos chave acima referidos e, a partir daí, desenvolver estratégias que se adequem às crianças (Santos, s.d.).
Considerados estes três elementos chave surge a necessidade de saber o que pode o professor diferenciar tendo em conta os pressupostos inerentes à diferenciação pedagógica. Heacox (2006, p.16) e Tomlinson (2008, p.86) referem que a diferenciação pedagógica dentro de uma sala de aula pode ocorrer em três níveis diferentes: “conteúdos”, “processos” e “produtos”. A diferenciação de conteúdos implica que as crianças não aprendam a mesma coisa ao mesmo tempo, já que as suas aprendizagens e construção de conhecimentos numa mesma aula são diferentes. A diferenciação de processos implica que um mesmo conteúdo seja aprendido de diferentes formas através do recurso a diferentes estratégias de aprendizagem. As crianças, perante a diferenciação de processos, percorrem diferentes caminhos para atingir o mesmo fim. A diferenciação de produtos permite que a criança evidencie as suas aprendizagens através da apresentação de diferentes resultados ou produtos. Perante este tipo de diferenciação a criança evidencia as suas aprendizagens de forma mais significativa pois pode selecionar os produtos mais adequados ao seu estilo de aprendizagem.
O professor, deste modo, tem a possibilidade de recorrer à diferenciação pedagógica a diferentes níveis tendo a possibilidade de recorrer ao(s) que mais se adequa(m) às necessidades, interesses e perfil de aprendizagem das crianças.
Tendo bem presente todos os pressupostos anteriormente referidos, o primeiro passo de um professor que pretende promover aprendizagens diferenciadas consiste em conhecer bem os seus alunos para poder identificar as individualidades e necessidades de aprendizagem de cada criança (Tomlinson & Allan, 2002). Depois de conhecer bem a turma, é fundamental que o professor se consciencialize que, na educação diferenciada, deixa de assumir o papel central enquanto possuidor e transmissor de conhecimentos. Perante esta estratégia educativa, o professor passa a assumir o papel de organizador de ambientes e percursos de aprendizagem que visem o pleno desenvolvimento e aprendizagem das crianças (Tomlinson, 2008).
Para além do já referido, Grave-Resendes e Soares (2002) e Tomlinson (2008) acrescentam que o professor que pretende instituir na sua sala de aula a diferenciação pedagógica deve partir dos conhecimentos prévios das crianças para adequar o currículo às necessidades do grupo. A planificação das aprendizagens diferenciadas deve resultar da interação entre o professor e as crianças pois só assim será promovida a construção de conhecimentos de forma significativa e tendo em conta as individualidades dos alunos. Os momentos de aprendizagem criados pelo professor devem envolver as crianças ativamente, para que os conhecimentos que estas possuem possam ser utilizados em diferentes contextos educativos.
Para além disso, na promoção de um ensino diferenciado importa que os ambientes educativos a que a criança é exposta promovam o desenvolvimento do seu pensamento crítico e da sua criatividade pois constituem dois elementos chave para o pleno desenvolvimento da criança. No que concerne aos conceitos envolvidos nas várias atividades estes devem ser claros e devem evidenciar as relações existentes entre os mesmos para que, deste modo, as crianças possam aprendê-los de forma articulada (Grave-Resendes & Soares, 2002; Tomlinson, 2008).
Numa sala de aula diferenciada, a avaliação formativa deverá estar sempre presente no processo de aprendizagem da criança pois, deste modo, serão detetadas as fragilidades e progressos das crianças o que possibilitará a planificação de atividades com base na avaliação realizada (Grave-Resendes & Soares, 2002; Tomlinson, 2008). A diferenciação pedagógica exige que o professor oriente as crianças e organize o currículo de modo a que, através de diferentes formas de aprendizagem, as crianças possam em conjunto alcançar objetivos comuns que envolvem a aprendizagem e o desenvolvimento global.
Contudo, apesar de todos os benefícios inerentes à diferenciação pedagógica, é de referir que existem diversos fatores que podem dificultar a educação diferenciada, nomeadamente, a falta de recursos, o número elevado de alunos por turma, os desadequados espaços de aprendizagem, entre outros (Perrenoud, 2001). Com o propósito de tentar minimizar esses obstáculos é crucial que o professor organize o tempo e espaço com o objetivo de facilitar a implementação da diferenciação pedagógica e que as aprendizagens diferenciadas deverão surgir de forma gradual para que as crianças comecem a desenvolver alguma autonomia.
Deste modo, o professor deve, segundo Gregório (1997), organizar o espaço de modo a possibilitar a realização de atividades variadas e o acesso a diferentes materiais. Na sala de aula deve existir uma panóplia de materiais que possam ser utilizados pelas crianças para desenvolver diferentes competências. Importa ainda estabelecer, em colaboração com os alunos, momentos da rotina diária, que serão destinados às aprendizagens diferenciadas e mais autónomas por parte das crianças pois, só através da autonomia, será possível diferenciar e dar-lhes apoio adequado.
Considerando que todas as crianças possuem diferentes ritmos de trabalho, uma boa organização do espaço, dos materiais e do tempo não é suficiente. Como tal, na sala de aula podem ser criadas áreas que as crianças possam recorrer ao terminarem as tarefas propostas pelo professor continuando, assim, o seu processo de aprendizagem de acordo com o seu ritmo, necessidades e interesses. Gregório (1997) sugere, por exemplo, que seja criada uma biblioteca da turma e ficheiros que as crianças, de forma autónoma e responsável podem utilizar aquando do término das tarefas. Caso tal não seja possível, o professor pode disponibilizar atividades que Tomlinson (2008, p.62) denominou como “atividades-âncora” que podem ser selecionadas pelas crianças e que exigem autonomia e responsabilidade.
Conclui-se, assim, que para haver diferenciação pedagógica é necessário que o professor e sistema educativo reconheçam as individualidades de cada criança, a partir das quais seja possível adequar as estratégias e métodos de ensino-aprendizagem ao estilo de aprendizagem de cada uma (Gregório, 1997).
Investir num processo de diferenciação pedagógica que implique transformações qualitativas nas escolas é sobretudo, saber aquilo que interessa ensinar, perceber que a aprendizagem é algo que acontece dentro de nós e não algo que apenas vem do exterior, reflectindo continuamente sobre as ‘particularidades’ de cada um dos nosso alunos e avaliando a forma como
podemos desenvolver o que de comum esses alunos partilham, enquanto seres humanos, bem como as singularidades de que são portadores enquanto indivíduos (Tomlinson & Allan, 2002, p.29)
Assim, a educação deve basear-se num conjunto de estratégias que possam ser selecionadas pelas crianças para aprender um determinado conteúdo e visando sempre a maximização das suas potencialidades (Tomlinson, 2008) através de momentos de aprendizagem ativos, significativos, variados e integrados (Morgado, 1999).