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Para encontrar um vínculo de trabalho formal, com registro em carteira e salvaguarda de todos os direitos conferidos pela Consolidação das Leis do Trabalho, geralmente os motoqueiros devem se submeter a duas possibilidades: ou se empregar como mais um dos funcionários de uma empresa, que tenha a função de motoqueiro no seu plano de cargos e salários, ou se empregar em uma agência de entregas, que irá registrar esses motoqueiros, os quais geralmente prestarão serviços a uma só empresa, que prefere terceirizar essa função. Descrevem tais empresas, que preferem terceirizar o setor de entregas, de maneira semelhante aos empreendimentos econômicos que Santos

(2004) chama de circuito superior da economia: bancos, multinacionais, empresas de alta tecnologia e de capital intensivo. Isso não deve, contudo, nos levar à falsa ideia de que todos os motoboys sob vínculos formais trabalhem para o circuito superior, pois alguns podem trabalhar como empregados do setor de transporte, de empresas do circuito inferior. Entretanto, o fato de muitos deles prestarem serviços para empresas do circuito superior nos mostra como os motoboys que alocamos, nesta pesquisa, no circuito inferior da economia, dão, através de suas atividades, sustentação ao circuito superior, como uma possibilidade barata e eficiente de transporte.

Para alcançar um posto de trabalho como empregado de uma empresa ou em uma agência de motoboys que terceirizam o trabalho de entrega de grandes clientes, segundo Bombeiro, motoqueiro da Motofarma, as coisas se complicam um pouco, pois os empregadores se tornam mais exigentes:

Aí o negócio é mais embaçado105, os caras querem

experiência... um monte de coisa...ah! e o cadastro no MOTOFRE, sem isso você não consegue mais nada, a não ser nessas agências furrebas por aí. (Diário de Campo – dia

15/07/2010)

Uma vinculação trabalhista formal lhes garante um piso salarial de R$ 700,00, cesta básica e, dependendo do número de funcionários da empresa, um plano de saúde; alguns chegam a ganhar no final do mês, entre salário e benefícios, mais de R$ 2.000,00.

Ao contrário do que se possa imaginar, nem todos os motoqueiros estão satisfeitos com o fato de pertencerem ao quadro de funcionários de uma empresa. Leão, motoqueiro da Motofarma, preferia o vínculo que tinha antes, o de cooperado, pois recolhia INSS sobre R$ 900,00, o que lhe garantia esse mesmo valor, caso ficasse impossibilitado de trabalhar, por questões de saúde. Hoje, com o novo contrato, recebe sobre o piso, o que não lhe garantirá, em hipótese de algum acidente, arcar com suas despesas, pois, para ele, esses duzentos reais a mais fazem a diferença. Apoiado por seus amigos que participavam da conversa, garantiu que ganhavam melhor, quando trabalhavam para a cooperativa que prestava serviço para a empresa da qual são empregados hoje.

Além disso, Leão também percebe a organização do trabalho em sua empresa como nociva aos profissionais, uma vez que os motoqueiros que trabalham para essa empresa não fazem entregas por toda a cidade: cada um tem uma região específica para realizar suas atividades diárias, que são sempre as mesmas. Eles frequentemente cobrem

um único bairro ou apenas um setor do mesmo. Acredita que os motoqueiros que começam trabalhando assim não adquirem o que há de mais importante para um motoboy, ou seja, o conhecimento do espaço da cidade.

Esses caras chegam aqui mais perdido que tudo. Não sabem nem olhar o Guia. Ficam fazendo entrega somente em uma zona restrita da cidade... se perdem este emprego, tão ferrados. Se quiserem trocar de emprego não podem, pois não têm conhecimento da cidade... acabam escravos disso aqui. (Diário de Campo – dia 23/07/2010)

Essa organização do trabalho extremamente rígida quanto à rotina diária e ao tipo de atividade desenvolvida, além de uma região de abrangência tão fracionada em relação ao espaço total da cidade, é o que chamo aqui uma organização do trabalho terciária. Apesar de vermos que o discurso de Leão está totalmente em desacordo com esse tipo de organização do trabalho e que isso encontra eco no discurso de outros motoboys, alguns veem nela certos pontos positivos.

O motoqueiro Léo da Motofarma gosta de trabalhar em um único setor da cidade e argumenta a respeito de sua preferência:

Eu cubro uma parte da Freguesia (referindo-se à Freguesia

do Ó). Moro lá. Muitos aqui trabalham na região onde

moram. Isso é bom, no sentido de que você conhece bem o lugar, fica acostumado com os clientes, já sabe os melhores caminhos, os lugares bons para parar a moto, conhece os maluco do lugar... eu gosto. (Diário de Campo – dia

14/07/2010)

Para Andréa, motoqueira do Canal, isso também é encarado como algo bom, pois lhe facilita a vida no trabalho:

Eu trabalho só na Zona Sul. Presto serviço... sou tercerizada de uma empresa multinacional de elevadores e fico só lá. Eu gosto disso... acho que a gente se acostuma com o lugar e com as pessoas, e eles se acostumam com a gente também. As coisas andam melhor. (Diário de Campo – dia

17/07/2010)

Na fala dos dois motoboys, é possível observar a maneira como consomem (CERTEAU, 1994) as determinações de uma especialização do trabalho, que surge na categoria dos motoboys em São Paulo. Valem-se taticamente de algo que reconhecem como bom para a empresa, a fim de tornar mais aprazíveis suas atividades diárias, visto que, além de estabelecerem um contato mais cordial com as pessoas do local onde realizam suas atividades, conseguem outras vantagens, como maior segurança para eles e para suas motos.

Andréa me contou, ainda, que acredita que, na maior parte das agências de motoboys que terceirizam o serviço com clientes grandes, isso aconteça, ou seja, as empresas optem por setorizar os profissionais, de sorte a estabelecer uma melhor relação entre os clientes e os motoqueiros. Apesar de, como vimos acima, não podermos ligar a organização terciária do trabalho de motoboy ao circuito superior (SANTOS, 2004), podemos supor que este apresenta influências importantes, nessa organização de trabalho, já que uma das características das empresas do circuito superior é uma grande preocupação com a organização e a precisão de seus processos. Andréa acredita que faz parte de uma estratégia da empresa e que isso, indiretamente, facilita a vida dos motoqueiros; segundo ela, é muito difícil conhecer toda a cidade de São Paulo e ,como o turn over dos motoboys é muito grande, nas agências, sempre com muita gente nova começando na profissão, fica mais difícil treinar essas pessoas para trabalharem na cidade inteira, do que em um determinado setor. Concorda com a estratégia da empresa e entende que seja importante uma relação mais próxima dos motoqueiros com seus clientes, pois esse trabalho envolve confiança:

Nosso trabalho é de muita responsabilidade, transportamos peças caríssimas, documentos importantes, malotes, dinheiro... coisas muito importantes para as pessoas que precisam da gente, então, acho que a confiança é fundamental para os clientes. (Diário de Campo – dia

17/07/2010)

Embora concordem que há pontos positivos para as agências, nessa especialização do trabalho por áreas, Ronaldo e Luiz percebem pontos negativos que essa organização das atividades traz para o motoqueiro e para a categoria: um desconhecimento do espaço total da cidade. Na opinião de Luiz, os motoqueiros que trabalham assim terão problemas, se precisarem mudar de emprego.

O cara que trabalha assim se precisar fazer uma entrega em outro lugar tá ferrado. Já pensou se todo mundo se especializa? Só vai saber trabalhar naquele lugar. Uma das coisas boas de ser motoboy é que você tem a chance de conhecer muitos lugares diferentes, ter uma noção completa da cidade: é isso que faz as pessoas precisarem dos motoqueiros. (Diário de Campo – dia 16/07/2010)

A fala de Ronaldo completa:

Se têm coisas boas nessa profissão é o fato de que você pode conhecer muitos lugares e pessoas. Tem muita gente chata, mas, também, tem muita gente legal que você pode conhecer. Isso pode até mudar sua vida. (Diário de Campo – dia

Ronaldo sabe que rodar por toda a cidade lhe impõe encontros com os mais variados tipos de lugares e pessoas, e que isso pode trazer muitos benefícios aos motoqueiros que estiverem atentos. Foi por intermédio de uma cliente que conheceu o artista plástico espanhol, Antoni Abad, e que ingressou como membro do Canal Motoboy, o que lhe franqueou acesso a muitas coisas a que não tinha antes, como veremos no próximo capítulo. Neka é outro que evidencia a importância de transitar por toda a cidade, mostrando-nos as possibilidades estratégicas (CERTEAU, 1994) que podem nascer dessa circulação mais completa, pelo estabelecimento de vínculos que os potencializariam enquanto pessoas. Ao nos encontrarmos em um bar, no dia 22/07/2010, me contou que pôde, durante seu tempo de motoboy, conhecer muitos dos museus da cidade, levando-o a conhecer muitas pessoas que o inspiraram a voltar a estudar. Conhecer os caminhos e os lugares da cidade e poder circular livremente por toda ela não é importante apenas para o exercício da função, mas também para as vidas das pessoas e para a própria cidade, como uma expressão de sua urbanidade (OLIVA, 2004).

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