Sobre a relação entre o projeto nacionalista de Amílcar Cabral e o marxismo, uma das teses difundidas na literatura é que Amílcar Cabral teria sido antes de mais nada um nacionalista e que, ao nacionalismo, posteriormente ter-se-ia juntado o marxismo.
Em 1983, Vasiliy Solodovnikov, cientista social da União Soviética, apontava a luta de libertação nacional como o caminho que levara Cabral ao marxismo-leninismo. Assim Solodovnikov descrevia esta aproximação:
A. Cabral chegou à compreensão e ao reconhecimento das verdades do marxismo-leninismo não através do estudo livresco, mas pela própria vida e luta contra o colonialismo e o imperialismo. A própria lógica da luta dos povos da Guiné e Cabo Verde contra o colonialismo e o imperialismo levou A. Cabral e os seus companheiros de luta revolucionária à compreensão do marxismo- leninismo enquanto base ideológica da luta de libertação nacional.110
Segundo essa perspectiva, Cabral já tinha enveredado pela luta anticolonialista quando interessou-se pela ideologia marxista. Note-se que o nacionalismo descrito por Solodovnikov como impulsionador deste interesse tem como base geográfica os territórios da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. As outras análises que mencionaremos a seguir terão como referência o continente africano como um todo.
Chabal acredita numa primazia do nacionalismo sobre o marxismo no percurso de Cabral. Na sua narração biográfica, Amílcar Cabral aparece comprometido com a libertação da África já 108 CABRAL, Amílcar, “Fundamentos e objectivos da libertação nacional em relação com a estrutura social”, p. 247,
grifo nosso.
109 CABRAL, Amílcar, “Hoje e amanhã”, in Cabo Verde: reflexões e mensagens, Praia, Fundação Amílcar Cabral, 2015 [1944], p. 29. Texto publicado no Boletim da Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, ano II, n. 11, 1949. 110 SOLODOVNIKOV, Vasiliy, “Amílcar Cabral como teórico da revolução africana” in Continuar Cabral – Simpósio
Internacional Amílcar Cabral, 17-20 Jan. 1983, Praia. Odivelas: Grafedito/Prelo-Estampa, set. 1984, disponível
nos anos 1940. Isto teria feito com que Cabral não fosse dos estudantes africanos mais ativos na esquerda oposicionista portuguesa, pois esta centrava esforços em derrubar o fascismo, e não o colonialismo.111 Segundo Chabal, a sua preocupação com a libertação africana teria contrabalançado
a influência do marxismo ortodoxo do PCP, de pouca utilidade para a causa da descolonização.112
Andrade, por sua vez, conta que Cabral e seus colegas estudam marxismo e militam em organizações democráticas portuguesas ao mesmo tempo que buscam conhecimentos sobre a cultura africana. As atividades de “salvaguarda da identidade” africana corresponderiam ao que Cabral chamou de “reafricanização dos espíritos”. Conforme o biógrafo angolano, estas atividades incluiriam “a assimilação do new negro americano, da negritude apreendida através da célebre antologia de Léopold Sédar Senghor, os contatos estabelecidos com a revista Présence Africaine e a procura de informações sobre a evolução dos combates políticos em África”.113 Em meados dos
anos 1950, teria ocorrido o rompimento “com a noção estática da reciprocidade de consequências entre a luta contra o fascismo e contra o colonialismo”.114 Segundo Andrade, as primeiras análises
políticas de Cabral contra a dominação colonial portuguesa, de 1957, sofriam de mimetismo ideológico e dogmatismo, não apreendendo corretamente a realidade social das “massas colonizadas”.115 As elaborações teóricas dos anos seguintes corrigiriam estas falhas, numa releitura
do marxismo. Após o Massacre de Pidjiguiti, em Bissau, em 1959, no qual trabalhadores africanos são mortos durante uma greve, ocorre o que Andrade chama de viragem decisiva: a passagem da mobilização da cidade para o campo, a preparação para a luta armada, e a aquisição de referências de guerra popular anti-imperialista.116
A análise de Andrade coincide com a do próprio Amílcar Cabral. No Seminário de Quadros de 1969, Cabral diz que, no começo, o movimento tentou organizar a luta de acordo com exemplos de outras terras, como os países europeus ou as colônias francesas na África. Por isso, mobilizavam os trabalhadores da cidade, organizavam greves, manifestações etc. Mas, estas formas de luta mostraram-se pouco proveitosas, diante da truculência do colonialismo português e da pouca força econômica dos meios urbanos na Guiné. Aos poucos, foram adaptando a organização à realidade 111 CHABAL, Patrick, op. cit., pp. 40-42. Com relação à posição da esquerda portuguesa sobre a descolonização, em especial a posição dos comunistas portugueses, lembremos que somente em 1957 o PCP passa a defender a independência das colônias portuguesas incondicionalmente, isto é, independentemente da situação política em Portugal. Até então, este partido subordinava a descolonização a uma mudança política em Portugal, e argumentava que a imaturidade política poderia levar os povos coloniais à submissão a um outro imperialismo (SOUSA, Julião,
op. cit., pp. 117-120).
112 CHABAL, Patrick, op. cit., pp. 40-42. 113 ANDRADE, Mário de, op. cit., p. 53. 114 Ibidem, p. 57.
115 Ibidem, p. 90.
local. O início da mobilização pela cidade, e não pelo campo, teria sido uma avaliação equivocada, incoerente com a realidade da Guiné sob domínio português. O Massacre de Pidjiguiti mostrou-lhes a necessidade de passar para o campo e preparar a luta armada.117 De acordo com o relato de Cabral,
a decisão de transferir a luta para o campo não foi uma aplicação do pensamento de Mao, pois nesta época ele nem sequer o conhecia.118
Sousa considera que não há evidências de que Cabral tenha se envolvido menos com a política portuguesa do que os seus companheiros, ou de que tenha sido menos influenciado ideologicamente pelo PCP do que os demais. Inicialmente, em meados dos anos 1940, Cabral e seu grupo se juntam à luta antifascista portuguesa, sem distinção da luta anticolonial, como reflexo da assimilação colonial. No final dos anos 1940, Cabral e os seus companheiros passam a ter um interesse especial por África, iniciando um lento e difícil processo de autonomização do grupo africano em relação às organizações portuguesas antifascistas. Em 1954, começam a surgir organizações anticolonialistas autônomas, reunindo africanos de diferentes possessões portuguesas.119 Ainda assim, até o final dos anos 1950, é possível encontrar nacionalistas africanos
engajados na política portuguesa – Amílcar Cabral, por exemplo, conta ter participado de manifestações nas ruas de Lisboa em apoio à candidatura oposicionista de Humberto Delgado, nas eleições portuguesas de 1958.120
Para Sousa, no início da mobilização, Cabral não tinha um conhecimento profundo da estrutura social da Guiné, não obstante os trabalhos de campo realizados naquele território, nomeadamente o Censo Agrícola de 1953-1954. A partir de 1963, Cabral faz análises mais aprofundadas da realidade guineense, aplicando o marxismo de forma crítica e corrigindo os erros iniciais.121
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Com a revisão bibliográfica a que procedemos acima, organizada por temas ou questões, assinalamos em que situação está a discussão acerca da relação de Amílcar Cabral com o marxismo. 117 Ver CABRAL, Amílcar, “Partir da realidade da nossa terra. Sermos realistas” in Pensar para melhor agir –
intervenções no Seminário de Quadros, 1969, Praia, Fundação Amílcar Cabral, 2014, pp. 82-106; e CABRAL,
Amílcar, “Evolução e perspectivas da luta” in Pensar para melhor agir, pp. 221-251. 118 CABRAL, Amílcar, “Evolução e perspectivas da luta”, in Pensar para melhor agir, p. 229. 119 SOUSA, Julião, op. cit., pp. 121-125.
120 Ver SOUSA, Julião, op. cit., p. 124. Ver CABRAL, Amílcar, “A estrada larga da esperança” in A luta criou raízes –
intervenções, entrevistas, reflexões, artigos 1964-1973, Praia, Fundação Amílcar Cabral, 2018 [1966], pp. 193-204.
Mensagem ao povo português na emissora A voz da Liberdade, Argel, 2 de julho de 1966. 121 SOUSA, Julião, op. cit., p. 320.
Outros elementos da bibliografia específica aparecerão ao longo da tese, conforme os temas abordados.
2 RECONSTITUINDO INCERTEZAS: NACIONALISMO E MARXISMO NO