• No results found

Winnicott diferencia três séries de atos nos cuidados que a mãe dispensa à criança, “a integração do eu, a psique que habita o corpo e a relação objetal. Numa correspondência aproximada a estes três itens, temos as três funções da mãe: segurar, manipular e apresentar o objeto” (2006, p. 32).

O próprio termo holding, em inglês, como também em português, tem um significado abrangente, incluindo a ideia de tornar seguro, de firmar, de amparar, de impedir que caia, de garantir, de apoiar. Assim, à medida que o bebê cresce, o significado primeiro do segurar fisicamente o corpo do bebê amplia-se cada vez mais, até englobar a função de todo o grupo familiar, em sua designação de entorno da criança. Segundo Winnicott, “os cuidados com as crianças giram em torno do termo segurar, principalmente se permitirmos que seu significado se amplie à medida que o bebê cresce e que seu mundo vai se tornando mais complexo” (p. 54).

O holding leva em conta os cuidados que a mãe tem com seu bebê quanto à sensibilidade cutânea dele, como verificar a temperatura da água, à sensibilidade auditiva, protegê-lo dos barulhos que podem perturbá-lo, à sensibilidade visual, à queda, entre outros manejos.

No início, porém, é o ato físico de segurar a estrutura física do bebê que vai resultar em circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis em termos psicológicos. “Os bebês adquirem confiança em um mundo amigável, mas, o que é ainda mais importante, por terem sidos segurados suficientemente bem. A base da personalidade estará sendo bem assentada se o bebê for segurado de uma forma satisfatória” (p. 54).

Em uma instituição como um berçário, por exemplo, as cuidadoras deverão ser orientadas quanto ao ato de segurar e manipular os cuidados nos seus bebês. Esse cuidado

por ser rotineiro, acaba ficando mecanizado e é muitas vezes negligenciado. Essas cuidadoras deverão ter consciência de que na fase do holding o bebê é dependente ao máximo.

Por vezes, falta atenção exclusiva com seu bebê na hora de alimentá-lo, dar banho, trocar fraldas. Rotineiramente, isso é feito com as cuidadoras conversando com as outras, prestando atenção nos bebês que estão por perto que não são seus, mas estão sob seu cuidado naquele momento para ajudar uma colega que se ausentou. Winnicott demonstrou a importância desse momento quando narrou que “segurar e manipular bem uma criança facilita os processos de maturação, e segurá-la mal significa uma incessante interrupção desses processos, devido às reações do bebê às quebras de adaptação” (p. 54).

O holding inclui especialmente o segurar físico do bebê, e isso constitui uma forma de amar. Segundo o autor (1983) “é possivelmente a única forma em que uma mãe pode demonstrar ao lactente o seu amor” (p. 48). Há aquelas que podem sustentar um bebê e as que não podem; as últimas produzem rapidamente nele uma sensação de insegurança e um choro nervoso. O bebê está em fusão com sua mãe, e enquanto permanece assim, quanto mais próximo a mãe chegar de uma compreensão exata das necessidades de seu filho melhor.

Segundo Winnicott (2005), o holding deficiente produz extrema aflição no bebê, causando a “sensação de despedaçamento, de estar caindo num poço sem fundo, de um sentimento de que a realidade exterior não pode ser usada para o reconforto interno, e de outras ansiedades que são geralmente classificadas como ‘psicóticas’” (p. 27).

O Handling (manipular), talvez o mais importante para o berçário, reporta para os cuidados e as manipulações da criança pela mãe, que ao fazê-lo, proporciona-lhe sensações táteis, sinestésicas, auditivas e visuais, e contribui para a formação do sentimento do real em oposição ao irreal. “A manipulação deficiente trabalha contra o desenvolvimento do

tônus muscular e da chamada ‘coordenação’, e também contra a capacidade de a criança gozar a experiência do funcionamento corporal, e de SER” (p. 27).

O object-presenting (apresentar objetos) corresponde ao modo de apresentação do objeto ou realização, isto é, tornar real o impulso criativo da criança, e dá início à capacidade do bebê de relacionar-se com objetos. Assim, por meio da mãe, a criança tem acesso aos objetos simples, depois a objetos progressivamente mais complexos e finalmente à sua dimensão. As falhas nesse cuidado impedem ainda mais o desenvolvimento da capacidade do bebê de sentir-se real em sua relação com o mundo dos objetos e dos fenômenos.

Bowlby (1979) afirma que a mãe ou o cuidador devotado, que alivia as tensões do bebê, alimentando-o, hidratando-o, oferecendo cuidados de higiene e saúde, segurando-o ao colo para consolá-lo e falando com ele para acalmá-lo, está assentando, sem que o saiba, as primeiras bases de saúde mental do indivíduo. Existe unanimidade entre os autores que estudam o desenvolvimento da criança, que a interação mãe-bebê é categórica, pois determina o surgimento da vida psíquica e permite à criança uma construção de estrutura mental e emocional.

As palavras dos pais nos primeiros meses de vida é para o bebê um elemento estruturante de seu funcionamento psíquico, mas como o bebê sente muito as reações e sentimentos de seus pais pelo corpo, o toque, as carícias, os beijos e os abraços são muito importantes, pois são condutas que mantêm o contato e reforçam o apego.

Portanto, a atitude emocional e a afetiva da mãe servirão para orientar os afetos do bebê e conferir qualidade de vida a ele. É este padrão de relacionamento parental que dará origem à estrutura do desenvolvimento da criança e suas formas de apego com as pessoas.

Só agora começamos a dar-nos conta da maneira absoluta como o bebê recém- nascido necessita do amor da mãe. A saúde da pessoa crescida foi estabelecida no decorrer da infância, mas os alicerces da saúde do ser humano são lançados por

você, nas primeiras semanas ou meses de vida do bebê. Você está alicerçando as bases da saúde de uma pessoa que será um membro de nossa sociedade (Winnicott, 1985, p. 27).

Esse papel que a mãe desempenha nos cuidados com seu bebê o ajuda a estruturar- se como indivíduo. Trata-se de algo que parte da não-organização e vai se organizando sob condições especializadas e dessa forma pode ir se afastando progressivamente da matriz que proporciona essas condições ao bebê para torna-se um ser humano. Se tudo ocorrer bem, pode-se constatar, ao final, o surgimento de uma criança, cujo ego pode organizar as próprias defesas contra as ansiedades decorrentes dos impulsos do id e capaz de viver uma vida independente.