Num tempo já marcado pela crise, a obra épica camoniana vem consolidar a cons- ciência nacional numa tripla vertente: mitificação do passado histórico, exaltação da na- ção contemporânea, assunção de um destino coletivo comum a todo o povo português. Cumprindo os preceitos canónicos da épica, nomeadamente os modelos clássicos de Homero e Virgílio, Os Lusíadas é uma obra que ressuma patriotismo, sobretudo na exaltação que faz não só da aventura coletiva dos Descobrimentos portugueses, mas também do seu passado e futuro. Camões não se limita a can- tar a gesta de um herói ou uma parte da história nacional; conta (e canta) toda a história de Portugal, desde as suas origens mais remotas – Viriato e Sertório são os marcos míticos fundacionais – até ao momento em que escreve, em pleno século xvi. Há, portanto, um desejo de totalidade que não encontramos em outras epopeias, podendo afirmar-se que Camões contribui para a consolidação da iden- tidade nacional no século xvi133.
Em Os Lusíadas encontramos contempladas várias componentes da iden-
133 Fernando Gil considera Os Lusíadas, a par da história da viagem, uma ‹‹narrativa da fundação››, em que avultam as figuras reais de D. Afonso Henriques, D. Sancho I e D. João I, este último protagonista de uma refundação nacional (Gil e Macedo, 1998: 23-25).
tidade nacional, como o território, a língua, os mitos e memórias históricas, a religião e a etnia. É, aliás, pela existência de um Estado e de direito territorial que podemos classificar Os Lusíadas como uma ‹‹epopeia de imitação››, por oposi- ção às ‹‹epopeias primitivas››, ‹‹que se geram numa fase em que não está definida ainda a noção de Estado, em que o grupo étnico se encontra em processo de ex- pansão guerreira›› (Saraiva, 1972: 147-148).
Em termos institucionais e políticos, o poema reforça o lugar de Portugal na Europa como nação independente, com fronteiras territoriais já bem defini- das134, para o que contribuem decisivamente as batalhas contra mouros e caste- lhanos, Ourique e Aljubarrota respetivamente, como momentos simbólicos da afirmação nacional.
Por outro lado, Portugal, como entidade pensante, supera as outras nações europeias, como se deduz do retrato antropomorfizado da Europa, cuja cabeça é constituída pelo reino de Portugal, na descrição de Vasco da Gama ao rei de Melinde: ‹‹Eis aqui, quase cume da cabeça/ Da Europa toda, o Reino Lusitano›› (Camões, [1983]: 134, canto iii, est. 20). Porém, o Portugal que Camões canta é também o do império em construção, ou seja, um Portugal que se expande em termos territoriais, expansão esta que constitui igualmente um importante traço definidor da nossa identidade nacional: ‹‹cada parcela dispersa pelo mundo é a expressão da comunidade inicial›› (Silva, 1972: 25). De acordo com uma con- ceção providencialista da história, Portugal é o país eleito para levar a fé aos territórios bárbaros, imbuído de um espírito de cruzada que ofusca por vezes objetivos mais materialistas, como os interesses comerciais ou o alargamento do território colonial. Este sacrifício nacional pela conversão dos infiéis é também sinal de maior elevação dos portugueses em relação aos outros povos europeus, como se verifica nas primeiras estrofes do canto vii pela oposição entre o elogio ao espírito de cruzada luso e a crítica a alemães, ingleses, franceses e italianos, que não seguem o exemplo português135.
Da independência territorial decorrem dois outros fatores importantes para a identidade nacional: um código legal partilhado por todos os cidadãos e uma econo- mia comum. Em Os Lusíadas, o reino português é regido pelo rei soberano que deve, contudo, garantir a liberdade do povo, ao qual deve ser assegurada igualdade perante a lei. Quanto ao aspeto económico, observamos todos os membros da nação empe- nhados na Expansão Ultramarina, ganhando com as riquezas e sofrendo também
134 É interessante notar que, se bem que Portugal já fosse um país autónomo e independen- te desde o século xii, o primeiro mapa do país data de 1561, o que significa que até então as fron- teiras seriam um conceito relativamente vago, funcionando mais na abstração do que em concretos e precisos limites territoriais.
as consequências mais duras de tal empresa. Temos, portanto, o retrato de uma nação política e economicamente organizada e definida, autossuficiente.
Os Lusíadas deram o seu contributo no que diz respeito ao capital simbóli-
co que esta obra veio a significar para todo o povo português, tendo-se tornado a cartilha do nosso patriotismo, a ‹‹nossa bíblia nacional››, nas palavras de Oliveira Martins (Martins, 1986: 225). O êxito das sucessivas edições deste poema épico demonstra o grau de disseminação da sua mensagem na sociedade portuguesa. Esta obra é o alento espiritual da nação nos momentos em que está periclitante a independência, como afirma Joaquim de Carvalho: ‹‹todas as gerações encontram n’Os Lusíadas, nas horas difíceis e incertas da Nacionalidade, alento, confiança, certeza, como em 1640 e em 1810. É que Camões legou-nos um modo de com- preender e sentir a Nacionalidade de valor constante e objectivo, porque assenta na rocha dos factos e nos sentimentos profundos da alma portuguesa›› (Carva- lho, [1987]: 6). Também Fidelino de Figueiredo releva o mesmo aspeto: ‹‹Nas horas de crise espiritual e nas perturbações políticas volta-se a Camões, como a uma fonte de renovação esthetica e de suggestiva força nacionalisadora e conduc- tora›› (Figueiredo, [1987]: 21).
É sobretudo no campo dos mitos e memórias históricas que Os Lusíadas desempenham um papel preponderante na construção da identidade nacional en- quanto ‹‹força unificadora››, no dizer de Fidelino de Figueiredo (idem; 24). Nas narrativas do Gama (cantos iii, iv e v) e da ninfa (canto x), bem como na descrição das bandeiras por Paulo da Gama (canto vii), Camões empreende a cristalização, por via estética, da história de Portugal. Esta componente histórica aproxima-o dos seus antecessores, como Fernão Lopes, Zurara e Garcia de Resende, mas o género que cultiva – a épica – permite-lhe ficcionalizar os factos136 e assim fazer a apo-
teose da excelência nacional, num tom de incomparável exaltação nacionalista e patriótica. Para chegar a tal objetivo, emprega o autor estratégias retóricas diversas, desde o elogio direto ao valor guerreiro e de caráter dos portugueses, à comparação sistemática dos heróis nacionais com os antepassados gregos e romanos (por anto- nomásia, por exemplo), sendo que estes últimos são superados pelos altos feitos dos primeiros. Pode ainda acrescentar-se a estes processos a alegórica Ilha dos Amores, em que os navegantes portugueses são presenteados não só em termos sensuais, mas também espirituais: é a um português – o Gama – que é concedido o prémio supremo do saber, a visão da ‹‹máquina do mundo››.
Ao contar literariamente a história de Portugal, Camões não só consolida
136 Não pretendemos, com esta afirmação, pôr em causa a veracidade dos factos narrados pelo autor. Referimo-nos, por exemplo, à inclusão dos deuses pagãos, como era da tradição da epopeia clássica.
a memória coletiva como também a mitifica, tendo a sua narrativa um efeito inaugural no que diz respeito aos que se irão tornar mitos nacionais, indicado- res importantes da nossa identidade137. Viriato, Sertório, Afonso Henriques, Egas
Moniz, Nuno Álvares Pereira, Inês de Castro, Vasco da Gama, o Velho do Reste- lo, os Doze de Inglaterra; batalhas como a de Ourique, do Salado, de Aljubarrota; no plano maravilhoso, o Adamastor, a Ilha dos Amores, todos configuram lendas que se tornaram mitos caracteriológicos nacionais, sinónimos de traços pátrios como a coragem, a fidelidade, o patriotismo, a determinação, a honra, o amor, o valor bélico, a religiosidade, o espírito de cruzada, o sentimento de independên- cia, entre outros. Estes mitos vão ser, a partir de Os Lusíadas, elementos defini- dores da identidade portuguesa, traços distintivos que separam os portugueses de outros povos, como afirma Fidelino de Figueiredo: ‹‹São de origem individual, perfilhados pella collectividade, e visam a um objectivo de individualisação›› (Figueiredo, [1987]: 63).
A épica camoniana passa também pela referência ao fator linguístico como componente fundamental do perfil identitário nacional. É no Renascimento que se generalizam os nacionalismos linguísticos na Europa, passando os vernáculos a ocupar o lugar do latim. Daí que seja importante que cada língua se mostre apta para os vários usos, sobretudo nos géneros maiores, como é o caso da epopeia. Com a obra de Camões, a língua portuguesa atinge a maioridade, provando-se suficientemente expressiva, elevada e rica. No entanto, para lhe conferir anti- guidade, Camões não deixa de a enraizar numa língua nobre como é o latim: ‹‹E na língua, na qual, quando imagina, / Com pouca corrupção crê que é a Latina›› (Camões, [1983]: 79, canto I, est. 33).
Pode-se então dizer que com Os Lusíadas a consciência nacional portu- guesa atinge a sua maturidade, uma vez que Camões fixa, em obra literária, o sentimento abstrato de solidariedade nacional, de mitos e memória coletiva par- tilhados, de destino comum dos portugueses, cuja missão providencial é dilatar a fé e o império138. O próprio título escolhido indica a totalidade de um povo, a
sua história, os seus feitos, o seu caráter. Como conclui Hernâni Cidade, ‹‹Os
Lusíadas – são os próprios Lusos, em sua alma como em sua acção›› (Cidade,
1995: 28). E a raiz da palavra – «Luso» – confere um fundo mítico às origens de Portugal. Os portugueses são, assim, ligados remotamente a Baco, de quem Luso (ou Lisa) era companheiro, e que ironicamente é o adversário dos navegantes na
137 Fidelino de Figueiredo fala em ‹‹crystallisação de mythos nacionaes›› (Figueiredo, [1987]: 24).
138 Segundo Hegel, a epopeia é ‹‹o Livro, a Bíblia de um povo. Todas as nações grandes e importantes possuem livros deste género›› onde está ‹‹expresso o seu espírito original››, é a base sobre a qual ‹‹repousa a consciência de um povo›› (Hegel, 1993: 573, sublinhados meus).
obra. Camões desenvolve o mito das origens do povo português, situando em tempos imemoriais a memória coletiva nacional.
Camões não se restringe, como fazem outros autores épicos, a uma parte da história ou a determinado feito139. A sua obra é um tratado sobre a psicologia coleti-
va nacional, e não só dos seus aspetos excelsos, como também dos menos positivos. Já Oliveira Martins, na obra Camões, ‘Os Lusíadas’ e a Renascença em Portugal, chama a atenção para esta consubstanciação da história concreta em sentimento patriótico, afetivo, imaterial: ‹‹Eis aí como o patriotismo português se elabora, de- finindo-se progressivamente no sentido da abstracção››140. Criam-se, deste modo,
‹‹laços imaginados›› entre os membros da nação, que se relêem nela como parte integrante de uma ‹‹comunidade imaginada››141. Para esta tomada de consciência
do sentimento nacionalista é, sem dúvida, determinante a aventura expansionista, que permite à nação ver-se de fora, à distância, una e independente:
Só depois de iniciada a penetração triunfal de regiões estranhas e ter- ras inimigas, reconhece-se o valor basilar da unidade nacional tão cedo alcançada, fundamento e condição imprescindível da independência e grandeza. Só depois de deixar de se encontrar apenas perante rivais afins, enfrentando em território estranho e só, mundo estranho, é que a própria nação fica compenetrada do seu valor e da sua missão, entre outras na- ções (Beau, 1959: 350).
Não esqueçamos que Camões escreve numa época de crise, em que se assiste já ao início da derrocada do fulgor imperial, daí que se encontrem ao lon- go da obra profusos apontamentos críticos, sejam políticos, sociais, culturais ou económicos. Os Lusíadas é, então, uma obra antinómica: o autor não ignora o de- clínio que observa à sua volta, ao mesmo tempo que procura, pela emulação dos heróis exemplares, incitar os portugueses a superar a situação crítica em que se encontram, tornando-os conscientes da sua identidade nacional e da necessidade da sua preservação e manutenção.
139 ‹‹E consiste em dar ao seu poema, não um nome através do qual entrevíssemos acções de um herói, como Aeneada, Franciade, Orlando Inamorato, Orlando Furioso e outros; não um nome que suscitasse a limitada evocação de uma acção militar, posto que grande – Ilyada, Phar-
salia, Punica, Thebaida, Gerusalemme Liberata, ou de uma grande viagem, como Odyssea, Argo- nautica, senão em lhe dar nome que logo nos anuncia a história de todo um povo – Os Lusíadas››
(Cidade, 1995: 27).
140 Fala o autor a propósito do discurso de Nuno Álvares Pereira ao incitar os seus congé- neres à luta pela pátria (canto IV, ests. 14-19). Pensamos, no entanto, que esta abstração do patrio- tismo se pode estender a toda a obra.
141 Traduzo os termos ‹‹imagined ties›› e ‹‹imagined community›› de Benedict Anderson na obra Imagined Communities. Reflections on the Origin and Spread of Nationalism (Anderson, 1991).