Ao analisar a visão dos docentes sobre a educação do campo se desvelou em suas falas ainda certas indefinições conceituais sobre o campo e o rural:
“Existe uma confusão muito grande entre educação rural e educação do campo. Acho que a educação do campo não é só para aquelas pessoas que estão assentadas em áreas consideradas de invasão; a educação ribeirinha, a educação de pequenas comunidades agrícolas, a educação geral; tudo isso faz parte de um grande grupo que podemos chamar de educação rural ou de educação do campo. Normalmente educação do campo é destinada àquelas pessoas que não estão localizadas dentro da zona urbana, dos grandes centros da cidade, o que nós chamamos de áreas rurais, áreas mais distante do urbano. Onde tem aquele foco de pessoas que vivem em torno de seu grupo, de seu grupo familiar, o qual tem características específicas daquela localidade, pela convivência com a terra, com o espaço rural. Então, a educação do campo é toda educação oferecida a essas comunidades, dentro
da realidade peculiar dessas comunidades, fazendo com que essas pessoas permaneçam no grupo que elas fazem pare” (Docente 01).
Na fala do docente fica evidente que educação do campo e educação rural se apresenta, conceitualmente confusa para muitos, mas deixa claro que a mesma se difere pela sua especificidade, pois, em seu relato utiliza sempre a expressão educação do campo e educação rural ao mesmo tempo, para as mesmas definições.
A introdução das discussões em torno da educação do campo surgiu com a expressão educação rural no ordenamento jurídico nas primeiras décadas do século XX, pois foi um período de intenso debate na sociedade a respeito da importância da educação para o movimento migratório, e assim elevar a produtividade no campo. A Constituição Federal de 1988 define a educação como direito subjetivo de todos e dever do Estado, independente dos cidadãos morarem na cidade ou no meio rural. A expressão educação rural sempre foi tratada nos textos constitucionais, a própria LDBEN 9394/96, define como educação rural, garantindo o direito à igualdade e respeito às diferenças.
A partir de discussões em torno da educação do campo nos diversos seminários realizados com a participação dos movimentos sociais, trouxeram para tal diálogo o entendimento que todos aqueles que moram, tanto na região ribeirinha ou de terra firme e não estejam na zona urbana, são considerados povos do campo, e que estes necessitam ter uma educação que garanta a sua especificidade. As Diretrizes Operacionais para Educação Básica nas Escolas do Campo em seu Art. 2º , Parágrafo Único define que:
A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva do País (BRASIL, 2002).
O docente 01 destaca aindaa educação do campo como lócus de especificidade, como lugar específico daqueles que residem em seus diferentes espaços e que se dinamizam com o objetivo de permanecerem no mesmo lugar de origem que se encontram. Não podemos entender que ao homem do campo, resta apenas uma educação que lhe aprimore saberes e conhecimentos, voltados à domesticação ao espaço em que vivem. Mas, compreender que o campo, a educação do campo é lócus de socialização de saberes que se relacionam com a dinâmica do trabalho efetivado e realizado por todos e que a partir de suas organizações
através dos movimentos sociais se constituem verdadeiros espaços de luta em prol de seus direitos.
Garantir a especificidade das escolas do campo, dos diferentes sujeitos que dela fazem parte - ribeirinhos, quilombolas, extrativista, agricultor, dentre outros - é mister na construção de uma educação que realmente valorize a identidade cultural das populações do campo.
Continuando o diálogo com os docentes do Colegiado de Pedagogia ainda sobre a educação do campo, se destaca uma “insegurança teórica” do que é realmente trata a mesma, como podemos perceber na fala do docente:
“[…] Então eu acredito que a educação do campo seria uma modalidade,
não é uma modalidade, mas a educação do campo tem uma especificidade, que a torna, que torna alguns aspectos, lá naquele espaço diferente, que se desenvolve diferente da zona urbana, vamos dizer assim, eu não tenho muita leitura sobre isso” (Docente 02).
A falta de conhecimentos sobre a temática abordada pelo docente 02 se configura como a não-aproximação da realidade da educação do campo, como também, a própria discussão teórica sobre a mesma, dificultando o seu entendimento.
Compreender a educação do campo permite entender o contexto específico que esta se encontra associada ao espaço social que experencia em seu cotidiano, não podemos simplesmente perceber que a educação é um conjunto de especificidades, mas que está sendo vista com base em ideais globais de uma sociedade urbano-cêntrica. Faz-se necessário vislumbrar uma educação do campo que:
[...] reafirma e dialoga com a pedagogia do oprimido na sua insistência de que são os oprimidos os sujeitos de sua própria educação, de sua própria libertação, e também na ênfase que dá à cultura como matriz de formação do ser humano [...] Educação do campo como obra dos sujeitos do campo; educação do campo como intencionalidade de resistência cultural e também de transformações culturais em vista de uma humanização mais plena. (CALDART apud KOLLING, 2002, p. 32).
Uma educação do campo que aponte caminhos de viabilização de políticas de valorização para todos aqueles que vivenciam na dinâmica do trabalho no campo, a partir de uma pedagogia voltada a libertação, e superação do domínio cultural globalizado.
Dialogar sobre a educação do campo com os docentes - sujeitos da pesquisa – propiciou constatar que a vivência com a realidade do campo, através do trabalho e leitura ou
aproximação pessoal, permite definir mais claramente uma discussão aprofundada em torno da especificidade do campo, como aponta os docentes 03 e 04 em seus depoimentos:
“Percebo uma diferença em termos teóricos que se vem construindo em torno da educação do campo e/ou educação rural, até porque está se tentando reconstruir a identidade das pessoas do campo no decorrer do tempo. Eu percebo, ainda, algumas críticas, que há uma diferença muito grande entre educação do campo e da cidade. Será que a educação do campo não vai ser inferior por considerar a cultura das pessoas da região? Então, eu vejo que suscita algumas polêmicas principalmente quando falamos com professores que trabalham no campo, que atuam no campo, para tentar compreender as diferenças, as especificidades do campo e tentar compreender que essa educação não vai ser fechada na cultura daquele grupo, mas sim vai abranger diferentes culturas. A educação do campo tem uma especificidade diferente do urbano” (Docente 03).
“Na verdade eu tive algumas experiências com a educação do campo. Eu vejo a educação do campo de duas formas: uma primeira que é discutir o que é o campo, e depois como esse campo se relaciona com as dimensões urbanas, como elas são dadas, como ele se envolve com aquilo que a urbanidade tem: os prazeres e tudo mais; com a idéia de consumo, da economia. O campo tem uma tradição com as pessoas que vivem lá, através da relação de convivência e sobrevivência. Essa relação de sobrevivência está relacionada com o mundo do comércio e da cidade, das pessoas que moram na cidade, na dimensão da subsistência” (Docente 04).
Na fala do docente 03, define-se claramente a definição de uma diferença entre os termos utilizados entre educação rural e educação do campo, tendo a compreensão da educação do campo como um lugar de cultura ou “culturas”, onde ao se relacionar com os diferentes povos que fazem parte de tal especificidade se constituem povos diversos ao lidar com o que é próprio de seu lugar, mesmo se apropriando de outras formas culturalmente construídas pela sociedade. Não podemos negar a cultura presente nas dinâmicas construídas pela educação do campo, nem, tampouco, esconder da mesma a cultura de massa presente na sociedade urbana. A educação do campo como lugar de diferentes culturas, não pode ser influenciada por uma cultura homogênea, mas como lócus de construção de uma educação voltada à relações curriculares multiculturais, onde:
[...] Implica, assim, refletir sobre mecanismos discriminatórios ou silenciadores da pluralidade cultural, que tanto negam voz a distintas identidades culturais, silenciando manifestações e conflitos culturais, como buscam homogeneizá-los em conformidade com uma perspectiva monocultural (MOREIRA, 2000, p. 39).
O docente 04, analisa o campo anteriormente ao processo de educação que lá existe, partindo de dois pontos básicos: na compreensão do que é o mesmo, a compreensão de tal espaço e a relação existente entre o seu modo de vida singular, sua dinâmica de sobrevivência, associadas ao mundo do comércio urbano.
Compreender o espaço do campo, sua organização, seu modo de vida é mister no entendimento das relações que são dinamizadas pelo processo educativo escolar. Assim, a educação do campo é singular, heterogênea, mas constitutiva de conflitos oriundos da vida sócio-econômica dos diferentes povos que lá habitam. Constitui-se ao trilhar pela cultura que ali perpassa e pelo processo de subsistência em que convivem os povos do campo, onde as relações construídas entre o mundo do trabalho e a dinâmica cultural armazenada pelas populações do campo necessitam ser discutidas e evidenciadas nas relações existentes na educação do campo. Compreendendo:
[...] como uma de suas especificidades a pedagogia da terra, compreendendo que há uma dimensão educativa na relação do ser humano com a terra de cultivo da vida, terra de luta, terra ambiente, planeta. A educação do campo é intencionalidade de educar e reeducar o povo que vive no campo na sabedoria de se ver como "guardião da terra", e não apenas como seu proprietário ou quem trabalha nela. Ver a terra como sendo de todos que podem se beneficiar dela. Aprender a cuidar da terra e aprender deste cuidado algumas lições de como cuidar do ser humano e de sua educação. Trata-se de combinar pedagogias de modo a fazer uma educação que forme e cultive identidades, auto-estima, valores, memória, saberes, sabedoria; que enraíze sem necessariamente fixar as pessoas em sua cultura, seu lugar, seu modo de pensar, de agir, de produzir; uma educação que projete movimento, relações, transformações (CALDART apud KOLLING, 2002, p. 33).
Assim almejar uma educação que projete movimento, transformação, calcada nos princípios da valorização do lugar onde mora, como lugar de subsistência e de valores, que são revolucionados e construídos sob influências urbanas.
A compreensão sobre a educação do campo demonstrada pelos docentes investigados, aponta duas questões: primeiro uma desinformação sobre a temática, segundo uma aproximação discursiva sobre o assunto com base nas experiências vividas. Discutir sobre a educação do campo no curso de Pedagogia, não se faz através de um diálogo conceitual isolado, mas necessariamente constitui-se através das relações que precisam ser estabelecidas no convívio e na necessidade de inserção de tais discussões no currículo do mesmo. O CUBT, lugar onde existe a especificidade da educação do campo, presente na organização
educacional de sua sede no município de Abaetetuba, apresenta em seu contexto um distanciamento sobre a temática, como destaca o discurso dos professores investigados.
A educação do campo em sua realidade incorpora uma realidade histórica variada, englobando diversas práticas, expressa a luta de seu povo por políticas públicas que garantam o direito à educação, a uma educação que seja no campo e do campo: “No: o povo tem direito de ser educado no lugar onde vive; Do: o povo tem direito a uma educação pensada desde o lugar e com a sua participação, vinculada à sua cultura e às suas necessidades humanas e sociais” (CALDART, 2002, p. 26). A especificidade da educação do campo e de seu sentido, devem necessariamente fazer parte das discussões e diálogos que são estabelecidos no cenário do currículo da formação dos professores.
3.2 O CONHECIMENTO DOS DOCENTES SOBRE A CULTURA DAS POPULAÇÕES